Ter um rival é diferente de ter um inimigo: o que a vitória de Jon Jones pode nos mostrar sobre rivalidade

Jon Jones reconhece os erros e agradece e elogia o rival Daniel Cormier

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A narrativa de derrocada foi bem completa.

Do auge como lutador — com 21 vitórias e oito defesas seguidas do cinturão — até a noite de 29 de julho de 2017, quando recuperou o título de campeão meio-pesado do UFC, Jon Jones experimentou um pouco de tudo. Se envolveu em um acidente de trânsito, fugiu, foi preso. Teve o cinturão retirado por conta do comportamento fora do octógono, perdeu os patrocínios que possuía e, mais tarde, foi suspenso por doping pelo uso de cocaína.

Aos poucos, foi voltando. Algumas entrevistas, algumas mágoas colocadas de forma pública e uma luta morna o colocaram de volta na disputa pelo título no UFC 214. Jones nocauteou o adversário, seu maior rival Daniel Cormier, aos 3m01s do terceiro round com uma canelada e um conjunto de cotoveladas e socos — sua marca registrada.

O que não temos nos acostumado a esperar de Jones, no entanto, foi a forma humilde, honesta, cortês e quase carinhosa com que falou após a vitória. Primeiro, ele foi bem aberto ao reconhecer os momentos da carreira (e da vida) que atravessou.

“Cara, é um momento tão bonito. Eu fiz muitas coisas certas para voltar a essa posição. Vou te dizer uma coisa, cara. Se tiver alguém em casa que se decepcionou consigo mesmo, que decepcionou sua família, que decepcionou seus companheiros, seus colegas de trabalho, e a si mesmo, nunca é o fim. Eu estou de volta aqui..."

Depois, Jones se rendeu a Cormier. Além de entender a importância que ter uma nêmesis tem para sua trajetória, Jon teceu elogios à personalidade do adversário — enxergando-o como um colega de profissão, um homem, um pai, e não como inimigo (algo inesperado em se tratando de dois lutadores que chegaram a brigar durante uma coletiva de imprensa em 2014).

“Eu queria aproveitar esse tempo para agradecer Daniel Cormier por ser meu maior rival e motivador. Daniel Cormier não tem motivo algum para abaixar a cabeça. Ele tem sido um exemplo como campeão, marido, pai de família, companheiro de equipe, líder e eu aspiro ser bem mais como esse homem, por que ele é um ser humano incrível.

Infelizmente nós somos adversários, mas tirando isso ele é um verdadeiro campeão pelo resto de sua vida”.

Após o depoimento, Jon ainda tascou um beijo na cabeça de Cormier

É bem interessante assistir a um lutador, campeão, romper com a aura de agressividade e invulnerabilidade que se espera de alguém em sua posição. Assumir as falhas, reclamá-las para si como parte importante de sua caminhada e ter altivez para entender que o outro — ainda que tenha perdido duas vezes para você — pode ter muito a te ensinar, coloca a história de Jon Jones em um novo rumo.

Na mesma noite em que ele retomou seu legado esportivo, ele começou a estabelecer outro, ainda mais importante: o do amadurecimento como homem.


publicado em 01 de Agosto de 2017, 14:39
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Redação PdH

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