Você abriu as janelas da lembrança

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Foi estranho vê-la hoje, Débora.

Adorei seu cabelo. Você fica mais bonita assim, com ele curto. Seu cabelo parecia mais claro também. Talvez ele tenha tido sempre essa cor e eu nunca tenha percebido em virtude de estar sempre olhando para qualquer outra parte de seu corpo pequeno. Ou talvez por nunca ter precisado percebê-lo.

Mas dos seus olhos eu lembro.

Você abriu as janelas da lembrança

Lembro de um dia, nós dois no meu quarto. Era noite e só havia a luz do poste lá fora nos iluminando. Eu lembro sim. Seus olhos tinham um brilho doce e um movimento ora frenético, acompanhando sua respiração; ora calmo, parecendo que você ia, enfim, se render. Mas naquele dia, Débora, você não se rendeu. Hoje não deu pra ver seus olhos. Castanhos claros, eu lembro. Você ficou distante. Confesso que demorei a reconhecê-la, mas deve ter sido porque eu acabara de acordar, e meus olhos demoram muito a se acostumar com a luz, principalmente porque dormi muito mal ontem à noite.

Se você não tivesse falado comigo eu seria capaz de adormecer naquela fila, encostado à parede, mas senti o toque da sua mão no meu braço e, quando virei, vi o brilho do sol das dez horas refletindo na sua pele tão branca. Realmente demorei a reconhecê-la. Você deve ter percebido minha cara de quem tenta se lembrar de um rosto entre tantos numa memória cansada.

Mas você sorriu, Débora, e aqueles seus dentes, tão iguaizinhos e brancos, tão apaixonantes…

Mentira, eu nunca me apaixonei por você.

Mas você sorriu hoje de manhã e aí liguei sua imagem às lembranças fragmentadas que me vieram à mente naqueles poucos segundos constrangedores, representados pelo meu rosto ainda inchado da noite mal dormida. Não lembro se estendi minha mão ou se só pensei em fazer isso, mas lembro do embaraço que senti quando vi sua mãe atrás de você no momento em que eu ia perguntar pela sua filha.

Eu não sabia se era para eu saber disso. Não sabia se eu poderia participar assim da sua vida. O que eu sabia era que você estava com aquela beleza que só as recém-mães são capazes de ter. Uma beleza sóbria, meio cansada e que me fazia sentir saudades de um sentimento que eu nunca alimentara por você, Débora. Não se pode dizer… não posso dizer que senti algo por você, pela pessoa, pelo ser humano Débora, pois tudo que eu sentia era pelo corpo e imaginava o prazer que ele me proporcionava e me proporcionaria ainda. Mesmo assim senti saudade.

Eu devo ter perguntado algo como “Então, e a vida?”, e você deve ter respondido “Indo, vai indo”, e depois deve ter sorrido. Deve ter exibido os mesmo dentes que você exibia quando estava subindo as escadas do colégio e percebia que eu estava lá em cima observando você subir, tomando cuidado pra que os mais apressados não derramassem seu suco de maracujá. E você parecia tão linda daquele ângulo. Hoje eu percebo, mas naquela época meu intuito, única e exclusivamente era de perceber como seus seios pareciam bem maiores quando eu os olhava de cima. E olhando para eles, hoje de manhã…

É, eu não pude deixar de desviar meu olhar, reparei que estavam soberbamente inflados, mas trocarei o adjetivo: estavam soberbamente maternos. Você é mãe agora. Porém, mesmo assim, cretinamente, pensei: “É uma mãe que eu comeria”. Eu já estava suficientemente acordado para pensar em sexo. Principalmente com você, Débora.

— Tem visto o pessoal?

É o que se pergunta. Eu perguntaria isso se não estivesse afogado nas lembranças daquelas suas visitas, tantas lembranças…

Você abriu as janelas da lembrança

Seu rosto suado e a vermelhidão ao redor dos seus lábios por causa da minha barba por fazer é uma imagem que nunca vai se apagar da minha memória. Sua calcinha da Magali, branca, com os elásticos azuis, enxugava o suor das minhas coxas naquele vai-e-vem inútil pela natureza do seu corpo feminino, e eu mergulhava meu rosto entre seus seios para depois levar minha língua à sua boca e recomeçarmos aquela série de respirações, olhares e gemidos que pediam algo que não podíamos realizar, não naquelas duas tardes de um agosto distante.

