Sucesso no trabalho, fracasso em casa

Lições de quem quase destruiu sua vida familiar ao priorizar o trabalho

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Uma das diferenças entre ser um CEO e um investidor de alto risco é que eu obviamente me encontro com muito mais CEOs hoje do que antigamente. Devido a isso, ficou mais evidente para mim que muitas das dificuldades de ser um CEO são surpreendentemente comuns. 

Uma observação que se sobressai, e que quase nunca é discutida, é que muitos fundadores/CEOs têm problemas de relacionamento com o cônjuge e a família. 

Para mim os anos mais brilhantes na IronPort foram sem dúvida meu período mais negro em casa. Enquanto eu estava focado, articulado, sendo motivador para outros, e era importante no trabalho, eu era irresponsável, preocupado, autocentrado e preguiçoso em casa.

Hoje em dia, tendo conversado sobre aquele período com minha família, estou num ponto da minha vida muito melhor para refletir sobre o que aconteceu, e como eu poderia ter feito diferente, e assim posso oferecer alguns conselhos para outros fundadores que talvez estejam presos numa dinâmica parecida.

Como um CEO/fundador inexperiente, eu não tinha ideia do que estava fazendo. Claro, eu tinha cursado administração na faculdade, e havia trabalhado em muitas empresas grandes, e até mesmo em outras startups bem-sucedidas, mas nada me preparou para o incrível estresse e absoluto foco necessários para começar uma startup.

Fiz o melhor para acelerar a curva de aprendizado: cerquei-me de ótimos mentores, membros de diretoria, coaches, e, acima de tudo, os desafiadores e extremamente inteligentes membros do time executivo que trabalhava comigo diariamente. 

Sem dúvida cometemos muitos erros, mas fizemos também muitas coisas certo, e a IronPort cresceu para se tornar uma empresa enorme e bem-sucedida ao longo dos sete anos em que ela operou antes de ser vendida para a Cisco em 2007. 

Tendo dito isso, acredito que eu poderia ter sido um líder muito mais efetivo se eu tivesse prestado mais atenção na minha casa. Na medida em que meu relacionamento com a família deteriorava, minha concentração no trabalho também sofria, enquanto eu constantemente tentava resolver a questão sem grande consistência. Abaixo estão alguns dos detalhes das minhas dificuldades pessoais.

Parte da magia de uma startup é o medo da morte. Você só tem um determinado capital no banco, e se não alcançar a meta correta antes dele acabar, você está morto – a empresa vai a falência, acabou. O jeito de enganar a morte é soar o alarme e forçar todo mundo a programar a madrugada toda, ou o fim de semana inteiro. 

Esse é o estereótipo com relação a vida de alguém que participa do estágio inicial de uma empresa de tecnologia. Acorde cedo, se mate com o time fazendo algo fantástico, e obtenha um produto significativo antes que o dinheiro acabe. E possivelmente retribua esse time que trabalhou tão duro com quotas em ações mais adiante.

Eu não programava, mas como CEO eu achava necessário estar presente fisicamente com o time de engenheiros. Eu participava de discussões sobre a arquitetura do sistema, revisões do produto e layouts em wireframe. Algumas vezes eu só estava lá para pedir o almoço ou a janta. 

Quando começamos a programar durante os fins de semana de forma consistente, colocamos todo o time administrativo para servir os engenheiros: trazíamos-lhes comida, lavávamos seus carros, trocávamos o óleo, buscávamos sua roupa na lavanderia, e fizemos uma creche no escritório. Liderar com o exemplo, liderar na frente de todos, era a atitude que me convenci ser necessária como CEO.

Agora compare isso com minha vida em casa.

Um dos valores promovidos em IronPort era um “equilíbrio entre vida e trabalho,” mas obviamente eu não o estava vivendo eu mesmo. Raramente eu chegava a ir para casa. E quanto eu estava lá, bem, vamos dizer que eu não era particularmente alegre ou ajudava de qualquer forma. 

