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Um vão chamado cocaína

Esse texto é a última parte de uma trilogia, que aspira se tornar um livro. Leia aqui a Parte I e a Parte II.

* * *

— Meu deus, quem é ela? Qual o nome dessa mulher, cara? Quem é?

— Fala mais alto, porra. O som tá muito alto.

— Qual o nome dessa mulher que você trouxe, cara. Quem é essa deusa?

— É a Bárbara, ela trouxe os pinos.

— Miguel, você não havia parado de meter essa porra pra dentro do seu nariz?

“Tonight we are young. So let's set the world on fire. We can burn brighter. Than the Sun.”

Respondendo ao amigo cantando o refrão da música que tocava na balada, o jovem caiu – pela segunda vez – naquele vão que tinha um tanto de liberdade e outro tanto de baratas que nunca paravam de subir na perna.

* * *

Não era difícil o diretor se exaltar no ambiente de trabalho. Quando algumas coisas davam erradas, ele era daquele tipo que gritava. E gritava alto. Seus funcionários não aguentavam mais tanta grosseria. Apesar da genialidade comercial e criativa, ser um diretor gabaritado no Google ainda não dava direito de alguém maltratar outro ser humano. Miguel cagava para isso.

Em casa os problemas conjugais eram constantes. Sua recém esposa, Madalena, era um poço de ciúmes, afinal, ele era do tipo que mais atraía mulheres: bonito, poderoso e... problemático.

A esposa, em seus acessos de fúria, averiguava celulares, tablets e tudo que pudesse revelar se o marido a enganava. Ela tinha gigantesca insegurança em relação a uma mulher específica. Em sua pequenez, Madalena acreditava que a vadia já tinha iniciado os procedimentos para tirar tudo que Miguel havia conquistado. Ele, por sua vez, estava prestes a surtar. A carga emocional daquele momento da vida estava mais pesada do que imaginava. Era um dos queridinhos para assumir a presidência do Google. Os fundadores Larry Page e Sergey Brin deixaram essa vida de forma misteriosa. A disputa pelo poder máximo foi imediata, afinal, o Google dominava a tecnologia de uma forma até perigosa. O calendário marcava o ano 2024.

Em Barcelona, Bárbara havia recentemente conseguido estabilizar a vida. Havia encontrado um homem com a firmeza necessária para cuidar dela e da filha. Ao mesmo tempo, a pequena começava a andar. Bruno era carinhoso, gentil e isso fazia com que Bárbara não mais sentisse vontade de viver a vida perigosamente. Aparentemente ela se contentava com carinho, filmes e discussões sobre o valor da compra do mês.

Mesmo com os recentes seis meses de namoro, Bruno certificou-se de preparar uma surpresa daquelas ao pedir Bárbara em casamento. Ele era daqueles caras que havia sido pisado por outras mulheres. No colo da nova namorada, sentia que podia ser ele mesmo, um canceriano romântico e atencioso a todos os detalhes "daquele sorriso com covinhas" – ele dizia.

Bárbara, mesmo surpresa com as atitudes consistentes do atual namorado, ainda fazia questão de que a filha tivesse um pai biológico. Há tempos estava na justiça para conseguir reconhecimento do pai da menina, que se negou diversas vezes a fazer os exames necessários. Este fato arrasava Bárbara que, sem whisky, não teria agüentado a barra que foi todo esse processo. Ela, de certa forma, poderia ser chamada de alcoólatra, afinal, não conseguia superar as tristezas comuns à vida sem um copo na mão. Já outras substâncias estavam momentaneamente suspensas por decisão dela mesma. Até quando?

Inúmeras vezes Bruno foi obrigado a sair de casa com a menina Isabela, assim a mãe poderia recuperar a sobriedade. As tentativas de estabelecer contato com o pai de sua filha sempre a machucavam, assim, ela recorria aos copos e garrafas. Bruno, em seu papel de homem, poupava Isabela, na época com apenas 1 ano, de presenciar a mãe quebrando pratos, copos e limites.

