Vale fazer cover?

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Viajávamos de carro, meu pai e eu. No dial, enquanto zanzávamos pelas estações, caímos em "Hey Jude", bem na parte do "Na, na na, na na na na, hey Jude". Deixamos ali. Afinal, mesmo não sendo a versão original, devia ser coisa boa. Ninguém são pode destruir uma música tão bacana, não é? O "na na na" denunciava que a canção estava no fim. Mas naquela versão monstruosa, era apenas o começo. O início de uma aberração. Depois do "na na na" veio "Hey Jude, não fique assim".

Foi questão de um segundo para a mudança de estação, acompanhado de um "Ah, vá pra puta que pariu!".

Meu pai é beatlemaníaco e acho que foi uma facada no peito ouvir o Kiko Zambianchi cantando a música com letra diferente. Talvez seja como ter os ouvidos estuprados. Eu ouvi a versão completa da música depois e também não gostei. Mas não do jeito que o meu pai não gostou. Para ele, aquilo era uma afronta. Kiko Zambianchi cantar Beatles daquela maneira é um cuspe na cara. Isso me fez pensar na reação das pessoas que ouvem versões diferentes das músicas produzidas pelas bandas que amam.

Eu sou John Lennon.

Desrespeito ou tributo?

É comum ver alguém falando mal de um cover e que a música original é muito melhor – ou até elogiando o cover, mas ressaltando que a obra-prima é inigualável. Ouvimos sempre gente zangada dizendo que o contexto da música não encaixou com a nova melodia ou o novo vocal. Que a gravação foi um desrespeito e não um tributo.

É foda mesmo você assistir ao vídeo da Miley Cyrus cantando "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana, por exemplo, em uma tentativa infeliz de copiar o vocal do Kurt Cobain. Ou Robbie Williams cantando "Song 2", do Blur. Ou, bem, Celine Dion e Anastacia cantando... "You Shook Me All Night Long", do AC/DC. Bonus track: Shakira cantando "Back In Black".

Mas vale generalizar? Existem covers muito bons, mesmo que sejam em estilos totalmente diferentes das originais. Há novas versões que surgem décadas após a criação da música. Outras aparecem séculos depois.

Thiago Kiwi escreveu recentemente sobre Gil Scott-Heron, um dos precursores do rap, que morreu algum tempo atrás. Achei a música "Me And The Devil", linkada no texto, muito foda. Pelo conjunto da obra mesmo. Quis conhecer mais o contexto da letra, e vi que a versão original não é dele, e sim do Robert Johnson, músico do blues. O Eric Clapton também fez cover da música, mantendo o gênero. Gostei da original e dos covers.

Link YouTube | Sonzeira que dá gosto

Se for olhar por séculos de diferença, temos "Whiskey In The Jar", cuja versão mais conhecida é a do Metallica. Não peguei o clipe porque o YouTube pediria o login dos visitantes, já que há conteúdo “impróprio”. Gente fumando, bebendo e lésbicas se pegando... Qual é mesmo o problema?

Ela é, na verdade, uma canção folclórica irlandesa – sugere-se que tenha sido escrita no século XVII. Bandas como o Thin Lizzy gravaram a música há décadas. The Dubliners, também da terra dos criadores da canção, é provavelmente o grupo conhecido que mais se aproxima do estilo original.

Link YouTube | The Dubliners cantando Whiskey in the Jar

Às vezes as bandas até destinam um CD a covers. Por exemplo, As Dez Mais, dos Titãs, ou Plays Metallica by Four Cellos, primeiro CD do Apocalyptica.

Richard Cheese & Lounge Against The Machine

Mas o que me motivou mesmo a escrever esse texto é Richard Cheese. Ele é músico e comediante. O que ele faz? Covers de estilos bem variados, mas em estilo lounge. E não esqueçam: ele também é comediante. Então o grupo insere melodias e cantorias inusitadas nas músicas.

Exemplos: na música "Beat It", do Michael Jackson, ele coloca crianças para cantar. Na ""Welcome To The Jungle", do Guns n’ Roses, ele coloca aquela melodiazinha do Rei Leão ("Hoje a noite aqui na selva..."). E dá para dar umas boas risadas com isso, sejam as músicas vistas como tributo ou ofensa.

Link YouTube | "Chop Suey", versão Richard Cheese.

Link YouTube | "Chop Suey", versão System of a Down.

O grupo completo é chamado Richard Cheese & Lounge Against The Machine (parodiando Rage Against The Machine). Na página do artista é possível saber de toda a sua discografia (repertório bem variado).

E aí? Será que é condenável um cara retrabalhar a música, mesmo que tenha feito um bom serviço e eventualmente faça alguma alteração? Até que ponto é aceitável por parte dos ouvintes, apaixonados pelas bandas ou não, que haja covers? Qual é o requisito mínimo para retrabalhar as canções?

Aliás, todos acham o cover válido? Ou seria um jeito de viver às custas dos outros, seja gravando uma canção de outra pessoa ou fazendo bandas completamente cover de outras? Opiniões e mais covers são bem-vindos.

Os outros Beatles

Já que o Guinness considera que a música "Yesterday" é a que tem mais covers gravados (mais de 1.600 versões), reflitam um pouco com covers variados dos Beatles.

Link YouTube | Ozzy canta "In my life"

Link YouTube | Soundgarden canta "Come together"

Link YouTube | Jonas Brothers canta "Drive my car"

Link YouTube | Elvis Presley canta "Something"

Link YouTube | Sungha Jung canta "Come together"

Link YouTube | The Beats canta "Help"


publicado em 25 de Junho de 2011, 08:59
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Felipe Guerra

Jornalista, músico, fotógrafo e aspirante a professor. Já viu enchente levar tudo o que tinha em casa (menos os gatos e a mãe) e morou em seminário mesmo sendo agnóstico.


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