Vontade de ser enganada (um conto a la Nelson Rodrigues)

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Beatriz era um anjo. Com dezessete anos ninguém nunca soubera que já tivesse namorado. Vivia para a casa e os estudos. Era pra casar, como diziam as tias mais carolas.

Acontece que em contraste ao seu perfil cândido, só se interessavam por ela os tipos mais ordinários, dentre os quais se destacavam os casados, que, sem nenhum pudor em esconder seu estado civil, propunham a ela as aventuras mais inconfessáveis. Escandalizada, Beatriz os rechaçava e em síntese impetuosa declarava às colegas:

– Homem nenhum presta!

Até que um dia no corredor da faculdade conheceu Praxedes, rapaz sério, estudioso, reconhecido por seus feitos acadêmicos. Passaram uma semana trocando olhares até que finalmente combinaram se encontrar numa lanchonete.

Beatriz foi um brinco para o encontro, carregando nos olhos o brilho da esperança de ter encontrado um rapaz direito. Quando chegou, Praxedes já a esperava, as mãos pousadas sobre a mesa, uma sobre a outra. Mal ela sentou, o rapaz começa:

– Preciso te contar uma coisa.

– O quê?

– Eu gosto de ti.

Beatriz aliviada com as palavras, suspirou.

Mas sou casado.

Atônita com a revelação, confirmada quando o rapaz levantou as mãos e mostrou a aliança, conseguiu apenas dizer:

–Você também...?

– Pois é.

Mas a despeito dos seus estudos, Praxedes era como os outros e começou a ladainha para conquistar a pequena. Dizia que aquilo era apenas um detalhe, que o importante era o amor e que nada ia os impedir de ficar juntos. Desfiou, enfim, toda a cartilha que convém a um canalha. Beatriz, porém, apenas balançava a cabeça, irredutível:

– Não. Assim não dá. Assim não quero.

Praxedes insistia:

– Pense pelo lado bom, pelo menos eu não estou mentindo pra você. Nosso amor vai ser construído com a verdade.

Ao que ele completava suas palavras, Beatriz foi tomada por um acesso de fúria. Um sentimento profundo, reprimido, veio à tona naquele momento. Incontrolada, começou a esbravejar:

– Então é assim, não é? Pra mim, ninguém nunca mente! Pra mim, todos dizem a verdade! Pois eu quero que você minta pra mim. Só a mulher amada é enganada! Só a mulher amada é protegida com a mentira pelo seu homem, pra que não sofra com suas verdades. Pois eu quero que você minta pra mim! Só assim você vai provar que me ama.

Praxedes, sem reação, sentiu apenas Beatriz se lançar ofegante em seus braços, balbuciando entre beijos:

– Minta pra mim, meu amor. Minta pra mim.

Já leu Nelson Rodrigues?

No próximo dia 21 de dezembro fará 30 anos que o mestre da dramaturgia Nelson Rodrigues nos deixou. Verdadeiro mestre saco-roxo, suas histórias nos ensinaram a enxergar o que existe por trás da canalhice, da safadeza, da traição.

Prestei, humildemente, minha homenagem a este grande escritor, pegando de empréstimo seu estilo para escrever um conto sobre verdades e mentiras.

Se você quiser conhecer a obra de Nelson Rodrigues e entender porque ele é o "anjo pornográfico", eu aconselho começar por A vida como ela é, da editora Agir, e pelo DVD homônimo com as as melhores histórias do livro interpretadas por Malu Mader, Cláudia Abreu, Gabriela Duarte e Maitê Proença.


publicado em 14 de Novembro de 2010, 04:31
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Julius François

Professor de português por formação. Redator publicitário por profissão. Leitor voraz de histórias de sacanagem. Pretende doutorar-ser em Literatura da putaria.


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