Em Madri, o escritório local do Google era só festa. Seu diretor-geral havia sido nomeado novo presidente mundial da empresa. E, para não perder tempo, já foi logo impondo alterações profundas na companhia. Os acionistas, de começo, tentaram impedir algumas mudanças, mas Miguel era visionário e, como novo presidente, conseguiu que o nome mudasse para GLife.

— Somos envolvidos com toda a vida do nosso usuário. Se ele acorda, nós é que hospedamos a agenda do dia. Se ele se acidenta, nós é que indicamos o caminho mais rápido para a ambulância. Se ele morre, nós é que expedimos o cartão com o código genético. Por que não nos tornarmos GLife?

Embora o recente sucesso profissional fosse estrondoso, a vida pessoal estava caótica. Madalena não o deixava em paz, uma outra mulher também não. Poucos dias depois de assumir a presidência do Google – agora GLife – ele foi surpreendido por uma notícia que de certa forma o abalou: Ozzy estava morto. Sim, Ozzy Osbourne que, aos 75 anos de idade deixou o mundo após consumir metanfetamina e cair de moto. O rock star foi esmagado por um caminhão que vinha na faixa contrária. Deu trabalho recolher os pedaços do velho Madman.

Apesar da distância física do ocorrido, Miguel sentiu sua adolescência passeando nos pensamentos. Foi com Black Sabbath que ele deu início a muita coisa da própria vida. Foi no rock n’ roll que ele descobriu a diversão verdadeira. Lembrou-se com nostalgia dos momentos em que tocou bateria em bandas. Quis encostar em uma caixa ou bumbo naquele momento. Não podia. A realidade gritava e certo funcionário o interrompia com o resultado de uma importante pesquisa feita pela GLife.

Algumas horas antes, era a esposa quem infernizava a vida do cobiçado homem:

— É a minha filha, Madalena. Ela conseguiu provar, não conseguiu? Eu preciso assumi-la, porra. Você devia é ser um pouco mais humana e menos preocupada em quem vai ter que dividir a herança com você – Esse comentário foi o suficiente para despertar a fúria da mulher. Foram vasos e mais vasos estilhaçados naquela briga. Ele saiu com um pequeno corte no braço.

No escritório, a coisa não era menos barra pesada que em casa. Quer dizer, no escritório era até mais, depois de descobrir do que se tratava o assunto emergencial de um gerente de pesquisas. A frase final do gerente foi apenas:

— E se fosse sua filha, Miguel?

Ele não tinha muita resposta para aquela questão. Havia decidido há pouco tempo que teria, finalmente, que olhar de perto a pequena Isabela. A menina era filha de um rápido relacionamento do CEO com Bárbara, um antigo amor. A criança foi gerada em uma clínica de recuperação para usuários de cocaína. Talvez a menina estivesse – para sempre – condenada a viver rodeada de energias ruins.

Ambos decidiram se internar pela mesma causa: religiosa. No ano de 2023 muitas pessoas relataram ter ouvido uma voz serena e precisa. O tom de voz era doce, a mensagem era um tanto quanto amarga:

“Não temam o outro lado, não temam a morte. Temam a si mesmos. Estão prestes a viver um fim desse atual sistema de vida. As regras espirituais estão sendo moldadas por vocês mesmos. Outros vocês.”

O medo – que acometeu toda a sociedade – fez com que o uso de drogas dobrasse naquela geração. Mesmo pessoas pouco religiosas tinham medo. Estaria algum soldado de Deus prestes a descer para fazer uma faxina aqui na Terra?

