Xamanismo, magia e arte na paisagem mental de Alan Moore

Alan Moore é famoso por suas obras em quadrinhos, graphic novels premiadíssimas e influentes, que impactam não só a dimensão da arte de um modo geral, mas a própria sociedade – a exemplo da influência de V de Vingança nos recentes ataques virtuais do grupo Anonymous.

Ele é responsável por obras poderosíssimas como Watchmen, Batman: A Piada Mortal, A Liga Extraordinária e From Hell, algumas já adaptadas para filmes excelentes (na minha humilde visão), ainda que o autor deteste todos, alegando que são rasteiros. Batman: A Piada Mortal, por exemplo, serviu de base para o Coringa de Heath Ledger no filme Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Mas Alan Moore também é conhecido por outros motivos, ainda que pra sacar isso precisemos prestar um pouco mais de atenção. Aos quarenta anos, ele se proclamou um mago, um xamã, estudioso e praticante da Arte – assim, com inicial maiúscula, como as práticas mágicas eram chamadas originalmente. E tudo indica que ele tem exercido bem também esta profissão. Coisa que combina muito bem com sua famosa aversão por aparecer em público e essas coisas de celebridade, aliás.

Por essas e outras razões, ter a oportunidade de ouvi-lo falando é algo bastante raro, coisa que foi capturada neste documentário bem obscuro de Dez Vylenz e Moritz Winkler, lançado em 2005.

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Transcrevi algumas citações fodas do vídeo, para aqueles que, por acaso, estiverem pensando em não ver.

Trabalho e salto

"Deixar o meu trabalho e começar minha carreira como escritor foi um tremendo risco. Aquilo foi como um salto do precipício, um tiro no escuro. Mas qualquer coisa que tem valor nas nossas vidas – seja uma carreira, uma obra de arte, uma relação – começará sempre como num salto desses. E para estar capacitado a dá-lo, você tem que deixar de lado o medo de cair e o desejo de obter êxito. Tem que fazer essas coisas completamente puras, sem medo, sem desejo. Por que as coisas que fazemos sem luxúria ou ambições são as mais puras ações que podemos fazer."

Magia como arte (e o uso publicitário do xamanismo)

"Em meu quadragésimo aniversário, em vez de aborrecer meus amigos com algo tão mundano como uma crise da meia idade, eu decidi que seria muito mais interessante aterrorizá-los ficando totalmente louco me autoproclamando um mago. Isto era algo que vinha se desenvolvendo há algum tempo e que parecia ser um passo lógico na minha carreira de escritor.
O problema é que com a magia – que é em muitos aspectos uma ciência da linguagem – você tem de ser muito cuidadoso com o que diz. Porque se repentinamente declara a si mesmo como um mago, sem ter o conhecimento que isto implica, é provável que um dia você desperte e descubra que isso é exatamente o que você é.
Existe alguma confusão a respeito do que a magia é realmente. Penso que isto pode ser elucidado se você apenas olhar as mais velhas descrições de magia. Magia na sua forma mais antiga é referida como "A Arte". Creio que isto seja completamente literal. Creio que a magia é arte, e que essa arte – seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma – é literalmente magia.
A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens para operar mudanças de consciência. A verdadeira linguagem da magia trata tanto da escrita como de arte e também sobre efeitos sobrenaturais. Um grimório, por exemplo, um livro de feitiços, é um modo extravagante de falar de gramática. Conjurar um encantamento é somente encantar, manipular palavras para mudar a consciência das pessoas.
Eu acredito que um artista ou escritor são o mais perto que você poderia chamar de um xamã no mundo contemporâneo. Creio que toda cultura deve ter surgido de um culto. Originalmente, todas as facetas de nossa cultura, sejam as ciências ou as artes, eram territórios dos xamãs. O fato, nos dias atuais, é que este poder mágico se degenerou ao nível de entretenimento barato e manipulação. É, eu penso, uma tragédia.
Atualmente, quem usa o xamanismo e a magia para dar forma à nossa cultura são publicitários. Em lugar de despertar as pessoas, o xamanismo é usado como um opiáceo, para tranquilizar as pessoas, para fazê-las mais manipuláveis. A sua caixa mágica da televisão, como suas palavras mágicas, seus slogans, pode fazer com que todos no país pensem nas mesmas palavras e tenham os mesmos pensamentos banais exatamente no mesmo momento."

O escritor-xamã na década de 70 segurando um de seus enteógenos

O poder das palavras

"Um mago pode te amaldiçoar, coisa que poderia fazer com que tuas mãos movessem-se graciosamente ou poderia ter um filho com um pé de pau. Um bardo não te amaldiçoaria, faria uma sátira, coisa que poderia te destruir. Se fosse uma sátira brilhante, não te destruiria apenas aos olhos dos teus sócios, te detruiria ante aos olhos de tua própria família e te destruiria ante teus próprios olhos. E se fosse uma sátira finamente elaborada e muito astuta, o bastante para sobreviver e ser recordada durante décadas, inclusive por séculos, então anos depois de tua morte, as pessoas a leriam e ririam de ti, de tua ruína e do teu absurdo.
Os escritores e as pessoas que podiam controlar as palavras eram respeitados e temidos como gente que manipulava a magia.
Nos últimos tempos, creio que os artistas e escritores têm permitido serem vendidos, sendo levados pela maré. Aceitaram a crença dominante de que a arte e a escrita são apenas formas de entretenimento. Não são vistas como forças transformadoras que podem mudar um ser humano e uma sociedade. São vistas simplesmente como entretenimento, coisas com as quais podemos ocupar 20 minutos ou meia hora enquanto esperamos para morrer.
Não é o trabalho do artista dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que precisa, eles não seriam o público, eles seriam o artista. É o trabalho do artista dar ao público o que ele precisa."

Mente, exploração e tradições espirituais

"Como seres humanos, habitamos dois mundos distintos e separados, duas paisagens. Habitamos o mundo físico, mas ao mesmo tempo sendo que nós só podemos experimentar verdadeiramente nossa percepção desse mundo, parece que na realidade nós mais vivemos em um mundo puro de consciência e ideias. E me supreende os territórios que devem existir neste espaço mental que devem ser compostos inteiramente de ideias e conceitos. Em lugar de ilhas e continentes devem existir grandes sistemas de crenças e filosofias. O marxismo pode ser uma ilha. As religiões judaico-cristãs podem constituir outras terras ou continentes.
As mentes humanas interagem, embora debilmente, de formas limitadas, com o espaço-ideia a cada momento do dia apenas para levar adiante nossas vidas. Se quer realmente ideias únicas, se é um artista ou inventor ou alguém que trabalha com ideias únicas e novas, deverá submergir diretamente nos subterrâneos, na profundidade do espaço-ideia para encontrar essas ideias que nunca foram pensadas antes.
Se assumirmos que o espaço-ideia ou algo assim existe, então podemos decidir que queremos explorar esse espaço. Seja por razões artísticas ou talvez por razões científicas ou talvez como magos, ocultistas. Agora, se estamos por nos aventurar neste território hipotético e mais ou menos desconhecido, parece sensato traçar mapas com as rotas feitas pelos exploradores anteriores. Agora, quando se fala em território da mente, e talvez do espírito, os únicos mapas disponíveis são os sistemas mágicos da antiguidade. Você está falando de sistemas como a Cabala, com seu mapa de qualquer estado humano concebível. Fala de sistemas como o tarot, um panteão de imagens arquetípicas que provêm a cartografia para um mapa da condição humana."

publicado em 10 de Março de 2012, 11:13
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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