Tenho 27 anos e não morri

Cresci sabendo que meus pais, a esta idade, já eram pessoas formadas, tinham filho, casa e, além dos deveres, também tinham a vida toda encaminhada.

Cresci também vendo grandes pessoas morrerem aos 27, se eternizando nas nossas memórias, como se elas precisassem morrer porque não era possível um auge maior que aquele, como se fosse maldade com as outras pessoas ver toda aquela plenitude e força conjuradas em um só ser. Seria uma afronta ver aquela força ir diminuindo, seria uma desesperança ver que não tem pote de ouro depois do auge.

Jim Morrison e Pam

Desde sempre me falaram que ser correto e trabalhador te levaria onde você quisesse. "Nada vence o esforço" eles diziam.

Acho que devo me encontrar numa espécie de limbo, eu e toda uma geração que, assim como eu, tem essa idade e ainda não atingiu os feitos dos pais e muito menos a glória dos ídolos.

Deve ter sido na adolescência que eu me perdi, a de ser, aquele balde de gibis, aqueles filmes de finais simpaticamente improváveis. Bastardos, nem pra falar que era tudo brincadeira.

Na obrigação de ser um prodígio, mudei de cidade, mudei de novo, persegui metas imperseguíveis, quase peguei na rédea algumas - quase mesmo -, alguns encontros a menos com os amigos, algumas visitas canceladas com os pais, um telefonema a menos para a irmã e pronto, tempo de sobra para virar um fenômeno e me consagrar, afinal, é disso que são feitos os fenômenos, de sacrifícios e consagrações.

Então, no meio dessa missão toda, criei uma marca - eu e minha sócia, Camila -. Imagine o poder que duas pessoas de 27 anos têm, só pela idade já somos quase ídolos em potencial!

Saímos em alguns jornais, algumas revistas, até vestimos pessoas importantes, estão todos orgulhosos de mim, meus pais, minha irmã, meus amigos, até alguns desconhecidos vem às vezes falar comigo e me dizer que estão contentes com esse sucesso todo.

Como seria legal se eu pudesse comer o sucesso, se eu pudesse vendê-lo em forma de risadas e comprar com ele algumas doses gordas de saúde.

Acontece que eu não posso, acontece que o próprio sucesso é muito maior na vitrine do que no estoque. Não que as peças não vendam, não me entenda mal (modéstia a parte, eu vendo muito bem). E quando tentamos adicionar algum produto, até agora também fomos bem sucedidos.

Agora nem tudo são rosas em Bolywood. Tenho problemas gravíssimos de produção, os prazos sempre atrasam, as peças que não são bem feitas precisam ser descartadas e isso tem um custo que em 90% dos casos quem paga somos nós mesmos. Fornecedores não querem me atender e não retornam minhas ligações, pois sou um nanico, nossa margem é bem pequena pois fomos colocar na cabeça que um produto bom tem como principio um preço justo, ninguém nos explica o que devemos fazer ou responde nossas dúvidas, e elas são tantas, você não teria noção meu amigo.

Brian Jones já dizia, lá na década de 60: "nós temos um mercado de trabalho que está pegando fogo"

Algumas noites são mais difíceis de serem dormidas, essa é uma delas, então espero estar aproveitando todo o sono que terei amanhã para escrever algo que te ajude, assim como eu gostaria de ter sido ajudado lá atrás, quando comecei sem a mínima noção do que estava fazendo, só acompanhado de uma sócia igualmente doida e de um caminhão de idéias improváveis e refutadas pelos demais companheiros da área.

Se você, meu bom jovem, ainda não tem 27 anos, leia estas palavras com muita atenção, elas não irão te prevenir nenhum tombo, mas talvez possam te mostrar de onde se cai, o que já é uma informação e tanto!

Hoje estamos ralando para manter a marca aberta porque, apesar da ótima procura, simplesmente não estamos conseguindo encontrar alguém que produza nossas peças e tenha juntos estes 3 pilares que praticamos em riste: prazo, preço justo e qualidade.

Se para começar algo você acha que está preparado, pois tem raça e vontade. Saiba que essas duas qualidades são, na verdade, inerentes a um empreendedor e não os adicionais que irão fazer você se destacar dos demais. Seria muita pretensão minha falar que tenho a resposta que procura, mas posso dizer que os clichês não estão ai à toa, então, faça o que você ama, afinal, o motivo para se privar da vida, do tempo, dos amigos e da família precisa ser algo que te faça abrir um belo sorriso no final do dia.

Minha nova meta pretende ser um tanto mais objetiva e sucinta, ao invés de ter uma ilha, milhões e a maior marca do Brasil, hoje eu quero ter uma pequena marca que faça diferença na vida das pessoas que se conectam com ela. Hoje eu quero tomar uma cerveja com meu pai num feriado improvável, quero pintar um retrato da minha irmã e quero amar meu amor, essa sim a melhor coisa que veio com essa história toda de marca, uma sócia apaixonante que sempre ri das minhas piadas, de olhos curiosos, nariz de raposa e fome devastadora.

Hoje, todo o meu patrimônio cabe em apenas um quarto e meu bem de maior duração é uma tostequeira, ainda não tive filhos e ainda não tenho nenhum álbum gravado.

Não ri, Jimi. Eu ainda tô por aqui

Hoje eu tenho 27 anos e não morri.


publicado em 14 de Dezembro de 2012, 10:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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