Você nunca saberá se está preparado

Algo me diz que você não vai beber whisky essa noite

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Ele acordou e o cheiro do café do vizinho invadia a casa. As roupas estavam passadas em cima de uma cadeira na sala porque a diarista veio ontem. A água escorreu do chuveiro, mas daquela vez ele não sentiu o choque da temperatura. Seu corpo estava anestesiado e, naquele estado transitório entre o dormindo e o acordado, já era um milagre que ele tenha reparado nas roupas e no cheiro de café.

A aparente calmaria da casa contrastava com o estado interno de sua cabeça. Nela, uma dorzinha fina ressoava. Eram reflexos das duas doses de whisky de ontem à noite, doses que vieram muito provavelmente antes de outras doses das quais ele já não se lembrava. Lembrou que precisava ir trabalhar.

Saiu do banho, se secou e vestiu uma camisa social. Abotoou. Vestiu a calça. Fechou o zíper. Calçou o sapato. Amarrou o cadarço. Colocou a gravata. Apertou o nó. Olhou no espelho. Pensou. "Hoje não vou usar gravata." Afrouxou o nó. Tirou a gravata. Guardou na mala para qualquer emergência. Olhou a hora.

Desceu de elevador até o térreo, ao contrário do que tinha prometido pra si mesmo. A barriga saliente e a calça apertada denunciavam. Precisava fazer mais exercícios, tinha que descer e subir de escada. Mas estava atrasado, deixou os exercícios para a escada do escritório. Depois que já tivesse batido o cartão. Passou pelo porteiro, acenou com a cabeça sem virar o olhar com medo da reprovação pela noite de ontem. Lembrou que talvez fosse melhor colocar óculos escuros.

Caminhou pela calçada. Virou a esquina. Desceu a ladeira. Parou no semáforo de três fases que demorava uma eternidade para abrir pros pedestres. Olhou em volta. Viu duas senhoras conversando, um homem fumando, uma criança correndo, um morador de rua pedindo esmolas, um executivo falando que não tinha dinheiro, uma senhora derrubando a sacola de frutas no chão, uma criança correndo atrás da outra criança.

Passaram por trás dele, riram e ele se distraiu. Piscou. Quando retomou a atenção um dos meninos tinham passado por ele e já estava no meio da rua. Faixa de pedestres. Semáforo aberto. Um ônibus vindo. Nessa exata hora você nunca sabe se está preparado.

Correu pro meio da rua, deixando cair os óculos escuros. A pasta ficou na calçada mesmo. Pela visão periférica, viu as pessoas em volta estáticas, boquiabertas. Chegou até o meio da rua e o ônibus estava mais perto do que tinha calculado, empurrou a criança pra longe e o menino caiu sentado no canteiro central.

Lembrou daquilo como se aquele momento tivesse demorado horas, mas tudo não passou de uma fração de segundos. Criança, calçada, rua, semáforo, ônibus, corrida, empurrão, escuridão.

Pensou consigo mesmo orgulhoso:

- Vou poder chegar atrasado no escritório porque tenho uma boa desculpa: salvei uma criança.

- Vou poder encarar o porteiro de frente de novo porque tenho uma boa desculpa: sou um herói.

- Vou poder subir de elevador porque a adrenalina já teve ter me feito perder muitas calorias.

- Vou poder beber hoje a noite de novo porque o dia já foi muito intenso.

Estava errado. Não chegaria atrasado no trabalho, já tinha chegado. Não encararia o porteiro novamente, ninguém podia mais vê-lo. Não subiria de elevador nem de escadas. Não beberia essa noite.

***

Foto da pena de Angelo Musk, na exposição "As Aves."


publicado em 09 de Março de 2016, 12:03
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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