Tatuagem | guia do marujo de primeira viagem

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Quantas vezes você pensou em se tatuar e acabou desistindo porque não sabia qual seria o desenho?

Você pode ter ficado chateado, mas seu problema é menor perto de quem, mesmo sem saber o que queria, seguiu o impulso e mandou bala no primeiro desenho que teve em mente (ou que viu no estúdio).

Fique tranquilo amigo. Se está para fazer sua primeira tatuagem, tenho algumas palavras que lhe serão úteis.

Primeiro, claro, vamos as dicas clássicas:

Evite escrever nomes de pessoas
Evite escrever nomes de pessoas

 

Não escolha tatuador pelo preço
Não escolha tatuador pelo preço

 

Não faça um desenho sem saber seu exato significado. Desenhos  bonitos podem ter origens bem obscuras
Não faça um desenho sem saber seu exato significado. Desenhos bonitos podem ter origens bem obscuras

 

Não escreva em um idioma que não domina sem consultar um profissional de línguas
Não escreva em um idioma que não domina sem consultar um profissional de línguas

 

Não vá tatuar chapado, mesmo se tiver escolhido o desenho sóbrio (é muito provável que vá sangrar mais e doer mais, isso se o tatuador não mandar você pra casa)
Não vá tatuar chapado, mesmo se tiver escolhido o desenho sóbrio (é muito provável que vá sangrar mais e doer mais, isso se o tatuador não mandar você pra casa)

Agora vamos às três observações que eu quero realmente lhe falar:

1. “Eu queria fazer, mas tem a dor...”

Lembra quando você era criança e seus pais te avisavam para não descer aquela ladeira épica no rolimã, skate ou bike e que, se você "ou-sa-se" fazê-lo, não só ficaria de castigo como também iria se ralar inteiro?

Pois bem. Seus pais iam trabalhar e suas mãos já estavam suando. As crianças menores já sabiam, todos te olhavam como se você fosse o cara mais perigoso da rua. Uma última analisada na estratégia e você soltava um risinho nervoso e desafiador antes de acelerar como se não houvesse amanhã.

Era bom, hein, moleque?

Sim. Rendia um belo castigo e um ralada ardida, mas, enquanto aquela cicatriz estivesse ali, você iria se lembrar de como era ser livre e seguir seu próprio caminho, aquela sensação única da infância, de desafiar o mundo se divertindo.

Mês retrasado, quando fiz outra tatuagem, foi a última vez que me senti assim.

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A mão sua, o ralado queima, mas o vento da ladeira sempre faz valer a pena a cicatriz.

Se você aguentava o tranco quando era criança, por que acha que -- adulto -- não fará o mesmo?

Tenho duas tatuagens.

Minha primeira foi o contorno de um bico de pena no indicador. Fiz um desenho feioso que um amigo tatuador, de Marília, fez a preza de passar para minha pele e, rapaz, foram 15 minutos de uma dor dos infernos. Mas saí de lá com um sorrisão que não cabia em mim.

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Minha segunda tatuagem foi no braço esquerdo, um barco dentro de um mar revolto, acompanhado de uma baleia, feita aqui em São Paulo.

O contorno começou bem doído, mas depois de meia hora você se acostuma a dor. O sombreado, ao contrário, começa com você dando risada, ainda mais por vir depois do contorno, mas com o tempo (se for um desenho grande) é ele o danado que realmente castiga.

Foram 2 horas e meia para finalizar o desenho e, ainda assim, bem mais agradável do que passar 15 minutos no indicador.

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Quer saber: nenhum dos dois é o fim do mundo se você já ralou o joelho uma vez. A única diferença é que, por incrível que pareça, fazer tatuagem sua muito mais (você verá).

Agora vamos para a segunda observação:

O significado

Não se engane. Este assunto vai muito além de simplesmente falar para você evitar desenhos da moda.

E não entenda errado: se você tatuou uma carpa nas costas, um símbolo do infinito no pulso ou, pra ser mais atual, uma âncora no antebraço, nada disso é necessariamente ruim, contanto que para você isso signifique alguma coisa.

A tatuagem é uma forma de expressão, portanto, um desenho em sua pele estará sempre dialogando não só com você, mas com um ou mais observadores, assim sendo, quanto mais conhecido for o símbolo e o local escolhido para fazê-lo, mais rápido e abreviado será o julgamento que será feito a seu respeito.

Sim, é o mesmo pensamento que utilizamos com o preconceito: olhamos um indivíduo, reconhecemos os símbolos sociais genéricos que ele expõe e fazemos um julgamento rápido.

Um exemplo: ligue cada um dos números com as letras que você julga correspondentes:

Homem

1. duende na costela;

2. ideograma japonês no tríceps;

3. nome de parentes tatuado grande no antebraço.

