Twist and (if you can avoid, don’t) shout

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Eu sou de uma família de pessoas que não gritam. Meu pai não grita, minha mãe não grita (tanto assim) e nenhum dos meus avôs ou avós gritam ou gritavam.

Claro que cada um por seu tipo de razão. Meu avô paterno não gritava por ser aquele típico malandro carioca de fala mansa, o que ele passou pro meu pai, que não grita por ser um daqueles vendedores que te convencem a comprar até blu-ray duplo de Cinderela Baiana, enquanto meu avô materno não grita por ser aquele típico homem do campo que acha que comunicação verbal é coisa de veado, o que fez com que minha mãe fosse o tipo de mãe que não grita e sim joga coisas. Várias vezes pesadas e quase sempre pelas costas, mas sobre isso conversarei com meu terapeuta algum dia. O que importa é que eu sou de uma família de pessoas que não gritam, como eu disse.

"Ei, moça, gritando você não ouvir nada da banda que tanto ama!"

Por isso, e pelo fato de que eu fui criado dentro do conceito de que se você levanta a voz você automaticamente perde a razão e a discussão (mais ou menos como entrar num ringue de boxe com uma tesoura de jardim), eu sempre achei que gritar é uma das coisas mais ofensivas que você pode fazer em relação a outra pessoa. Xingar é compreensível, praguejar é tolerável, ironizar é totalmente normal, até mesmo atirar uma batata porque a pessoa fez uma piada sobre você ser baixinho (desculpa, mãe) é compreensível, mas fora agressão física, pra mim gritar é realmente o pior que você pode fazer.

Daí a minha surpresa ao notar que no mundo real as pessoas... bem... elas gritam pra caralho.

As pessoas gritam no trânsito, as pessoas gritam dentro de ônibus, as pessoas discutem e trocam palavrões nas calçadas, elas batem boca em elevadores, elas dão esporros em voz alta no meio de reuniões, elas discutem o relacionamento de forma bem audível dentro do metrô e elas se digladiam verbalmente em altos brados na frente de lojas no shopping, como se não houvesse amanhã, o mundo fosse todo delas e o centro auditivo telex não estivesse aí pra ajudar quem ouve mas não compreende bem as palavras.

Ainda que a gente tenha a tendência a achar isso normal, existe algo de inerentemente errado nessa necessidade de falar alto, gritar e berrar, seja em público ou na vida privada.

Não que o grito não tenha sua função como catarse, como forma de expressão. Claro que tem. Gritar alivia tensão, gritar relaxa e existem situações em que possivelmente apenas um grito descreve exatamente o que você está pensando (coisas como “Ana, te amo!”, “Eu me demito!” ou “Val Baiano, seu peladeiro filho de uma puta!”), mas isso faz parte de um número bem específico de situações e de uma gama particular de estados de espírito, que nem sempre se apresentam nas situações que eu vejo.

Link YouTube | Se conseguir parar a cidade para gritar com você um hino como esse, ok, pode berrar à vontade.

Porque o que eu vejo é basicamente o grito como intimidação. Não por conta de uma catarse, não por conta de um estado de espírito, mas como uma admissão aberta de que se não conseguimos convencer pela razão (ou talvez até se não temos razão nenhuma), vamos tentar conseguir algo competindo pra ver quem grita mais alto.

Mais do que uma ofensa aos ouvidos de quem está ao seu redor, mais do que uma exposição exagerada dos seus próprios problemas (afinal, nem todo mundo no elevador precisa saber que você está chateado com o chaveiro que furou hoje), o grito revela uma derrota da razão, um fracasso da inteligência, um W.O contra a argumentação lógica. Sempre que você grita Descartes toma um peteleco na orelha, Espinosa dá uma topada de joelho na mesa e Francis Bacon precisa ouvir mais 4 trocadilhos ruins sobre o nome dele.

Se todos pensam que um mundo mais lento seria um mundo melhor, acho que um mundo mais silencioso também seria uma grande aquisição pra todos nós.

Não que devamos ser menos emotivos ou coisa parecida, não que as pessoas devam abdicar de gritar quando for necessário (não quero que ninguém perca um ônibus, deixe de orientar a defesa do seu time ou pare com o sexo selvagem só por excesso de educação), mas aprender a ouvir e argumentar ao invés de gritar e intimidar sempre vai ser uma grande lição pra todos nós. E com certeza não só a orelha do Descartes e o joelho do Espinosa como também o mundo em que nós vivemos vai agradecer.


publicado em 26 de Setembro de 2010, 06:45
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João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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