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Tangerine é o filme que mostra as cagadas da minha vida e da sua

Crítica do filme dirigido por Sean Baker com Mya Taylor, Kitana Kiki Rodriguez e James Ransone

Em determinado momento, já com a noite abraçando a cidade do pecado, a velha, contrariada, conversa com o motorista do táxi sobre a cagada que é passar o natal em Los Angeles, que não tem graça passar o feriado onde não neva e o fato de ali ser um lugar horrível:

Los Angeles é uma mentira lindamente embrulhada. Assim como a vida.

Tangerine é um filme cru e cotidiano, pronto pra te mostrar do que somos feitos: tédio, frustração, inabilidade emocional e sonhos, um atrás do outro, criados e desfeitos ali mesmo na nossa cara, na sarjeta. Parece pesado demais, mas se você der uma chance, vai ver beleza nisso tudo. 

Filmado todo com três iPhones 5S com adaptadores nas lentes pra ficar com a gravação naquele wide que conhecemos e estabilizadores, vamos conhecer em meio ao laranja de fim de tarde na costa oeste americana o ímpeto da prostituta transexual Sin-Dee Rella, conhecida pelos íntimos como Sin-Dee. Ela acabou de sair da prisão e descobre, num papo informal com sua melhor amiga, Alexandra, que seu namorado está pegando outra mina, uma cisgênero "com vagina e tudo o mais". Tá feito o pandemônio e vamos passar as próximas duas horas acompanhando o desenrolar da busca por vingança. 

L.A. é uma cidade com decadências aparentes e o clima árido só ajuda na bad vibe. Aquele alaranjado batendo seco no asfalto, nas paredes cinzas, nos grafites descascados, o neon das lojas contrastando com a sujeira, com a deterioração. Os celulares mesclam uma filmagem ágil, excitada, histérica com travadas abruptas para contemplações e tentativas de reavaliar a situação pessoal de cada personagem. Solidão, a vontade de ser outra pessoa e o descuido constante de descontar a desilusão em terceiros.

Tangerine é um retrato do que fazemos e sentimos todos os dias, mesmo que no íntimo, mesmo que escondendo tudo com a massa de fotos bonitas nas redes sociais. A câmera que acompanha Dee em sua busca frenética abre grandes planos como se espreitássemos de longe e treme quando chega perto, um receio de interferir e entrar no olho do furacão. Alexandra é acompanhada por lentes menos ansiosas, companheiras, condescendentes. 

A gente só quer que tudo dê certo com elas.

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E nessa tragédia na qual estamos inseridos todos nós, você e eu, as trans do filme e o taxista e a velha e a puta e, a chinesa lá do Donut Time, "ponto não-oficial de prostituição de Los Angeles, o local desponta solitário na intersecção entre a Santa Monica Boulevard e a Highland Avenue", tem muita beleza, companheirismo, aceitação. Az gente chora com isso e depois ri das mesmas situações.

Tangerine coloca nas nossas fuças as imprevisibilidades da vida, que chega aos montes e travestidas de beleza e sucesso e romance, e como a coisa toda só vai andar com um mínimo de prazer se nos apoiarmos no que temos de mais importante. Uns aos outros. 


publicado em 29 de Março de 2016, 00:10
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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