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Tudo mudou e estamos atrasados em não perceber isso

Você talvez não perceba, mas o mundo em que está é um trampolim construído à beira de um abismo. Seguir adiante representa escolher entre se espatifar lá embaixo ou dar um salto para o outro lado. Ficar parado é seguro, mas pode significar permanecer sozinho e, no final, você será uma peça de museu.

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Tudo mudou, e grande parte de seus problemas pessoais, sejam quais forem, estão relacionados com essa mudança. Se isso não ficou claro, tudo bem: houve muita fumaça e barulho durante a transformação. Enquanto tudo mudava radicalmente, revoluções ao redor do mundo e duas guerras mundiais desviavam nossa atenção.

Foi preciso a coragem de um Zygmunt Bauman, polonês que participou do exército de resistência ao nazismo em seu país, para abrir nossos olhos. Foi preciso alguém que lutou no front soviético e sobreviveu à Segunda Guerra para nos alertar de que este mundo em que vivemos não é o mesmo do qual ele se despediu quando, aos 14 anos, fugiu com sua família da invasão alemã.

E ao perguntarem o que ele queria dizer, a primeira coisa que saiu de sua boca foi uma expressão muito bizarra: modernidade líquida.

A modernidade sólida

Nossos pais e avós tinham vidas muito simples. Um homem, antigamente, só podia seguir um destino, se não fosse padre: arrumar um emprego, casar-se com uma mulher para o resto da vida, criar seus filhos, trabalhar em uma mesma empresa até a aposentadoria e morrer.

Não se esperava nada mais de um homem que isso, e alguma fé em Deus. Se seguisse certinho o tal script, se desempenhasse seu papel no roteiro sem esquecer as falas, as deixas, o lugar no palco, receberia o aval da sociedade de que, sim, era um homem feliz – ainda que, no fundo, não fosse.

Da mesma forma, uma mulher que não entrasse num convento teria só um papel a desempenhar: casar-se, obedecer ao marido, ter filhos, administrar seu lar durante um punhado de décadas e, por fim, morrer. Se aceitasse esse papel e fosse fiel ao esposo e ao script, receberia a certidão de que era uma mulher plenamente realizada – ainda que, em seu íntimo, sentisse essa realização como uma forma de prisão.

Não eram papéis fáceis, mas traziam excelentes benefícios: você não precisava pensar muito sobre que rumo tomar, pois já estava tudo planejado. Seguir o roteiro garantia a aprovação social de que você fez o que precisava fazer.

E os desviantes serviam apenas para confirmar a regra: quem não aceitava seu papel nesse roteiro aguentava a pesada reprovação da comunidade.

"American Gothic", de Grant Wood
"American Gothic", de Grant Wood

O mundo, naquela época, era sólido, pois o caminho que devíamos trilhar estava pavimentado firmemente na tradição e no senso comum – não importava o quão a tradição fosse apenas a consolidação de escolhas temerosas de anciãos confusos, não importava o quanto o senso comum estivesse impregnado de preconceito e medo.

Todos reprimiam seus sonhos de mudar de vida e ensaiar nossos caminhos, suportando casamentos falidos, empregos tediosos e convenções sociais até que a velhice e a morte chegassem.

Mas era um preço considerado justo para nos manter afastados do abismo chamado liberdade, e cujos contornos -- hoje -- compreendemos.

A modernidade líquida

Agora, após eventos revolucionários e mal compreendidos (falo disso outro dia), tudo mudou. Ninguém é obrigado a casar. Não há grande pressão social se você decidir não ter filhos. Um casal pode separar-se quando quiser. E são muitos os casos de pessoas que abandonam empregos seguros para arriscar tudo em uma aventura em que busca realizar um sonho.

Somos livres, não há um itinerário obrigatório. Não traçamos caminhos sólidos, não há sequer chão sob nossos pés. Podemos seguir o rumo que desejarmos, e mudar de trajetória com relativa tranquilidade: a condenação da sociedade, ainda que presente, não será opressora. Os papéis sociais são fluidos. Não é como se caminhássemos, mas como se nadássemos livremente, seguindo as correntes de um vasto oceano.

