A conversa sobre paternidade é uma das mais importantes do nosso tempo. Venha para o PAI: Os desafios da paternidade atual, discutir e colocar em prática o tema.
Compre já o seu ingresso!

Sua compreensão é uma arma poderosa

Existe um problema na luta contra qualquer tipo preconceito: o fato de, às vezes, nos tornarmos tão intolerantes quanto "eles".

Vivemos em um mundo que possui sociedades elitistas, separatistas, xenófobas e egoístas.

Além de medrosas.

Porém, há um braço forte que luta incessantemente para dobrar e mudar padrões de mentalidade que mata tanta gente. São pessoas engajadas em contribuir para a melhora de via de tantas minorias e que, mesmo com um ressentimento tamanho por ações opressoras que reforçam uma condição social de submissão e sofrimento, veem -- ao longo dos séculos -- que agir com ódio desmedido pode ser bem pouco saudável.

Já vivemos em um mundo maluco o suficiente, no qual há pessoas que não conseguem entender que outras duas nascidas com os mesmos órgãos genitais possam se amar.

Você lembra de Cecil Chao?

Cecil Chao Sze-Tsung
Cecil Chao Sze-Tsung

Ele é um bilionário de Hong Kong e, há alguns anos, ofereceu uma montanha de dinheiro para o homem que "conquistasse" a sua filha lésbica.

Como o plano não deu certo, ele voltou por esses dias e dobrou o valor do prêmio de US$65 milhões para HK $ 1 bilhão (cerca de US$ 130,000,000 ou, em bom português, algo perto de R$325,000,000), na esperança de que o "problema" fosse esse. Coitado do seu Chao. Coitada da Gigi também, a filha dele que, ao contrário do que possa parecer, não sofreu violência do pai ou algo do tipo.

Ele se defende das críticas — óbvias — dizendo que não quer se intrometer na vida dela, ele quer apenas que ela “tenha um bom casamento e filhos que herdem os meus negócios”.

Gigi é diretora executiva numa das empresas do pai, e tem um trabalho relevante frente à comunidade LGBT -- com sua ONG, a Big Love --, dedicando a maior parte do seu tempo a isso. Ela decidiu publicar uma carta aberta ao pai, em que basicamente lamenta o fato de ele não entender que ela já é casada, e que não é homossexual devido à falta de homens adequados em Hong Kong. Ao “querido papaizinho”, ela diz se sentir triste por ele não ver sua parceira como ela merece.

Abaixo, a carta da Gigi, na íntegra (e em inglês):

Dear Daddy,
I thought the timing was right for us to have a candid conversation.
You are one of the most mentally astute, energetic yet well mannered and hard-working people this humble earth has ever known.
Your confidence, quick wit, and charisma brightens any room you enter.
I love you very much, and I think I can speak for my brothers also, that we have the utmost respect for you as a father and role model in business.
I am sorry that people have been saying insensitive things about you lately. The truth is, they don’t understand that I will always forgive you for thinking the way you do, because I know you think you are acting in my best interests. And we both don’t care if anybody else understands.
As your daughter, I would want nothing more than to make you happy. But in terms of relationships, your expectations of me and the reality of who I am, are not coherent.
I am responsible for some of this misplaced expectation, because I must have misled you to hope there were other options for me. You know I’ve had male lovers in the past, and I’ve had happy, albeit short-lived, relationships. I found myself temporarily happy, buoyed by the freshness, the attention, the interest, of someone physically stronger than myself.
But it was always short-lived, as I quickly lost patience, and felt an indescribable discomfort in their presence. It usually made me frustrated, and I would yearn for my freedom again. I’ve broken a few hearts, hearts of good, honest and loving men, and I’m sorry that it had to be so.
But with Sean, a woman, somehow it was different. I am comfortable and satisfied with my life and completely at ease with her. I know it’s difficult for you to understand how I could feel romantically attracted to a woman; I suppose I can’t really explain it either. It just happens, peacefully and gently, and after so many years, we still love each other very much.
My regret is that you have no idea how happy I am with my life, and there are aspects of my life that you don’t share. I suppose we don’t need each other’s approval for our romantic relationships, and I am sure your relationships are really fantastic too.
However, I do love my partner Sean, who does a good job of looking after me, ensuring I am fed, bathed and warm enough every day, and generally cheering me up to be a happy, jolly girl. She is a large part of my life, and I am a better person because of her.
Now, I’m not asking you to be best of friends; however, it would mean the world to me if you could just not be so terrified of her, and treat her like a normal, dignified human being.
I understand it is difficult for you to understand, let alone accept this truth.
I’ve spent a lot of time figuring out who I am, what is important in my life, who I love and how best to live life, as an expression of all these questions. I am proud of my life, and I would not choose to live it any other way (except also figuring out how to be gentler on the planet).
I’m sorry to mislead you to think I was only in a lesbian relationship because there was a shortage of good, suitable men in Hong Kong.
There are plenty of good men, they are just not for me.
Wishing you happiness.
Patiently yours,
Your daughter, Gigi.

Gigi ainda disse que entende que ele a ama, mas é de outra época, com outra mentalidade.

"No escritório, tratamos de negócios normalmente. Nós apenas concordamos em discordar o que 'casamento' e 'família' significam."

Gigi Chao
Gigi Chao

Nós — eu tento me incluir no grupo de pessoas que lutam contra o preconceito (o próprio e o que está a minha volta) — somos aquele cara que via sombras na parede, saiu da caverna e viu o mundo com outros olhos.

Não é o nosso ódio ou a nossa repugnância que farão com que eles entendam. Alguns até se alimentam disso.

Eu não sinto isso por Cecil Chao.

Temos a história de um homem frustrado que carregará para o túmulo um amargo bobo pelo simples fato de não compreender o amor. Por tentar controlar o futuro da filha.

Somos donos apenas de nós mesmos e olhe lá.


publicado em 01 de Fevereiro de 2014, 16:18
28d2dc073d6cdf08302c0ed5fa15db8a?s=130

Pedro Turambar

Pedro tinha 25 anos e já foi publicitário. Ganha a vida fazendo layouts, sonha em poder continuar escrevendo e, quem sabe, ganhar algum dinheiro com isso. Fundou o blog O Crepúsculo e tem que aguentar as piadinhas até hoje. No Twitter, atende por @pedroturambar.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura