As Doenças como fator de sobrevivência

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Um dos capítulos mais interessantes da evolução humana foi abordado recentemente no interessantíssimo livro A sobrevivência dos mais doentes, de Sharon Moalem e Jonathan Price.

Em tese deletérias, algumas doenças foram úteis aos seres humanos, quando estes foram submetidos a determinada pressão ambiental. Por alguns mecanismos que exponho nesse texto, os portadores de algumas doenças acabaram obtendo vantagem em relação aos indivíduos sãos, e através da seleção natural, perpetuaram uma genética defeituosa. Algo fascinante, como veremos à seguir.

Um modelo simples de seleção natural: um grupo de bactérias exposta a determinado antibiótico.

O antibiótico mata as bactérias sensíveis a ele, porém, pode existir uma bacteriazinha miserável que tenha resistência. Ela sobrevive e se reproduz, gerando uma nova população que será resistente àquele antibiótico, agora inútil. A pressão exercida sobre aquele grupo selecionou as bactérias resistentes, e agora, essa característica foi perpetuada na espécie.

Sendo assim, vamos ao que aconteceu com os humanos, em três exemplos retirados do livro:

Caso 1, a hemocromatose

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Hemocromatose é uma doença genética que altera o metabolismo do ferro no organismo. Quando a quantidade de ferro é suficiente, o organismo deixa de absorver o ferro ingerido na dieta. Essa capacidade de regulação da absorção de ferro é perdida, e o organismo absorve ferro de forma ilimitada, levando ao acúmulo e às conseqüências disso, que são lesões articulares, insuficiência renal e cardíaca, artrite, infertilidade e doenças psiquiátricas.

Doença autossômica recessiva, ou seja, você precisa ter os dois genes para manifestar a doença. A presença de pelo menos um gene da hemocromatose é muito comum em pessoas de descendência da Europa Ocidental. E por que uma doença tão letal permaneceria em nosso código genético?

Para obtermos a resposta, é necessário entender o papel do ferro. Praticamente todas as formas de vida necessitam de ferro As bactérias não são diferentes, se aproveitam do sangue e tecidos humanos, fontes riquíssimas de ferro. Coloque uma fonte de ferro numa placa de Petri com bactérias e um antibiótico, e consegue-se até neutralizar o efeito dele. Então naturalmente a conclusão é, uma infecção no paciente com hemocromatose tende a ser mais letal. Elaboremos mais.

Nosso organismo tenta limitar o ferro exposto a agentes invasores. Mas no paciente com hemocromatose, a nossa primeira linha de células de defesa, os macrófagos, tem pouquíssimo ferro, ao contrário da pessoa normal. Nesta, os macrófagos tem alta disponibilidade de ferro, e ao chegarem aos gânglios linfáticos, as bactérias podem estar armadas e perigosas, disseminando a infecção. Com pouco ferro, o macrófago isola a bactéria e a mantém “com fome”, aumentando a resistência à infecção.

A nossa vantagem:

Agora vamos encaixar as peças desse quebra-cabeça.


  • Seleção natural,

  • Europa Ocidental,

  • hemocromatose,

  • disseminação pelo sistema linfático,

  • resistência a infecção.

O elo que uniu esses fatores foi a Peste Negra, que assolou a Europa em 1347 e matou mais de 25 milhões de pessoas. O pior surto de peste bubônica já registrado dizimou a Europa, mas pelos motivos acima alinhavados, os portadores da mutação da hemocromatose eram mais resistentes à infecção. Sobrevivendo, transmitiram a mutação a seus descendentes, aumentando a prevalência desse gene defeituoso. Assim, a doença foi vantajosa para a espécie humana.

Caso 2, o Diabetes

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O diabetes é uma doença do metabolismo da glicose. Os níveis desta aumentam consideravelmente no sangue. O aumento da concentração de glicose sanguínea “puxa” água junto, e isto se reflete num dos principais sintomas que é urinar frequentemente, levando a certo grau de desidratação.

Existem dois tipos de diabetes, ambos com propensão genética clara. O tipo 2 está associado a hábitos alimentares, sendo 85% dos pacientes obesos, e a sua prevalência é homogênea através do mundo. Já o tipo 1 é causado por deficiência do hormônio que regula o metabolismo da glicose, a insulina. Este tipo apresenta uma prevalência muito maior nas populações do norte da Europa. À medida que descemos para o sul, a prevalência cai.

Falemos da reação do organismo humano ao congelamento. Urinamos mais em clima frio, pois nossos vasos da pele se contraem, aumentando o fluxo sanguíneo para os rins, o que aumenta a diurese. O congelamento também gera cristais de água, que lesam os capilares, daí o dano às extremidades do organismo. Os alpinistas sabem bem disso, é comum eles terem dedos amputados.

Certa feita, um produtor de vinhos descobriu que utilizando uvas congeladas, obtinha um vinho mais doce. As uvas também reagem ao congelamento. Eliminam água e... aumentam a taxa de glicose.

Uma espécie de rã tem a capacidade de se congelar durante o inverno, e a despeito dos efeitos danosos do congelamento nos seres vivos, tal qual um milagre, descongelam-se e saem vivinhas da silva. Cientistas descobriram que ao se congelarem, as rãs eliminam a água e... aumentam drasticamente sua taxa de glicose.

Uvas e rãs... Uma explicação plausível é o fato de um líquido com concentração maior de glicose tem o seu ponto de congelamento reduzido. Menos água maximiza a concentração da glicose e diminui a quantidade disponível para formar cristais. Digam-me o nome de uma doença que cursa com eliminação de água e aumento de glicose...

A nossa vantagem:

Não que explique totalmente, mas a tese é que o diabetes conferiu uma vantagem contra o congelamento nos habitantes do Norte da Europa durante a Era Glacial. Isso bate com o fato de os diabéticos serem mais comumente diagnosticados durante épocas frias.

Uma doença deletéria nos dias de hoje, pode muito bem ter sido vantajosa para o ser humano na Era Glacial. E as evidências apontam para tal.

Caso 3, Anemia falciforme

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A anemia falciforme é uma doença comum em negros. Caracteriza-se por uma alteração genética da hemoglobina, que em condições de pouco oxigênio, modifica o formato das hemácias, fazendo-nas ficar em forma de foice. Isso predispõe o paciente a efeitos trombóticos. Normalmente, um paciente com anemia falciforme tem uma sobrevida média de 40 e poucos anos, apenas.

As hemácias disformes são destruídas com mais rapidez pelo organismo. E aqui entra um belo exemplo de pressão evolutiva na espécie humana. Me refiro à malária, doença causada por protozoários do tipo Plasmodium. O Plasmodium vive em mosquitos, que ao picar o homem, o infectam. Então, o parasita vai invadir justamente as hemácias, onde se multiplica e acaba destruindo a célula, causando anemia hemolítica. Malária é uma causa de mortalidade importante nas áreas onde é endêmica, especialmente na África.

A nossa vantagem:

Porém, em pacientes com anemia falciforme (ou mesmo o traço falcêmico, pois a doença é recessiva), como essas células são destruídas mais rapidamente, o Plasmodium não tem tempo para completar seu ciclo e se reproduzir.

Logo, a presença de um traço ou da doença em si na genética do indivíduo, confere uma resistência maior à malária, o que seleciona esse traço genético para propagação às gerações seguintes. Como a doença é endêmica na África subsaariana, isso explica parcialmente a maior incidência em negros.

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A evolução é fantástica, não?


publicado em 12 de Abril de 2009, 19:53
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.

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