É a modernidade líquida.

Embora 50 anos distanciem nossa época daquela em que nossos avós viviam, parece que se passaram mil anos. A vida deles era terrível e invejável. Terrível porque ninguém tinha muito espaço para tomar conta de seu próprio destino e viver como quisesse. Invejável porque a liberdade é, admitamos, assustadora.

Não temos uma programação prévia, e descobrimos que a liberdade sem pautas sociais é um bocado apavorante. A total falta de papéis nos deixa perdidos, sem fala, no meio do palco, com receio de estarmos pagando um mico.

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A volta dos que não foram

Diferente de nossos avós, quem vai nos dizer se somos felizes ou não? Quem vai nos assegurar se fomos bem sucedidos em nossas vidas? Como saber se a pessoa com que estamos é a certa? Como ter segurança de que não há outra oportunidade melhor de relacionamento ali na esquina? E nosso emprego, será que não vale apena arriscar largar tudo e tentar seguir um sonho?

Hoje em dia, o excesso de opções nos deixa atordoados. Toda decisão entre dois caminhos representa o sacrifício de alguma outra coisa. E não importa qual nossa escolha: lamentaremos aquilo que sacrificamos, e idealizaremos o que teria ocorrido se a escolha tivesse sido diferente, sem perceber que as mesmas sensações nos acompanhariam também no outro caminho.

Não é de se espantar, e tampouco condenar, que muitos de nós entreguem a um pastor, guru, líder político ou mesmo à Bíblia ou a um livro de auto-ajuda a responsabilidade de dizer o que se deve ou não fazer.

Diante do excesso de liberdade, e do fato de que a liberdade não nos traz respostas, e sim mais perguntas e incertezas, é comum muita gente sonhar com o retorno do tempo de nossos pais.

Muitos de nós idealizam a época em que era o homem que mandava no casal, ou o tempo em que a autoridade religiosa detinha a última palavra sobre nossos conflitos emocionais, ou o tempo em que os militares ou regimes totalitaristas empurravam para baixo do tapete toda forma de discordância, de desvio.

A liberdade, para essas pessoas, é um fardo, e muitos de nós, diante da assustadora plenitude, encaram a mais apertada das prisões como um lar.

Isso piora quando, retribuindo o amor de nossos pais, decidimos olhar o mundo com seus olhos, seguindo suas orientações. O fato de que eles nos amam e de que desejam o melhor para nós não significa que saibam o que é realmente melhor, pois tudo mudou. O mundo em que nasceram não é o mesmo em que estamos. Seus conselhos, por mais amorosos que sejam, são pouco úteis, pois baseados em um mundo que não mais existe.

Segui-los pode ser uma prova de amor, mas nada mais: de resto, continuaremos tão perdidos quanto eles, no fundo, estão.

Se você chegou até aqui, talvez tenha compreendido porque o mundo em que nos encontramos é um trampolim diante do abismo. Mas como atingir o outro lado sem cairmos? Ganhando asas?

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Bauman é um grande mala

Em primeiro lugar, admitamos: Bauman estava certo, mas é um grande mala.

Basta olhar para ao sujeito e vemos uma cara de quem comeu jiló. Sua análise estava correta, mas seu julgamento moral sobre a situação é a de alguém ranzinza, perdido demais na contemplação sociológica de um especialista. Ele lamenta o amor líquido, a facilidade com que nos desvinculamos uns aos outros, sem talvez perceber que, da liberdade de relações, pode surgir uma forma de comunhão coletiva.

E ele soa crítico quando diz que nossa sociedade se caracteriza por ser formada por comunidades de carnaval, em que vestimos nossas fantasias para desempenharmos um papel ciente de que não passa de um roteiro. Na verdade, essa expressão, "comunidades de carnaval", traz a possibilidade de construirmos uma ponte para o outro lado do abismo.

Estamos diante de um dilema entre a segurança opressora dos antigos e a liberdade desorientadora dos modernos. E dilemas são como nós, górdios: apenas desatados esse tipo de nó com um golpe de faca.