Bárbara era só felicidade quando havia decidido contar para o novo amor que estava grávida. Ali, naquela clínica, ela já fazia planos. A pequena Isabela seria a fuga de ambos. A cocaína sumiria em meio ao sorriso infantil com poucos dentes. Ela, coitada, não poderia estar mais errada. Miguel era homem de poder, com casamento marcado e não poderia se deixar levar por um rápido relacionamento. Disse à Bárbara que lhe daria o dinheiro necessário para a criação. Sem saber que esse comentário destruiria a vida de ambos. A de Bárbara por não ter conseguido evitar a droga durante a gravidez, tamanho processo depressivo em que entrou. A dele por ter que passar alguns anos sendo infernizado – com razão – pela mãe de sua primeira filha. Miguel era desses homens cheios de poder e religião, mas um tanto quanto vazios de hombridade.

Conforme o tempo passou, Bárbara encontrou certa paz em Bruno. Havia desistido de convencer o pai da menina apenas na palavra. Teria que recorrer à justiça e assim o fez. Apesar de todo o empenho de Madalena para que seu marido jamais tivesse contato com "aquelas duas", a justiça fez sentido e agraciou o poderoso homem com a paternidade. Por mandado judicial o atual presidente da GLife assumiu sua filha.

Ele até que se divertia em alguns momentos com a menina. 2025 foi o ano em que ela completou 3 anos de idade. Também foi o ano em que Iago, o gerente de pesquisas da Glife, revelou ao presidente o resultado de 3 anos de trabalho intenso: não havia mais anônimos na deep web.

Para o leitor que ainda não conhece, a deep web é um espaço escuro e de difícil acesso dentro da internet. Nos idos de 2013, todos que ali frequentavam eram anônimos e, por isso mesmo, as maiores atrocidades aconteciam. Grupos discutiam as melhores formas de mutilação genital, outros grupos – até maiores – criavam maneiras de torturar crianças. Psicologicamente. Fisicamente.

A polícia não chegava até aquele local que era praticamente um círculo fechado de hackers, crackers e demais experts em redes e computadores. Por muitos anos a deep web foi terra de ninguém. Ali, atrocidades tremendas eram divulgadas com banalidade. Era como se estivem divulgando um blues inédito do falecido B.B King. Existiam trocas de informação sobre práticas de canibalismo, negociavam urânio enriquecido.

Iago levou ao conhecimento de Miguel um fato inédito: a luz havia sido acesa naquele quarto escuro. Os responsáveis por aquele tipo de conteúdo já podiam ser identificados.

— Cara, isso precisa ser levado à polícia.

— Não. Não é nossa função.

— Cara, as atrocidades são tremendas, eu tenho uma list...

— Não haverá envolvimento da GLife com esse caso, Iago. Polícia é polícia, GLife é GLife. Esqueceu nossa origem? Esqueceu nossa essência? Nós também somos um quarto escuro na internet. Vamos jogar contra a nossa própria comunidade, contra nosso próprio povo? Qualquer usuário precisa enxergar a GLife como a melhor parceira dessa vida. Não somos Deus pra fazer distinção de bem e mal.

— E se fosse a sua filha?

Duas horas passadas, ao voltar do seu almoço, Miguel vê sua sala tomada por papéis. Ao pegar um deles na mão lê a seguinte lista:

“Métodos de torturar uma criança:
— Socar crianças;
— Estapear crianças;
— Fazer crianças chorarem;
— Estuprar crianças;
— Agredir crianças;
— Assustar crianças;
— Deixar crianças passarem fome;
— Fazer crianças terem sexo com animais;
— Assustar crianças com animais assustadores (Cães agressivos, por exemplo).”

E o recado final de Iago:

“— Essa é a deep web que você está se negando a denunciar. Isso diz muito sobre você e, definitivamente, eu me nego a trabalhar para alguém desse tipo. Seu lixo. Até nunca mais.”

Ele se manteve firme na decisão. Aceitou o pedido de demissão de Iago. Aceitou que a vida era daquele jeito: nunca desagradar gente que dá lucro ou gente perigosa demais.

Ao olhar para a "recente" filha sorrindo, ele se manteve indiferente. Não pulava de alegria por agora ser papai mas, de alguns meses para cá havia aprendido a nutrir certo carinho por aquela pequena mãozinha e sua dona: Isabela.

