T2: Trainspotting não faz paródia do filme original e entrega uma bela homenagem

Todos voltam, Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle e Kelly Macdonald, iguais em um mundo diferente

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"Nostalgia!
Você está querendo ser turista da própria juventude."
(Sick Boy/Simon)

O que o Trainspotting tem de mais especial é ter captado, lá em 1996, o zeitgeist (o espírito da época) mais preciso e gostoso daquela geração desiludida. Seria de uma estupidez juvenil querer repetir isso vinte anos depois. Ainda bem que Danny Boyle é um cara muito inteligente pra cair na caricatura de si mesmo. E, com isso, temos em T2: Trainspotting, um baita filme que fala dos desapontamentos da vida adulta.

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Você toma drogas e fica desapontado. Você "escolhe a vida" e fica desapontado. Você é uma criança desapontada com a infância, aspirando a independência e vivacidade da vida adulta e, quando vira adulto, fica desapontado com suas escolhas, com aquelas feitas inerentemente pela vida para você.

Um ciclo interminável de desapontamentos.

É do que se trata Trainspotting, no fim das contas. Vinte anos depois e tudo continua uma bosta na vida dos quatro amigos. Eles continuam sendo os mesmos, só que num mundo completamente diferente. 

Edimburgo agora é uma cidade cortada por modernos bondes, rápidos e silenciosos, brilhantes como as vitrines das lojas bem iluminadas e cheias de modernidades. Passamos pela euforia do começo do século 21, pelas explosões de novas tecnologias, o britpop hoje é coisa de museu, assim como a música eletrônica produzida no final dos anos 90 que canibalizava o rock n' roll de Iggy Pop, assim como as novas drogas sintéticas tomavam conta das noites no lugar da heroína.

Agora os vícios são outros.

T2: Trainspotting é o mesmo filme, mas em outro mundo, duas décadas mais velho. Outro ritmo, outro propósito, mas a mesma ideia de sobreviver em meio ao desgosto, a decepção com o cotidiano, o desencanto com a própria vida. Boyle faz menções constantes ao primeiro filme de maneira muito equilibrada e bonita, uma quase homenagem, mas com os dois pés fincados no presente e com a clareza de que não precisamos voltar lá para dizer que aquilo era legal. 

"Fique viciado em outra coisa", diz Renton a Spud após a subida na montanha. Esportes, consumo, sexo. Você pode se apegar a várias coisas e continuar sendo o perdedor de sempre. O diretor explora essa "nova" crítica mesclada com as velhas impressões sobre a frustração no Reino Unido, contidas, por exemplo, na saudade do futebol com George Best no ápice de sua carreira na década de 70 .

Danny Boyle faz muito bem em pegar a cerne estética de seu Trainspotting, mas imputar uma velocidade diferente, mais reflexiva, menos impulsiva.

Afinal, já que vamos ficar desapontados, pra quê se repetir?


publicado em 04 de Abril de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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