Em outras palavras, precisamos de um salto conceitual.

A solução deve estar em outro lugar, e não em alfarrábios sociológicos. A solução deve estar em algo tão inovador, extraordinário e inusitado quanto os tempos modernos. Bom, é possível que a solução possa ser encontrada em uma história em quadrinhos.

A verdade pode estar em uma reles história em quadrinhos

De 1994 a 2000, o escritor Grant Morrison escreveu uma obra, digamos assim, psicodélica. Os Invisíveis é, talvez, a metáfora mais abrangente e criativa sobre os desafios que estão diante de nós.

Jamais publicada totalmente no Brasil, a série em 59 capítulos chegou a ser censurada, e a editora cortou certas referências feitas pelo autor. Mas é, até hoje, considerado um dos grandes marcos dessa forma de expressão artística.

Há muito o que se falar sobre Os Invisíveis. Mas o importante aqui é nos determos apenas no básico: os personagens.

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Os Invisíveis

trata de um grupo que combate um adversário cuja natureza está associada ao mundo que deixamos para trás e que se recusa a acabar.

O grupo é formado por um líder adepto do sadomasoquismo, um travesti mais corajoso que muito hétero, uma mulata bissexual tão forte em combate corpo-a-corpo quanto exímia na cama, uma ruiva tão feminina que se pinta e veste como uma boneca e, por fim, um garoto convictamente heterossexual -- o provável leitor típico do Papo de Homem. Todos eles convivem harmonicamente, embora o garoto hétero tenha dificuldades iniciais de aceitar o convívio com pessoas tão fora do antigo roteiro da modernidade sólida. Mas ele consegue se adaptar.

Dificuldades iniciais para aceitar a mudança, papéis diversificados mas limitados. Sacou a conexão?

O fato é que, se de um lado os antigos papéis (homem de família, esposa exemplar) já não se encaixam com perfeição nos tempos modernos, por outro a absoluta falta de papéis nos deixa totalmente desorientados. Talvez a solução seja um caminho intermediário.

Para lidarmos com uma liberdade cuja imensidão chega a assustar, é preciso sem dúvida que sejamos fieis a certos papeis sociais, mas é necessário que o número de personagens desse roteiro seja maior do que a simplória dualidade “marido/esposa” de antigamente.

Em uma sociedade capaz de criar a ponte que cruza o abismo, teríamos um punhado de novos papéis, ao lado dos antigos caminhos já estabelecidos, e todos convivendo harmonicamente. Haveria a certeza de que precisamos seguir algum roteiro, cumprir certas expectativas sociais, obedecer a uma certa lógica em nossas escolhas. Mas o elenco de possibilidades seria maior, incluiria outros papeis.

Os novos papéis sociais

Seria enganoso imaginar que os novos papeis se limitam a critérios de orientação sexual. Esse é apenas um dos aspectos a ser considerado na montagem do elenco: simpatias políticas que transitam entre a extrema direita e a extrema esquerda, posicionamentos morais que circulam entre o libertário e o conservador, adesões religiosas que vão do ateísmo a religiosidade animista: tudo isso e muito mais poderia ser incluído na paleta de cores necessária para pintarmos, nas próximas décadas, os personagens da nova sociedade.

Trata-se de um exercício lúdico de criatividade coletiva, praticado com responsabilidade.

Black Bloc (foto: Felipe Larozza)
Black Bloc (foto: Felipe Larozza)

Esse experimento de criação de novos roteiros sociais já começou há algumas décadas, e não deve parecer estranho às gerações que nasceram no final do século XX. As tais tribos identificadas com movimentos culturais (hippies, punks, grunges, yuppies, headbangersgóticos, gangstas) talvez fossem o subproduto de uma flexão de músculos quase instintiva das recentes gerações, na busca de exercitar seus corpos para um salto no abismo.

Da mesma forma, o surgimento de novas tribos sociais identificadas mais com a política do que com estilos musicais, tal como os Blac Blocs, ativistas ambientais e os Anonymous, revela um segundo passo na formulação de novas identidades. Em algum momento no futuro, isso poderá solidificar-se em papeis socialmente definidos.