Sábado era dia de piscina, domingo era dia de parque. Miguel, pouco a pouco começou a notar que a cada final de semana a filha falava menos, sendo menos criança. Certo dia em que ele levou a filha para a escolinha, o pior aconteceu:

Tentativa de assalto. Um homem do lado esquerdo do aeromóvel. Outro homem do lado direito. Miguel percebe o que está acontecendo. Seu pé treme. Seu pé acelera. Traduzindo: Miguel reagiu. Um tiro se ouve. O vidro explode. A pequena Isabela está no caminho da bala. Um tiro atinge seu pequeno olho. Vara o seu crânio. O sangue e o grito se espalham. A morte veio para a criança. Miguel não é mais pai. – “Cuidado com o que desejas, pois poderás ser atendido”.

Para um ex-usuário de drogas não é necessário explicar o que acontece em uma situação dessas. Justo quando ele estava aprendendo a ter carinho por alguém que não era ele mesmo, a coisa toda aconteceu. Como se livrar da sensação se culpa? – ele pensava. Como deixar de lado a tristeza de ver uma criança tão inocente sendo invadida e rasgada por um concentrado de pólvora?

— Três pinos para antes da meia noite. – E desliga seu web-fone após entrar em contato com o delivery.

A depressão começou a invadir o homem que rapidamente se interessou pelos estudos de um médico português. Esse médico cujo nome era André vivia em Lisboa e seu feito não demorou para chegar aos ouvidos poderosos: O doutor havia criado uma maneira de ressuscitar pessoas.

Como alguém abalado pela morte não iria se interessar nesse estudo? Miguel queria patrocinar o desenvolvimento da proteína da ressureição. Para tal, viajou até Lisboa a fim de trocar algumas palavras com Dr. André.

Ele volta para Madrid com certa frustração, o médico não quis saber de corporativismo em cima de seu estudo. Pensou em exercer poder, mas estava abalado demais para seguir em frente. Isabela não poderia ser ressuscitada. André dava pistas de que apenas mortes causadas por problemas no coração é que eram passíveis de ressurreição. Uma injeção de proteínas dada diretamente no miocárdio religava o músculo em poucos minutos. Nesse momento, o homem vencia Deus.

Bárbara era apenas estilhaço de ser humano. A mulher, que já era magra, havia perdido 13 quilos com a morte da filha. Não se levantava da cama para comer, sequer ir ao banheiro. Bruno precisou colocar fraldas na esposa durante um tempo. Ele, novamente, foi o homem forte que ela precisava. Ela havia deixado para trás o seu trabalho, família e, incrivelmente não cedeu à pressão das drogas. Fez isso por que, de alguma forma, imaginava a filha ali do lado. E quando chegasse o momento em que a criança viesse dizer ‘oi, mamãe’, ela não queria estar bicuda, sob o efeito de da droga branca. Queria ter condições de sorrir para a criança, mesmo se ela viesse apenas em sonho. Bruno, como ganhava a vida trabalhando de casa, foi determinante para tirar a mulher daquele luto que parecia não ter fim.

Já Miguel se perdia em bares. Seu foco no trabalho era mínimo. Tudo que lhe importava eram os pinos, as carreiras, sempre no plural. Certo dia alguns diretores da GLife convidaram o presidente para um bordel de luxo em Madrid. Chegando lá – obviamente – se entupiu da substância adorada. Sempre que fazia isso, ele sentia baratas subindo por suas calças. Se olhasse para baixo, não veria nada, mas a sensação nunca o abandonava. Nesse dia, ele batia forte o pé no chão. Seus amigos acreditavam que ele estava marcando o tempo da música – pois eram batidas ritmadas – mas isso era apenas uma tentativa discreta de se livrar de centenas, milhares de baratas entrando em seus sapatos, subindo por seus calcanhares.

— Antônio, façamos assim: Vamos jogar toda a culpa na cocaína, não nele. Fingir que ele não tinha monstros anteriores; desde que nasceu. Que o Miguel era um cara bom, ajudava crianças, pai de família e que a culpa toda é da droga. Que foi uma inversão moral repentina e que isso não casa com a ideia de gestão que os acionistas têm sobre a GLife.