Minha perspectiva naquele momento era: estou me matando no trabalho, e quando chego em casa, só quero sentar num sofá com meu drinque e assistir TV. Tudo que faço o dia inteiro é falar com pessoas, então em casa realmente prefiro não falar muito, só relaxar.

Essa postura era, claro, completamente o oposto do que minha esposa esperava. Depois de largar seu posto de vice-presidente numa startup de sucesso, ela agora ficava em casa repetindo monossílabos com as crianças, e sentia muita falta de conversa adulta. E essa coisa de sentar com uma bebida em frente à TV? Isso estragava todos seus esforços de ensinar aos filhos como trabalhar em família. 

A mensagem de que todo mundo devia ajudar a cozinhar, limpar e ser responsável pela casa caia por terra quando papai nem tirava o lixo ou trocava uma lâmpada. Não, eu era importante demais para fazer algo assim, e sugeri que ela contratasse alguém para limpar a casa, e até mesmo cozinhar, se isso “a estivesse estressando”.

Ugh. Eu não entendia nada do que estava acontecendo, e falava como se ela não estivesse presente... dava um exemplo tão bom no trabalho, e outro horrível em casa, me comportando como um idiota cheio de autoimportância.

Na medida em que a IronPort crescia, eu constantemente viajava para me encontrar com clientes, com a imprensa, com analistas e, é claro, recrutando e motivando funcionários. No fim das contas mais de 60% de nosso lucro ocorreu fora dos EUA, e acabamos sentido ser muito importante apoiar todos nossos escritórios distantes, na Europa, Ásia e América do Sul. Houve períodos em que passei 50-75% do mês fora de casa. 

Mas mesmo quando eu estava em casa, geralmente estava num estado brutal de falta de sono, me recuperando de mais uma adaptação a um fuso horário. Enquanto eu viajava, 100% dos problemas caseiros recaíam sobre minha esposa, o que geralmente resultava numa semana inteira de brigas logo que eu voltava. 

Eu comecei a me referir a essa semana depois de uma longa viagem como a “reentrada”, como algo que cai do espaço e vira uma bola de fogo.

Depois de anos o tempo todo cuidando apenas de nosso primeiro filho, e cuidando de nosso segundo filho com alguma ajuda, minha esposa formada com MBA em Harvard, que tinha uma fantástica carreira, “decidiu” se tornar mãe em tempo integral e apenas cuidar de crianças, depois que nosso terceiro filho nasceu. 

Eu disse “decidiu” porque naquele momento parecia claro para nós dois que eu não estaria disposto a dividir a tarefa com ela em casa. Ela aguentou os anos mais difíceis enquanto eu comandava a IronPort, mas insistia que quando isso acabasse, nós iriamos avaliar tudo isso de novo e recalibrar.

Tirei 18 meses de férias entre a IronPort e a presente sociedade com Andreessen Horowitz. Durante esse tempo, eu embalava os lanches para a escola, levava as crianças na escola e cozinhava os jantares, e comecei a fazer minha parte na família. 

Com a ajuda de minha esposa e outros papais modelo, fui essencialmente reprogramado, e isso segue funcionando mesmo agora que voltei a trabalhar em turno integral. 

Alguém pode dizer que ser sócio numa empresa de capital de risco, mesmo alguém que trabalhe muito, não é exatamente a mesma coisa que ser fundador/CEO em uma startup... e eu admito que isso é verdade. 

Porém, agora que estou do outro lado, acredito que eu poderia ter feito o coaching do meu eu antigo como CEO. Abaixo listo as coisas mais importantes que eu precisava ter mudado:

De estar desconectado, precisava passar a me conectar

Embora seja fácil reconhecer agora, na época eu claramente pensava que o que estava fazendo no trabalho era muito mais importante e urgente do que o que estava fazendo em casa. Parece esquisito dizer isso agora, mas isso exigiu uma mudança de perspectiva da minha parte. 

Minha esposa largava muitas “dicas” (por exemplo, “Como será que eu entrei nesse relacionamento de 1950?!”), mas naquele momento eu nem conseguia ouvir essas coisas. O choque de quase perder o relacionamento me fez prestar mais atenção, mas mesmo assim eu só seguia automaticamente as tarefas, com minha mente totalmente apegada ao negócio. 

