Estamos procurando um autor para escrever sobre saúde do homem no PdH! Topa? Mais informações aqui.

Uma delícia! Uma menina aprendiz de longboard

Eu já estava cansada de olhar meus amigos com aquela boca aberta e o pensamento lá longe, sobre como seria a sensação de estar sobre diferentes quatro rodas.

"Eles deslizam com uma aparente facilidade", pensava eu. "Que tipo de seres humanos são esses? Parecem até mutantes! Será que é um tipo de 'gene radical' que uma força maior dá só para aqueles raros felizardos? Ou será o gene do 'desengonçadismo' que atinge alguns meros mortais, inclusive eu? (E meu deus, por que justo eu?)

Link YouTube | Se elas fazem, por que não eu?

Sempre tive muitos amigos que andavam de skate, mais especificamente de longboard. Sempre foi um verdadeiro fascínio observá-los andando. Manobras suaves chamadas de “carveadas” cortavam ruas e ladeiras em um ziguezague quase mágico para os espectadores.

Um pouco diferente da modalidade “street” do skate tradicional, que na maior parte do tempo é repleta de manobras e saltos, observar a prática do longboarding me passava uma sensação diferente de diversão. De pura curtição do ventinho no rosto.

Cresci sob o olhar pessimista de um pai que tem certeza até hoje, que a qualquer momento vou fazer merda. “Você?”, com aquela ironia absurda, foi o questionamento que escutei durante toda a minha vida ao contar alguma peripécia nova.

Não tentem essa brincadeira sem equipamentos de segurança, ladies!

Aconteceu quando quis andar de bicicleta, fazer uma tatuagem, e até umas meras aulinhas de dança.

Foi então que, numa tarde das últimas férias de julho, um estalo de falta de noção temporária (porque, em sã consciência, talvez eu nunca tivesse tentado), me fez cansar de ser encarada como a "loirinha desengonçadinha" e pensei:

Quer saber, por que diabos não tentar?

Antes de abordar a primeira experiência, é importante ressaltar que. além da minha inicial falta de jeito, um dos fatores psicológicos determinantes em ter medo de tentar foi o pré-conceito que uma mulher sofre quando começa a pensar em tentar algo como se jogar num skate. Parece clichê, eu sei, mas a sociedade está repleta de julgamentos estereotipados e muitos deles se aplicam a uma mulher que, além de tudo, passou a vida escutando que tem cara de fresca.

Toda vez que cogitei essa vontade em voz alta, sofri uma repreensão mesmo que indireta de todos os lados. Cheguei a ouvir que estava velha para aprender (isso por que ainda vivo o auge dos meus 22 anos). Nessas horas eu me questionava se não era melhor encontrar outro hobby para ocupar meu tempo, como uma aula de spinning. Só que não.

O primeiro e mais óbvio julgamento da massa oposicionista, ou melhor, da massa mal informada, é de que eu viraria mais uma mulher-macho. Que largaria minhas roupas pelas calças “largas, deixaria de lado o meu melhor amigo rímel e que começaria a atender pelo apelido de Nat-João. A mulher não precisa (e nem deve) abdicar de nada de sua feminilidade para praticar um esporte. E podia ser boxe, tênis, futebol. Que diferença faria?

Nenhuma

Felizmente, em meio à repreensão, houve um grande amigo que com toda a paciência do universo apoiou minha ideia e emprestou um de seus boards pra que eu finalmente quebrasse as minhas amarras físicas e, principalmente, psicológicas, para então conhecer o “verdadeiro sentimento que o skate traz pra gente”, como ele me disse uma vez.

A sensação era realmente tão extasiante quanto aparentava, e mais inexplicável do que eu poderia imaginar. Era um misto de tensão e relaxamento, uma euforia estabilizadora, um medo e uma coragem, se é que isso expressa algo pra vocês.

Mas é claro que essa história não ia ser feita apenas dos momentos felizes em que tudo que levei pra casa depois do rolê fora um corpo cansado e uma mente satisfeita. Na tarefa de aprender, eu caí, levantei, caí, levantei e...bem, caí de novo.

Vocês pensam "ouch!". Eu penso "fuck yeah!"

Hoje já coleciono três cicatrizes, além de algumas pequenas marcas roxas, pro delírio da minha mãe que recentemente começou a se arrepender de não ter me colocado pra fazer balé quando pequena, sonhando que isso pudesse influenciar em algo hoje.

Para vocês que assim como eu sempre tiveram vontade de aprender, mas que não tem coragem, eu digo: Não adianta ter medo de se machucar. Esqueça o medo, esqueça a vergonha. As quedas sempre vão existir, mas elas não são absolutamente nada comparadas a sensação de total liberdade que você vai experimentar.

Eu vou continuar experimentando. Por muito tempo

publicado em 17 de Março de 2012, 07:34
46961f8c893b7269fc190027762f3515?s=130

Nathany Rocha

Publicitária, 23 anos. Carioca de naturalidade e moradora de sampa. Ainda tem certeza que volta pra sua terra natal, mas só depois de dar uma voltinha pelo mundo. Ariana, inquieta, viciada em jazz, praia e cerveja gelada. Voltou recentemente a responder no twitter por @nathanyrocha


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura