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Tensão morro X asfalto, lata d'água na cabeça e subida de gatinho: conheça o museu de favela

Antonia Soares nos leva para um passeio pelo museu de favela, das histórias dos moradores do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho

O Museu de Favela, no Rio de Janeiro, tem uma proposta inovadora. É um museu de território, onde o acervo é a cultura, a gastronomia, o jeito de viver, os modos de fazer e, especialmente, as histórias das pessoas que vivem nos morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho.

Elas alimentam exposições itinerantes, eventos em que a comunidade do “asfalto” é bem-vinda, e um circuito turístico de pinturas e grafites nos muros das casas. Fundado em 2009, é o primeiro Ponto de Memória do país reconhecido pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Museus).O MUF, como também é chamado, é dirigido pela Antonia Soares, uma maranhense simpatissísima que nos idos dos anos 1970 veio conhecer a cidade grande e acabou ficando.

Antonia conduziu o Projeto Lupa pelas ruas do Cantagalo e a gente reproduz o passeio para que vocês conheçam a(s) história(s) que ela e o MUF contam.

Pavão-Pavãozinho visto desde o Cantagalo.

“Quando veio o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento, que previa obras de infraestrutura nas cidades], em 2008, o pessoal do governo trouxe a ideia da criação de uma instituição que, quando o PAC acabasse, ficaria para a comunidade. Uma fundação, associação, cooperativa, ou qualquer coisa desse gênero. E, no decorrer da conversa, eles trouxeram a ideia de fazer vários cursos na comunidade de garçom, camareira, inglês. Eles focavam muito que aqui ficava perto de hotéis e restaurantes de Ipanema, Copacabana e a mão de obra desses estabelecimentos é, na maioria, de pessoas que moram na comunidade.

Mas nós, moradores, começamos a discutir a validade desses cursos e pensamos: por que não fazer algo pra dentro da comunidade mesmo ao invés de criar cursos pra um mercado externo?

 “Aí um dizia assim: ‘Por que a gente não mostra a culinária daqui?’ E outro lembrava que a comunidade é muito rica na parte da cultura, tem gente aqui que faz tambor de crioula do Maranhão e que faz folia de reis de Minas Gerais. Aí vinha outra liderança e falava: ‘E por que a gente não mostra a parte turística da comunidade?’ Porque naquela época as pessoas perguntavam muito como era aqui, tinham curiosidade de ver aquelas casinhas todas juntinhas, olhando lá de baixo, mas não subiam o morro porque a criminalidade era muito alta. Passavam pela Sá Ferreira [rua de Copacabana próxima à subida do morro] e viam o tiro comendo aqui e até os taxistas tinham medo de trazer as pessoas na ladeira. Então a gente tinha conhecimento desses comentários e tinha vontade de mostrar que a comunidade não é esse bicho de sete cabeças que todo mundo acha. E todo mundo queria fazer um resgate da história da comunidade, da fundação. A gente começou a especular.”

“Aí surgiu alguém com uma a ideia de que o que a gente queria poderia ser chamado de museu. Pesquisando descobrimos que já existia esse tipo de museu, o museu comunitário, muito forte principalmente na Europa. E optamos por nomear de Museu de Favela na ideia de que se fosse Museu daFavela seria restrito apenas para cá. E o museu de Favela poderia ser de todo mundo.

“O Museu de Favela é tudo que tem nessa comunidade. Inclusive eu mesma sou peça desse museu. Eu e todos os moradores, o modo que foi construído, a cultura, a gastronomia. Tudo, tudo que tem aqui. A sede em que estamos é apenas uma base de trabalho. O MUF é o território. É o choro da criança, o grito da mãe que chama o filho daqui a pouco ou as vezes em que a gente tá aqui conversando e tem um rádio bem alto e a dona de casa canta junto com o rádio. É um museu vivo, é um museu mutante. Ele nunca é daqui um minuto o que é agora. É como se fosse uma pessoa, tá acontecendo.”

“Mas as histórias dos moradores, principalmente, é o museu. Então começamos as primeiras entrevistas com as pessoas mais antigas. Muita gente que ainda carregou lata d’água na cabeça; que subiu de gatinho [se apoiando nas mãos e nos pés] porque não tinha nem escada; que viveu à luz de vela e lamparinaque na hora que fazia suas necessidades - tem até uma historia que chamam aí de pombo voador - a pessoa fazia, usava um jornalzinho e jogava fora o pombo, que saía voando.

“Quando eu cheguei aqui era assim: tinha um manobreiro que controlava a caixa d’água. E cada dia ele botava a água pra um lado, um dia pro lado do Cantagalo e um dia pro lado do Pavão-Pavãozinho. E quem morava em um não podia passar pro outro por causa do tráfico, sabe? Às vezes a água ficava 15 dias sem cair na casa da gente. Você imagina 15 dias sem água. Ou de repente queimava a bomba e demorava uma semana pra consertar. Ou era verão. E a gente descia pro asfalto e subia com lata d’água na cabeça. Isso foi até os anos 80. Agora você imagina quem veio pra cá na década de 30, 40 que foi quando começou a ocupação aqui... É muito difícil pra um jovem hoje ou uma criança imaginar que os antepassados delas passaram por isso aqui.”

“O nosso foco é trazer esse passado para transformar o presente. Uma comunidade de morro, que começou rudimentarmente... o simples fato de dizer que é da favela faz a gente saber que é discriminado, visto de outra maneira.”

“Ainda tem como se fosse um ranço das pessoas que começaram aqui com as pessoas do asfalto. Eles não se sentem à vontade lá embaixo. E a gente quer acabar com esse ranço do passado. Entender porquê isso acontece hoje, a partir desse conhecimento do passado, faz com que o jovem de hoje viva sem isso. A gente busca preservar a historia - aconteceu, foi fato - mas vamos pegar isso pra trabalhar pra que o jovem esqueça as coisas ruins e se sinta parte da sociedade. Porque  quando a gente desce ali a última escada do morro e pisa no asfalto, a gente é tão cidadão quanto a pessoa que tá lá foraNa praia entra todo mundo na mesma água e usa a mesma faixa de areia, o dinheiro do mercado vale o mesmo tanto.”

Eu me considero super vitoriosa. Eu vim lá de Paço do Lumiar (interior do Maranhão), ingênua, menina que tomava banho de rio e cheguei aqui pra passear com minhas primas e fiquei. Conheci o João [marido] e ele me chamou pra morar com ele. Eu não sabia que era no morro e vim! (risos). Aqui eu me envolvi com a comunidade desde 82, virei liderança e hoje estou no MUF. O Ibram chamou a gente pra falar em outros estados e no Chile e no estado de Indiana, nos Estados Unidos. Eu fui palestrar. Me sinto muito chique! Aqui a gente quer aumentar a autoestima das pessoas, mostrar que as histórias delas, as vidas delas, são interessantes.”


publicado em 28 de Junho de 2017, 00:05
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Projeto Lupa

O Projeto Lupa publica relatos sobre pessoas ligadas à arte de contar histórias: escritores, roteiristas, jornalistas, músicos, contadores de história oral, entre outros. Tentamos sempre relacionar as dimensões prática e subjetiva da criação: Quais os caminhos para quem ama as palavras? Dá pra viver disso? Como é o processo criativo? Nossos textos buscam criar experiências de leitura prazerosas mantendo um olhar afetivo e singular sobre cada entrevistado.


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