— Não é à toa que você é bilionário, né, Tales? Sabe destruir um reino alheio como ninguém.

— Vou levar como elogio, Antônio.

Antônio havia sido reitor na Faculdade de Medicina de Madrid. A mesma faculdade que expulsou o CEO da GLife após ele ser considerado dependente químico sem previsões de cura. Para ele sobrou aprender gestão com o pai Ernesto e continuar se virando na informática. Área em que detinha conhecimento incrível.

Houve tentativas constantes de derrubar Miguel de seu cargo, mas, de forma até surpreendente ele conseguiu retomar o foco, livrou-se do pó branco e reassumiu um papel perante a sociedade. Havia retomado o pensamento de comandar, não se ser comandado.

Bárbara, por sua vez, saiu da cama, teve outra filha, dessa vez com Bruno e as coisas pareciam estar se acalmando. Whisky continuava a ser inimigo, mas um inimigo que ela mantinha à distância. Fotos de Isabela ainda decoravam aquela casa.

O ano é 2030, os dias têm passado até que rapidamente para Miguel. O núcleo de moderação de conteúdo teria reunião naquela tarde, porém, antes da reunião o gerente abordou o presidente:

— Cara, antes da reunião nós precisamos conversar.

— Fale.

— Eu realmente não sei como começar essa conversa mas, como você bem sabe, nossos estagiários da moderação não ficam mais que 6 meses no cargo. Principalmente os estagiários alocados no YouTube. Os vídeos que eles precisam assistir são terríveis. Um deles em específico é pior que todos os outros. Estivemos atuando na deep web e um funcionário encontrou algo. É, ele encontrou algo realmente triste.

— Por que pior, por que triste Tales?

— Preciso que você assista.

E, ao ser dado o play, Miguel paralisa. O vídeo continha cenas de tortura infantil. Uma criança era pisada no estômago enquanto um homem gritava muito. Gritava coisas sem sentido, palavras de alguma seita ocultista. Em determinado momento do vídeo o já arrasado homem grita: o cidadão do vídeo havia começado a urinar na pequena menina.

— Não. Não. Puta que o pariu, meu Deus. Meu Deus. Não... não... não... – a criança no vídeo era Isabela, filha de Miguel morta 3 anos antes.

— Eu entendo o seu desespero, mas preciso que leia o texto que acompanhava o vídeo.

“Essa era minha enteada. Precisei dar um fim nessa criaturinha dócil. Ela estava prestes a contar para o pai o que fazíamos quando eu a levava para passear enquanto mamãe degustava alguns bons whiskies. Não foi difícil. Encomendei um assalto forjado aqui na própria deep. Ela nunca conseguiu contar ao papai riquinho o que sofria.”

Tropeçando, correndo, arrasado. Assim saiu Miguel em direção ao estacionamento da GLife. De lá ele ligou para um antigo contato delivery. Por sorte, o cara ainda atendia às encomendas. Sendo assim, pediu 10 pinos. O endereço de entrega era sua própria casa.

Assim que deixou o carro na garagem, ele correu em direção às suas garrafas, pegou seu melhor whisky e tomou no gargalo. Partiu em disparada do armário que escondia seu rifle. O interfone tocou. Ele atendeu. Pegou uma bíblia antes de descer. Abriu no livro do Apocalipse. Desejou que aquilo fosse real.

— Entrega para o senhor Miguel.

— ... – e largou o interfone sem nada responder

— O décimo papel completa os R$200,00 da compra e frete. – e o dono daquela enorme casa bateu a porta após pagar a violenta compra.

Com os pinos na mão, ele não correu para o banheiro, os pinos seriam responsáveis por dar a coragem necessária de destruir Bárbara e, segundos depois, Bruno, o padrasto responsável por torturas homéricas na pequena criança.