Acredito que uma mudança de atitude realmente passou a ocorrer quando eu comecei a me conectar e me afinar com a vida na casa. 

Isso exigiu que eu me desconectasse do trabalho (desligar o telefone e o computador), e me focar totalmente nos detalhes da casa. Cozinhar uma boa refeição. Ajudar com um projeto de ciência. Discutir o futuro com minha esposa. 

Muitas vezes eu era acusado de estar fisicamente presente sem estar mentalmente presente. Se você se descobre indo para o banheiro para terminar e-mails, então você certamente não está presente… 

Separar um tempo para sair fisicamente da panela de pressão do Vale do Silício também me ajudou a mudar de perspectiva.

Participar mais

Não é possível ser um cônjuge verdadeiro se você não está participando fisicamente. 

Acredito que até mesmo o CEO mais ocupado precisa levar as crianças na escola, embalar a merenda, ajudar com o tema de casa, fazer o café da manhã ou o jantar, e consistentemente ir aos eventos na escola. 

Permanecer envolvido semana após semana é o único modo de ficar conectado com a casa, e isso não pode ser terceirizado. 

Não interessa o quão exausto eu esteja após viagens, eu me esforço para “não ser preguiçoso” em casa – é importante demais. 

Quando você se envolve, há uma cadência natural para o planejamento da próxima semana em conjunto, e a comunicação melhora muito.

Comunique-se

Hoje trocamos ligações telefônicas e mensagens de texto todo o tempo durante o dia, mas não fazíamos isso naquela época. 

Quando eu estava viajando na época da IronPort, eu algumas vezes passava dias sem nem ligar. Agora que estou afinado com a agenda da família, planejamos refeições em família (provavelmente a coisa mais importante que fazemos), o buscar e levar das crianças em suas atividades, e fazemos alguns ajustes em tempo real. 

Por exemplo, sobrou um tempinho para fazer uma tarefa? Será que dá para eu pegar alguém quando estiver voltando para casa? Etc. Normalmente eu me comunico com minha esposa no período entre reuniões, mas se só eu estiver na cidade, então eu já começo a reunião avisando que como sou o responsável pela família naquele momento, que precisarão me desculpar caso eu receba uma ligação. 

A comunicação sem dúvida foi onde mais melhorei.

Planejamento e prioridades

Minha esposa e eu temos uma noite separada para nós. Meu filho e eu jogamos futebol. Cozinho com minhas filhas. Essas coisas se tornaram datas marcadas na minha agenda. 

Há uma frase – “a verdade está na agenda” – se algo é importante, então você precisa separar tempo para fazer aquilo. 

Quando minha agenda reflete o fato de que não posso participar de uma reunião quartas e sextas às 9 da manhã, porque estou fazendo o café e dirigindo para as crianças, então é fantástico como as reuniões nunca se agendam nesses horários. 

Se for possível, viver fisicamente próximo ao escritório também ajuda muito. Isso significa que posso jantar com a família e voltar lá para fazer uma reunião, se necessário.

Em retrospecto, acredito que poderia convencer até os CEOs que trabalham mais duro a atingir algum equilíbrio real em suas vidas, já que investir em seus relacionamentos o fará um CEO melhor. 

Quando você estiver fora de equilíbrio, isso afeta seu estresse, seu juízo, e enfim se torna outra fonte de desestabilização, bem no momento em que você precisa estar na sua melhor disposição. 

Também acredito que essa mudança é na verdade um exemplo de liderança muito melhor do que o outro. 

Quando um líder mostra como fazer as coisas e equilibrar a vida, isso dá um exemplo bem melhor para todos na empresa que também tem o mesmo problema.

* * *

Nota: esse texto foi originalmente publicado no site do autor.


publicado em 27 de Junho de 2015, 00:05
Scottweiss

Scott Weiss

Invetidor de alto risco na Andreessen Horowitz.


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