— Não. Às vezes vejo o Elias, mas muito raramente, foi o que respondi, embora fosse mentira. Olhei para seus pés. Estavam calçados numa sandália que só uma mãe calçaria.

— Ah! Eu também me desliguei das meninas, do pessoal da igreja. Meu bebê tá tomando todo meu tempo. Quem eu vejo muito é a Lívia. Lembra dela?

— Lembro.

Olhei para sua mãe novamente, dei um sorrisinho como quem diz “Ela já vai, viu” e voltei a olhar para você. Não soube mais o que dizer, tornei a olhar para sua mãe e da minha mente emergiu aquele dia em que eu toquei a campainha da sua casa e ela veio me atender dizendo que você já vinha. Aí você surgiu com o Mingau, o gato, nos braços. Fiquei excitado só de lembrar da sua calcinha da Magali. Você vestia uma blusa e um short jeans. Dava para perceber seus mamilos marcando a blusa. Atentei para o detalhe e você disse que era porque não havia encontrado um sutiã na bagunça do seu quarto. Fiquei mais excitado ainda, e quando tentei beijá-la, você se esquivou dizendo que estava namorando alguém. Não quis acreditar e tentei beijá-la novamente, mas foi em vão. Eu não podia deixar você ir assim. Perguntei como era possível. Eu ainda podia ouviu você me dizendo, dias antes, que não tinha ido à aula porque naquela manhã finalmente eu ia poder tirar sua calcinha. Ainda podia lembrar dos seus dentes mordendo o lábio inferior, fechando os olhos pra aproveitar melhor o prazer daquelas respirações. Podia lembrar do seu All Star ferindo minhas costas no ritmo intenso do calor daquela última manhã de agosto. Lembrava também das suas costas brancas, suadas, marcadas de vermelho pela força dos meus dedos ansiosos, dos seus gemidos preocupados com o iminente orgasmo, das suas roupas espalhadas pelo chão do meu quarto. E agora você estava namorando outro cara.

Débora, eu sofri.

Mas não era aquele sofrimento de amor, de achar que não ia poder mais passear e mãos dadas sobre a grama. Era uma angústia, um desespero de saber que não podia mais me derramar em você, que não podia mais só ter você quando precisasse de sexo, porque, Débora, nem seu amigo eu queria ser, eu só queria você porque eu sabia que algo borbulhava no seu corpo e pedia pelo meu. Foi por isso que eu protestei tão veementemente contra o seu namoro.

— Bom, eu já vou indo. Minhas pernas estão tão cansadas. É o resguardo.

Por que você disse essa última frase? A Lívia me contou que você tinha engravidado do novo namorado. No momento bateu um ciúme, não porque eu queria ter um filho com você, mas porque eu fiquei imaginando quantas vezes vocês transaram até conceber, quantas vezes vocês transariam depois de concebê-lo e quantas posições novas vocês inventariam por causa do seu ventre crescido. Foi disso que eu senti ciúme, Débora.

Você abriu as janelas da lembrança

Olhei para trás e você já ia longe, com sua mãe ao lado. Fiquei irritado. Porque, se você tivesse ficado comigo, ou pelo menos tivesse continuado a ir lá em casa de vez em quando, você não estaria agora com um filho para criar, porque eu teria tomado o cuidado necessário. Eu sei que teria. Virei o rosto e deixei você ir embora, sem meu olhar abusado a acompanhá-la. Encostei-me novamente à parede e fiquei torcendo para não pensar mais em você e na sua pele branquinha salpicada aqui e acolá de sinaizinhos nos quais tantas vezes eu fixei meu olhar enquanto conversávamos, nus, naquele quarto quente e escuro, porque você pedia que eu fechasse as janelas.


publicado em 11 de Junho de 2012, 10:10
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Filipe Teixeira

Filipe Teixeira é escritor amador e ansioso profissional.


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