Fez algumas carreiras rápidas em uma mesa de centro da sua enorme sala. Madalena estava trabalhando, na casa não havia ninguém que não fosse Miguel e dez mil espíritos obsessores ao seu redor. Duas, três, quatro, cinco carreiras. Todas devidamente aspiradas. Whisky no gargalo pra coragem subir nas nuvens. Mandou mais duas, três, quatro carreiras. Total de nove.

Seus olhos pareciam tentar sair para fora do crânio. Sua cabeça rodava, pulava, esticava. Sua respiração não era mais controlada. Ele suava. Estava saindo do próprio corpo. Não sabia se aquilo eram dores ou a própria morte cavalgando para próximo dele. Deu-se o desmaio. Mesmo desmaiado, aquele corpo tinha espasmos e vômitos. Em determinado momento a respiração foi cortada. Essa, talvez tenha sido a hora em que o coração parou de responder. Parou de bater.

E, com o rifle adormecido ao lado, morreu antes de vingar toda a maldade. Maldade em que o ser humano carrega como essência; não é coisa de geração, é coisa de alma.

* * *

— André?! – Gritou um assustado Miguel.

— Sim.

— O que se passa?

— Force a memória, você vai entender rapidinho.

Miguel estava de volta.

— Eu fui ressuscitado?

— Foi.

— A mando de quem?

— Ernesto, o seu pai.

É difícil precisar o quanto é eficaz uma proteína que ressuscita um coração interrompido por um infarto fulminante. Não sabe-se ao certo qual nível de contato em que o morto estabeleceu com o mundo espiritual. Mesmo o médico sendo cético, essa questão ainda o deixava com medo.

— Quão longe a morte foi nessa pessoa? – Ele pensava.

— Eu te devolvi à vida, Miguel. Eu venci a sua morte.

— Você pode ter vencido Deus e a minha morte, mas eu não; eu me aliei a ela e as coisas vão mudar daqui para frente.

Bárbara e Bruno, ao saberem do sumiço ficaram preocupados. Bruno um pouco mais. Ele sabia que algumas coisas poderiam ter relação com outras. Bárbara de nada desconfiava, acreditava que o pai de sua filha poderia ter ido para uma nova clínica de reabilitação. Quem encontrou o corpo de Miguel foi Madalena. Já sabendo dos experimentos de Dr. André com a ressurreição, desesperada entrou em contato com Ernesto, o pai. Foi o velho comerciante que negociou a volta do filho à vida. Talvez ele não soubesse tudo que essa volta acarretava para a humanidade. Talvez nada. Ele realmente não fazia ideia de quem seria o novo Miguel.

Após retomar a presidência da GLife em Madri, ele teve de se decidir entre vícios ou vingança. Para um viciado é muito difícil a vingança ser plena. Fica faltando a parte da estratégia. E, como dito anteriormente, nunca saberemos qual contato espiritual foi estabelecido por alguém que conseguiu ressuscitar. Pessoas que viveram uma quase morte de 5 a 10 minutos alegam terem visto um túnel, luzes, tudo sem muita definição. Mas e alguém que ficou morto por 4 dias? 96 horas.

“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.”

Talvez, baseado em delírios – agora religiosos – Miguel decidiu fazer uma investida em cima de governos das principais metrópoles. São Paulo, Nova Iorque, Tóquio, Berlim eram cidades gigantescas que não estavam, nem de perto, conseguindo administrar a vida dos cidadãos que nelas moravam. Ele recorreu ao argumento de sempre: dinheiro. A GLife portava fundos para comprar ou destruir o mundo. Talvez, sequencialmente, essa fosse a intenção dele. Afinal, não foi o mundo que fez o que fez com a filha dele? Erra quem pensa que o culpado foi apenas Bruno.

Após meses de negociações intensas, Miguel conseguiu comprar a primeira cidade para a GLife. São Paulo foi a escolhida. Assim, ele estaria mais próximo de André, alguém que poderia ser um grande aliado no desenvolvimento de um chip em específico: GoogleChipPersona, o GCP.

Dito e feito, com montanhas de dinheiro não foi difícil convencer o médico a avaliar toda a parte biológica daquele chip. Outros seriam responsáveis por rastreamento, satélites e toda a parte tecnológica. Sim, eu disse rastreamento: o GCP era um chip da GLife que, ao ser inserido no pulso – como uma vacina – rastreava o cidadão de São Paulo onde quer que ele fosse.

E, o que começou como rastreamento, se tornou, aos poucos, uma proibição. Miguel, sem seus novos delírios, decidiu proibir os cidadãos daquela cidade de escolherem se andariam pelo lado direito ou esquerdo dos lugares. Ele estava dividindo famílias, amigos, profissionais. Tinha tudo para se tornar um caos, não fosse a passividade daquela geração e a efetividade da GPolícia. E isso se sucedeu para demais metrópoles de todo o mundo. Os cidadãos de Berlim foram os primeiros a tentar protestar. De início, diversas mortes foram registradas, mas a soberania da tecnologia impedia o povo de vencer essa batalha. Quem ousasse passar para o outro lado (esquerdo para quem morava no direito e vice versa) era sumariamente executado.

Não se sabe se essa história de direito/esquerdo tem algo a ver com o antigo vício do CEO, afinal, ele sempre precisava escolher aspirar com a narina esquerda ou a direita; sempre um impasse, tendo em vista que a cartilagem do nariz de Miguel já havia se destruído. Toda essa revolução não tinha nem um pouco cara de brincadeira, se tivesse, seria a brincadeira de mais mau gosto em toda a história da humanidade.

Bárbara era constantemente ameaçada pelo pai de sua filha. De alguma forma ele a via como uma grande responsável por toda a barbaridade que a pequena Isabela viveu. O único ponto interessante: Miguel nunca contou nada a ela. Nem foi atrás de Bruno. Apenas enfatizava que ela seria a primeira. Deixava recados, mensagens: você será a primeira.

As dores de cabeça de Bárbara e do CEO surgiam ao mesmo tempo. Eram enxaquecas fortíssimas que nela causavam vômitos e febre. Em Miguel, causavam delírios fortíssimos. Ele tinha plena certeza de que quando as dores fortíssimas viessem mais uma vez, essa era a oportunidade de conversar com Jesus. Alucinação? Se levarmos em conta que ele já esteve do lado da morte, nada pode ser tomado como mentira ou verdade absoluta.

Fato é que devido às proibições, o mundo, pouco a pouco iniciou um pequeno caos. Em 2033 a situação não era mais de plena segurança, a GLife começava a perder o controle. Suicídios eram constantes por aqueles que não conseguiam mais estabelecer contato físico com suas famílias. Apenas contato virtual era permitido e, qualquer troca de informações suspeita, era punida com uma morte que não demoraria muito a chegar.

Dentre os que não aguentaram a pressão estava Bruno. O marido de Bárbara foi encontrado enforcado com uma corda bastante resistente. Matou-se e, ao lado do corpo fez questão de deixar um bilhete:

Deixo a vida para que pessoas e tempos melhores surjam. Se existe alguma teoria da evolução, estamos prestes a evoluir categoricamente. Somos maus. Eu, mais até que alguns. Mas quem vai me julgar? Deus? Nunca fui apresentado a esse cidadão. Fui apenas o reflexo do que foram comigo: pais ausentes, violentos, entupidos de entretenimento ao ponto de não conseguirem transmitir valores para nenhum dos filhos. Mundo, não pense que não sofri por ter sido quem eu era. Sofri e muito. E saio triste por não conseguir culpar ninguém.
Naquele momento, tudo era um jogo de vida ou morte. A sociedade se manifestava e Miguel também: Se continuarem os suicídios, corto a comunicação entre os lados. Mas, no fundo ele sabia que se fizesse isso, o suicídio seria coletivo e ele não teria a chance de ter uma vingança completa.
Sábado, 24 de dezembro de 2033: 9h da manhã.