O importante agora é notarmos como esses primeiros movimentos são caracterizados por uma expressão estética (roupas específicas, cores específicas, etc) que denotam uma certa percepção, ainda que embrionária, de que um papel social não é algo estanque, mas sim um exercício performático e lúdico.

E o homem heterossexual, é um animal em extinção?

Os rótulos pseudo-tribais que caracterizaram os jovens do final do século XX (beatnicks, hippies, yupees, punks, góticos, etc) e suas revisitações modernas (inclusive com o nascimento de “coletivos” como os Anonymous e Black Blocs) são formas inovadoras de apresentar os papéis sociais de amanhã.

Mas e nós, homens heterossexuais, que jogamos Playstation e curtimos futebol, bebedeiras e mulher pelada?

Nós estamos em vias de extinção? Seremos apenas uma curiosidade histórica definida na Wikipedia em um verbete cuja foto ilustrativa será a do Clint Eastwood?

Ao contrário. Mais do que nunca, somos necessários. Fundamentais, até.

Na obra mencionada de Grant Morrison, Os Invisíveis, o jovem heterossexual desempenha papel fundamental, sem que isso represente uma impossibilidade de conviver com outros papeis sociais. Ou seja: o fato de que haverá, nas próximas décadas e com mais frequências, novos personagens sociais, não significa que somos dispensáveis. Na verdade, nós e as mulheres heterossexuais somos os primeiros papeis a criados na sociedade e, como tais, representamos referências básicas na construção de todos os demais.

Clint Eastwood, especialista no papel do masculino e badass em tempo integral
Clint Eastwood, especialista no papel do masculino e badass em tempo integral

Somos os alicerces, os marcos básicos para a construção de um novo mundo.

Portanto, se em seu íntimo você sente o chamado que lhe convoca, inexoravelmente, a assumir o papel social tipicamente masculino, esse é seu caminho. E, do outro lado, haverá mulheres tipicamente femininas (mas não submissas) prontas para a mais antiga das danças.

Embora muitos identifiquem o papel masculino com o simples predomínio da força, a verdade é que a hombridade está muito mais relacionada com o prazer de vencer uma resistência com destreza e firmeza do que com o mero exercício da brutalidade.

E, nos dias de hoje, a construção de uma ponte para o futuro exigirá mãos destras e firmes tais como aquelas que Clint Eastwood encenava em cada um de seus personagens no cinema: do pistoleiro de Um Punhado de Dólares ao idoso veterano de Gran Torino, passando pelo homem tardiamente amadurecido de Os Imperdoáveis até o estereotipado Dirty Harry.

O importante, o fundamental, é compreendermos que o desempenho desse papel masculino não é incompatível com o convívio harmônico com mulheres independentes e autônomas – e tampouco com a existência de vários outros papeis sociais como gays, lésbicas, bissexuais, anarquistas, marcianos, mutantes ou quaisquer que sejam os novos personagens a entrarem no palco nas próximas décadas.

Ao contrário.

Se você tem resistências ao convívio harmônico com essas novas pautas sociais, é porque não está ainda seguro do seu papel – e isso ocorre ou porque está preso em uma etapa infantil de seu desenvolvimento enquanto homem, ou que seu verdadeiro papel é outro, diverso do masculino.

Tudo isso diz respeito ao nosso futuro coletivo, e de como apenas novas ideias poderão fazer frente ao desafio adiante.

Portanto, todas as armas, inclusive as palavras, devem ser usadas na artilharia que combate o arcaico. Mas essas ideias e palavras precisam desvencilhar-se do excesso de intelectualismo sem perder a inteligência, precisam ter a firmeza masculina sem perder a habilidade de adaptar-se aos novos tempos.

Se formos capazes de transitarmos com destreza entre sociólogos pesados como Bauman, mentes criativas como Grant Morrison e talentos simplificadores como Clint Eastwood, poderemos construir a ponte para um verdadeiro futuro.


publicado em 08 de Setembro de 2013, 21:00
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Victor Lisboa

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