Vai, todo mundo!

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No começo, eu pensava que era algo que se ouvia só naqueles momentos especiais. Mais precisamente, durante 90 minutos – com uma folga de meia hora para mais ou para menos, vai. Aí comecei a perceber que não.Acontecia durante o dia todo, sem aviso prévio. Vou ilustrar melhor.

Imagine-se trabalhando num escritório. De repente, sem nenhuma causa aparente, do sétimo andar do prédio, você consegue ouvir alguém gritar:

- Vai, Corinthians!

Vai, Coríntians!
Vai, Coríntians!

Pronto. Sente-se então uma leve agitação no ambiente de trabalho, outrora até bem calmo. Alguns, por concentração ou sangue frio, permanecem como se nada tivessem ouvido. Outros viram os olhos. Uns bem humorados soltam um risinho (debochado ou não). Enquanto outros, é claro, erguem o braço e repetem essa que, quiçá, seja a exclamação mais repetida da história da brasilidade. Sim, mais que “é por isso que o Brasil não vai pra frente” e muito mais que “imagina na Copa”.

Até aí, não falei nenhuma novidade. Até aposto que toda criatura neste país já ouviu isso. A pedra na calçada da sua casa já ouviu. Aquele gato vira-latas do Viaduto do Chá já ouviu tanto que pensou em gastar suas sete vidas pulando de lá. A questão é: como um grito de torcida com a função primária de incentivar um time de futebol se transformou num organismo sintático vivo capaz de assumir qualquer significado na língua portuguesa?

Honestamente, não sei. Mas conheço muitos corintianos e já os vi fazendo todo tipo de maluquices com a tal frase. Vamos começar com um caso clássico: tinha um, assessor de imprensa, que, quando conseguia emplacar uma pauta do cliente em algum veículo, gritava “vai, Corinthians!”. Na cara do chefe são-paulino. Amor ao emprego? Não muito. Mas um integrante do bando de loucos não se importa com isso.

Vai, Coríntians!
Vai, Coríntians!

Aí tinha outro que, sempre que espirrava, gritava “vai, Corinthians!” na sequência. Decerto um resfriado nada mais é que um jogo de futebol microcelular em que os glóbulos brancos são células corintianas e os vírus são palmeirenses. O espirro, claro, é um gol.

Um amigo, jogando futebol no videogame, chegou à excelência de berrar “vai, Corinthians!” ao marcar um gol. Do Barça. Ele gritaria mesmo que estivesse jogando com qualquer outro time em qualquer outro campeonato na galáxia.

Outro dia, na fila da lotérica, alguém passou berrando você já sabe o quê. Não tinha jogo, não tinha nenhum grande feito pessoal a ser comemorado, não tinha nada. Quer dizer, as pessoas chegam ao ponto de homenagear o pagamento de uma conta de luz. Imagino que existam aqueles que gemem “vai, Corinthians” no sexo, ao obter êxito espremendo uma espinha ou mesmo degustando um bom pedaço de pizza.

A expressão é tão boa, vou te falar, que até quem não é corintiano a adotou. Esses são os mais espirituosos: os que debocham do bom e velho, do glorioso fracasso. Um amigo meu, sempre que levava um fora de uma garota, jogava os braços para o alto e ria - adivinhem dizendo o quê? Mais ousada, sempre que uma amiga espera pelo trem numa plataforma ridiculamente lotada da estação de metrô, brada aos ventos um - isso mesmo, "vai, Cor...!" - antes de se lançar à iminente loucura de tentar entrar no vagão.

Vai, Coríntians!
Vai, Coríntians!

Quer dizer, ao mesmo tempo em que "vai!, você já sabe" é essa feliz celebração, é também o novo grito de “isso vai dar merda” de toda pessoa que torça por qualquer outro time de futebol do Oiapoque ao Chuí.

As possibilidades são infinitas. Conseguiu um assento vago no ônibus? “Vai, Corinthians!”. Seu amigo corintiano caiu da escada? “Vai, Corinthians!”. Escreveu uma crônica que tem 93% de chances de irritar o bando de loucos? Vai!, já sabe. Basta ir.


publicado em 07 de Setembro de 2012, 11:20
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Mariana Lins

Mariana "Ask me about Grim Fandango" Lins é jornalista, santista e uma série de outras coisas que também terminam com “ista”, mas que não entram nessa lista pra não ficar chato. Aficionada por livros e música, entusiasta de vídeo-games, vegetariana e fã de flores, sucos e animais, é uma catlady em potencial que, se pudesse dar um conselho pra você, diria pra não levar as coisas - nem este texto, nem a si mesmo - muito a sério. Escreve regularmente para o Os Sem-Biblioteca


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