Bárbara acorda desnorteada. Precisa de água. Coisa que ela faz: toma 1 litro em 3 ou 4 goles. Fica assustada quando percebe que aquilo não matou a sua sede. Que o suor não parou de escorrer por sua testa.

Miguel, em mais um acesso de enxaqueca, sua como nunca. Seus delírios começam a surgir. Seus olhos parecem pegar fogo de tão secos, e é com fogo que ele brinca de falar com Deus. Pede que Deus dê a ele o caminho. A resolução final. Pede para que seja naquele momento. Pede o fogo. Para ele não existia nada de errado em se comunicar com o que ele acreditava ser o senhor das criações. Se Moisés havia conseguido e, além de tudo, também com fogo, por que ele não?

— Meu senhor, faça com que hoje a sua resposta seja dada. Estou pronto para a missão. Me use como escudo e flecha da sua restauração. Sou de ti, oh, meu Pai.

Se ele era realmente o anjo do apocalipse, não se sabe. Afinal, o Miguel bíblico portava verdadeiras flechas de fogo. Esse Miguel portava apenas o desprezo pela raça humana. E desse ódio nasceu o domínio, a escravidão. Um fim gradual, mas que precisava ser com chave de ouro.

Os delírios do CEO mais poderoso de todos os tempos não estavam errados. Ele teve ajuda de uma voz que cortou os céus. Se era o pai, o filho, ou até mesmo o espírito santo, não se sabe, mas o veredicto era um só:

“Vocês não sobreviveram ao teste imposto por nós. Aqui não existe amor. É fácil chamar de Satã, Diabo, Satanás tudo aquilo que você tem por essência, mas se envergonha de dizer. Seu mal é interno, não precisa de inferno para ele se propagar. E se a teoria criada por vocês é que tudo que é mau se eterniza no fogo, que assim seja. Ou, com uma palavra mais conhecida por vocês: Amém.”

O fim chegou queimando a pele, mas a principal função era queimar a alma.

Os animais – de todas as espécies – corriam para longe dos corpos que estavam em chamas. Atordoados, os bichanos ainda não sabiam que daquele dia em diante, eles seriam novamente os senhores dessa terra. Foi-se embora apenas a raça humana.

Do pó ao pó.

* * *

Eram 7h da manhã e todos ali precisavam acordar no mesmo horário. Esse era o momento dos remédios de dose extra forte para os mais problemáticos. Naquele dia em especial Miguel tinha visita, era seu irmão André que não havia pisado ali uma única vez sequer. Sete anos depois do ocorrido ele estava ali para tentar entender as motivações do irmão.

Na noite anterior, como de costume, Miguel fechou a Bíblia e chorou novamente em seu travesseiro. Todos os dias havia um choro calado e cortante; sua solidão era extrema. Ele nunca havia recebido uma única visita. No local, o colombiano Miguel era conhecido por contar histórias espetaculares. Sua especialidade eram histórias sobre o fim do mundo. Apocalipses maravilhosos surgiam da boca daquele homem. Talvez essa fosse a melhor forma que ele encontrava para fugir da realidade. Nas histórias que contava gostava de se inserir como herói ou vitimizado pelas circunstâncias. Nunca como um vilão ou alguém que pudesse fazer o mal sem causa aparente.

Em júri composto nos idos de janeiro de 2013, a defesa apresentou exames que comprovavam sua insanidade e sua tendência contínua à violência. Isso evitaria que Miguel fosse para uma prisão comum. Ao encarar o juiz e contar histórias sobre ser o presidente do Google, ele foi condenado à reclusão em um manicômio no interior de São Paulo.

A ex-esposa, Clara, nunca o visitou. Ela jamais suportou o fato de Miguel, seu ex-marido, ter se entupido de cocaína e, sob os mórbidos efeitos da droga, ter estuprado e matado a própria filha. Bárbara tinha apenas 3 anos na época.


publicado em 20 de Janeiro de 2013, 06:57
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Fábio Chap

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