Traio minha mulher com um homem | #ID 53

"Até certo tempo eu vinha conseguindo viver o casamento, porém, comecei a dar umas fugidinhas e trair minha esposa com outros caras."

"Tenho 26 anos, sou pai de uma menina linda, tenho um emprego excelente em todos os sentidos, uma vida razoavelmente boa e tenho uma união estável, há pouco mais de 2 anos, com uma grande amiga desde os tempos do ensino fundamental.

Para as pessoas de fora, não tenho do que reclamar, afinal, a mulher com quem eu divido a vida é uma pessoa excelente, me respeita e é uma mãe maravilhosa para minha filha.

Só que existe um problema comigo: sou gay!

Sempre tive desejos homossexuais, mas acreditava que poderia ir suprimindo isso se eu fizesse coisas "normais" como casar, ter filhos, construir uma família e seguir o padrão que aprendemos desde o nascimento.

Até certo tempo eu vinha conseguindo viver essa normalidade, porém, comecei a dar umas fugidinhas e trair minha esposa com outros caras. Há cerca de 3 meses comecei a namorar sério com um rapaz que mora em outra cidade e a cada dia estou mais feliz com ele.

O que para muitos não passa de veadagem, pra mim, é uma relação de amor e respeito. Ele sabe que sou casado, é uma pessoa muito madura e combinamos um tempo para resolver minha situação. No entanto, algo que me aflige, e sei que é uma fraqueza, é não saber como chegar até minha esposa e pôr um fim a esse casamento, pois ela é uma mulher maravilhosa, nossas famílias são amigas há muitos anos, não temos problemas no casamento e tudo que eu não queria era magoar ela, mesmo sabendo que isso será inevitável.

Minha esposa não desconfia de minha homossexualidade. Continuamos conversando normal, mas nos últimos 30 dias não consegui mais ter relações sexuais com ela e isso tem deixado ela muito aflita e até chorou bastante nesse último fim de semana que estive em casa. Venho tentando enrolar, dizendo que estou meio depressivo, que vou ao médico, mas o problema maior é que não tenho tesão para transar com ela. Não por ela, mas pelo fato de ser homossexual.

Às vezes me sinto um lixo por não ser hétero e conseguir retribuir da forma que ela merece. Essa questão da traição tem me feito perder noites de sono e gerado uma clima enorme de ansiedade.

A.B."

Caro A.B.

O seu dilema é muito comum, independente do seu desejo paralelo ser homossexual. A questão é que você tem duas vontades muito legítimas que são excludentes entre si.

A angústia humana costuma ser dessa natureza, dois desejos igualmente legítimos difíceis de serem vivenciados de uma forma que não gere frustração, culpa, medo ou ingratidão.

Só para eu me certificar, minha resposta vai partir do princípio de que o seu casamento traz para você gratidão, amor humano, aceitação social e senso familiar, mas não traz tranquilidade amorosa e sexual. E que o relacionamento paralelo traz cumplicidade, liberação do desejo, estabilidade emocional, no entanto, não traz plena aceitação social.

Existem alguns caminhos que você poderia percorrer, e nenhum deles será perfeito, plenamente agradável e confortável, qualquer decisão implicará um benefício, que também trará consequências emocionais, financeiras e sociais difíceis.

Vamos dar uma olhada em cada alternativa.

OPÇÃO A: Seguir no casamento e renunciar ao relacionamento extra-conjugal

Essa parece ser a estrada que você vem trilhando há mais tempo.

As recompensas são variados confortos emocionais, um sentimento de gratidão por toda a história que viveu com sua esposa, o senso de pertencimento à uma família "tradicional", com proximidade de sua filha, aparentemente, sem nenhum confronto com preconceito e todos os benefícios que a convivência com uma mulher agradável e generosa tem a oferecer.

O custo é viver um relacionamento de fachada, ter que mentir e driblar uma vida sexual com ela por conta de seu real desejo. 

O efeito é a perda de energia, uma sensação de mal-estar que precisa ficar gerenciando o tempo todo, deixar de viver o seu desejo homossexual, ficar com o aspecto amoroso incompleto, feliz pelo companheirismo da esposa, mas sem poder viver o mesmo com um homem, que é para onde o seu desejo aponta.

OPÇÃO B: Seguir no casamento e manter o relacionamento extra-conjugal

Se você seguir no casamento e sustentar o seu caso amoroso-sexual, garantirá bem-estar social e familiar, além de satisfação sexual e amorosa com seu parceiro, mas ficará se sentindo culpado o tempo todo.

A cada momento que precisar fazer um plano com a família, é provável que se sinta uma farsa, sempre com o coração dividido.

Seu parceiro também pode nutrir uma esperança frustrada de convivência mais íntima, é possível que você sinta angústia por reservar à esposa apenas momentos pontuais de bem-estar familiar, mas ocultamente carregados de segredos.