A. Pobre;

B. Jiu Jiteiro;

C. Maconheiro.

Mulher

1. Tatuagem pequena;

2. tatuagem média;

3. tatuagem grande.

A. Gosta muito de sexo;

B. gosta de sexo;

C. Tarada mil grau.

Obs: “maconheiro” só foi usado uma vez no exemplo, mas caso a tatuagem em questão não seja de Jesus Cristo, todos as demais podem ser considerados maconheiros.

Por mais que você tenha achado idiota este teste de liga-pontos (e ele é), duvido muito que o seu resultado tenha sido diferente do meu.

Para um tigre, bastam as listras para que reconheça um semelhante, porém, em uma estrutura social complexa como a nossa, reconhecermos que estamos diante de um ser humano parece não bastar. Sentimos a necessidade de reconhecer que “tipo” de ser humano ele é.

Eis aí um grande problema de nossa racionalidade: a necessidade de categorização que nos persegue.

Dito isso, saiba que você pode, sim, optar por uma tatuagem apenas por fins estéticos ou mesmo utilizar o desenho da moda. Só é importante que saiba qual é a carga social que ele carrega, assim você estará mais preparado para lidar com o nosso preconceito besta de cada dia.

Um adendo: ainda sobre significados, este exemplo contém uma pequena informação preciosa.

Você gosta de tubarões, pois eles são predadores perigosos e dominantes, assim como você?

“- Sim.”

Então basta tatuá-lo de boca fechada, até mesmo estático e todos já entenderão o recado. A sutileza neste momento criará múltiplas camadas de significado e, quanto mais camadas a serem desvendadas, melhor. Desta maneira, as pessoas demorarão mais para categorizá-lo e de quebra você ainda ganha um “q” de mistério.

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Pense comigo: nem o mais feroz dos tubarões passa a vida de boca aberta exibindo os dentes, certo? Então por que o seu passaria? Por que você passaria?

Ao olhar um tubarão, nós já entendemos o que ele representa, portanto, ao utilizar contrastes e sutilezas (a boca fechada), você ganha mais significados que irão enriquecer sua composição.

Como diria o poeta Roberto Justus, "é preciso quebrar paradigmas".

Agora é a hora do último e mais incompreendido dos 3 itens:

O pictórico

Muitas pessoas se fixam tanto no que querem expressar que acabam esquecendo que, mais do que mostrar, é preciso dizer e, para que se consiga isso, clareza é fundamental.

Por isso, as tatuagens old school (mais tradiça) funcionam tão bem até hoje. Elas não se prestam apenas a retratar um sentimento, mas sim traduzi-lo.

Utilizando um exemplo besta, o desenho de um simples coração ferido sempre será mais inteligível do que o desenho do rosto da sua ex-namorada quando ela terminou com você.

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Tatuagens mais estilizadas -- na grande maioria dos casos -- serão expressões mais claras (e mais sutis) do que os desenhos fiéis que visam reproduzir algo de maneira idêntica a realidade.

É claro que, se o seu desejo for ter na pele uma cópia fiel de algo ou alguém -- e isso lhe trouxer conforto e felicidade--, não há nada de errado nisso. Mas se você foi atrás de um tatuador realista, achando que ele era melhor apenas por ser realista, é provável que você tenha cometido um engano.

O virtuosismo na busca pela realidade muitas vezes pode nublar os reais sentimentos que queremos passar.

É como na pintura. Ao olharmos um quadro de girassóis pintados idênticos a realidade, dizemos:

-- Uau, parecem reais!
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Mas, ainda assim, sabemos que a realidade é melhor e mais bonita, não importa o tamanho do esmero do pintor. Já ao olharmos um dos girassóis do Van Gogh, é possível para alguns de nós dizer:

-- Eu nunca vi nada igual. São os girassóis mais bonitos que já vi.
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Com a tatuagem é assim também, pois, mais do que ser uma mera reprodução imagética da realidade, ela se trata de um grito, um murro, um sorriso, uma tristeza ou o que diabos mais quisermos colocar pra fora.

Muito ainda pode ser falado sobre tatuagens. Composição, estética, técnicas, mas antes é necessário descobrir se vocês estão interessados no assunto.

Bem, como sempre, espero que tenha sido útil ou, ao menos, divertido!

Encerro aqui com nossa musa, agora cheia de tatuagens.

Ok, é falso, mas foi o único meio de colocá-la nesta matéria e, pensando bem, isso se adéqua super bem àquela história dos girassóis e tal. Simbolismos.

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Beijo no seu coração, Monica.


publicado em 16 de Janeiro de 2014, 22:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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