Essa vida de mentiras pode corroer lentamente sua autoestima - que de modo geral se apoia no nosso senso de integridade.

Com o tempo, poderá se transformar numa pessoa cínica, que tenta forçar uma relação de fachada apenas para sustentar seus compromissos sociais.

OPÇÃO C: Romper o casamento e seguir no relacionamento extra-conjugal

Você poderá dedicar seu tempo integralmente para seu parceiro e sentir que está sendo leal a ele e consigo mesmo, além de poder viver seu desejo real com alegria.

O custo disso pode ser a perda de prestígio social diante de pessoas preconceituosas, da família ou não.

Todos podem ter um choque triplo. O primeiro é da tristeza decorrente de uma separação familiar, com as perdas de convivência próprias de um divórcio. O divórcio é, em geral, um processo emocional e financeiro desgastante, e isso não implica que ele é o pior caminho, mas apenas que o luto é difícil mesmo.

O segundo choque é das pessoas perceberem que havia um engano atrás de tudo o que foi vivido no passado, como se você fosse um engodo. Nessa hora as pessoas farão um flashback de tudo o que aconteceu na vida de vocês como casal e sentirão um repúdio inicial. Há quem irá superar isso com mais facilidade, e também quem nunca confiará em você.

O terceiro choque é a respeito da própria homossexualidade. Os mais conservadores se apoiarão nesse aspecto para atacar odiosamente, dirão para si mesmos que a raiva é pela mentira, quando na verdade é apenas o preconceito delas gritando. As pessoas com mentalidade mais aberta lamentarão a separação em si e, com o tempo, tendem apoiar seu "novo" momento amoroso.

Não é possível saber no seu relato qual dos três choques sua esposa sofrerá com mais peso.

Cada pessoa tem uma resiliência própria. Existem pessoas de personalidade ruminante, que não conseguem seguir em frente em nenhuma situação e outras que lamentam, choram o luto necessário e olham para o futuro.

Há também uma questão a levantar. Você pode fazer uma coisa de cada vez. Reservar o primeiro momento para se separar, sem mencionar os motivos que o levaram a fazer isso. Depois que o luto da relação for cicatrizando, a questão do relacionamento homossexual pode vir à tona, para que cada coisa se ajuste a seu tempo. Lidar com tudo junto pode ser difícil para todo mundo.

Nesse cenário, existe uma chance dela acolher seu momento amoroso e ter uma pacífica convivência com seu parceiro. E, quem sabe, incluí-lo na nova dinâmica de uma família de casal separado.

Mas pode ser que ela se feche decepcionada com a separação e com o sentimento de não ter sido desejada no passado, de achar que ela nunca foi amada de verdade.

OPÇÃO D: Romper o casamento e não ter relacionamentos homossexuais

Se a ideia de enfrentar o preconceito social parece absurdamente problemática para você, uma possibilidade mais improvável seria a de romper seu casamento e permanecer solteiro e reprimindo seu desejo homossexual.

De todas é a alternativa que cairia bem ao gosto de muitos que atribuem todos os males do mundo à homossexualidade. Mas seria viver atendendo a gente que você não conhece e não admira para sustentar uma infelicidade pessoal.

Talvez seja a hipótese menos adequada aos seus desejos.

A.B., a maneira menos justa de você lidar com isso tudo é pensar em termos morais binários, pouco realistas, sem levar em consideração a complexidade dos seus dilemas.

Você provavelmente não queria ferir ninguém, amou sua esposa até onde pôde e a desejou dentro do que foi possível. Tentou seguir o script social como preconizam alguns, imaginando que a conformação às regras poderia ser uma manobra que alteraria o seu desejo. Provavelmente casou com uma mulher incrível, que o fez feliz em muitos aspectos da vida e a quem retribuiu fortemente, mas com quem agora parece já não se sentir legitimado a dividir os sonhos e os desejos.

A correnteza de decisões que tomou provavelmente resultou de uma tentativa frenética de agradar à todos, menos a você.

Não tenha dó de si e nem dela, apenas perceba que a escolha, por mais verdadeira, será difícil para todos. Afinal, não estamos preparados para verdades que contradigam o mundo ideal que alimentamos.

Existe muita homofobia ao nosso redor e essa é uma batalha de algumas gerações. Seu relacionamento com seu parceiro parece ser uma joia que traz alegria à sua vida, mas para vivê-lo plenamente é preciso a coragem de romper essa película que o cerca.

Não sugiro fazer tudo isso sozinho e nem de uma vez só. Pode ser interessante fortalecer a todos para essa decisão. Deixe sinais de mudança gradativos, respeitando os limites de todos, mas garantindo que a escolha feita inevitavelmente transforme positivamente a vida de todos.

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publicado em 10 de Setembro de 2015, 14:35
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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