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[18+] Bom Dia, Vika Flôr

Vika foi fotografado pela Fernanda Líder para o projeto Nu Encontro

Nota editorial: estamos em busca de Bom dias com homens e com mais diversidade de corpos e peles — aqui explicamos em mais detalhes o contexto atual da série, suas origens, obstáculos e nossa visão de futuro para ela. Se você é fotógrafo(a) ou tem um ensaio que deseja publicar, fale conosco pelo jader@papodehomem.com.br .

* * *

Tracei um bom caminho até entender que meu corpo não é e nunca foi um tipo de adereço. Mas todo dia sou apedrejado com uma série de conceitos que tentam justificar minha forma: corpo e pensamento.

"Mas então o que você é?"

O que, o que... não quem. Quem eu sou? Bom, eu costumo fazer xixi sentadx, mas minha identidade também corre como líquido.

Encarar gente do muro, como pecinhas de lego que se encaixam, pode te fazer sentir um outsider de carterinha. Do muro eu via gente dançando e se divertindo. Vivendo. Isso era lindo. Era solitário. Então, aos poucos tô aprendendo a colocar os pés na dança, bem, aos poucos né.

 

 

Já admito que o tempo disfarçado em memórias é o que estimula minhas crises.

Se a minha mãe grita, eu fingo que não escuto. Mas se ela tá quieta, o silêncio enfia o dedo inteiro no meu peito. E só arde se... Eu permito! Eu gostaria de voltar pro útero e faria um contrapasso das nossas batidas cardíacas.

Aliás por que você, que não sabe o que eu sou, não me permite divagar sobre outras ideias que redesenham meu corpo? Eu me fodi achando que não iria receber uma resposta didática quando perguntei

"O que é ser mulher?"

"É ter uma vagina."

Senti medo de rasgar minha virilha de ponta a ponta e acabar reinventando mais um buraco sem sentido em mim. Não tô com bolas suficiente pra me sentir insatisfeito... Não estou com a bola toda pra isso.

Tento me acostumar com a oscilação desesperada de humor  e com a psoríase. Tenho um pouco perto do umbigo e muito nó na cabeça, mas a psoríase não afeta à ninguém.

Adoro poder me (re)encontrar. Olhar no espelho e me enxergar! Independente do que eu esteja observando, vejo que tem um símbolo muito bonito na pupila ultra dilatada: sou eu.

Nesse instante o "o que" não importa. A alergia não coça e o olho não lacrimeja. O Zeus late e parece que ele sempre sabe o que tá acontecendo. Quando ele me vê triste, ele me cheira.

Já teve a vontade de voltar pra barriga da sua mãe? Você sabe como o seu coração bate quando ouve o dela? O único lugar pra onde eu realmente fugiria seria lá: os sábios e santos ficariam chok-dissims quando me vissem regressando para a bolsa e então, reenvolto por aquele líquido abrasador, eu repousaria. Eu permaneceria naquele silêncio macio com o eco profundo do externo. Claro que se fosse possível, só aconteceria se fosse permitido. Não por santos ou sábios... Pela minha mãe, troxa!

Quanta coisa eu desabei pra chegar até aqui. Quanta gente passeou por esse corpo. Quanta coisa levaram? Quanto deixaram? Tudo agora é fruto desta loucura que eu encontro todos os dias.

Talvez a minha nudez seja a mesma que a de outras pessoas. Talvez dividimos algumas cicatrizes ou várias. Mas mesmo ainda vulneráveis quando pelados, diante um do outro, a gente não se conheceria melhor...

Já tentei abrigar em meu corpo várias bandeiras, mas pirei. Eu não sei se quero viver sob vários símbolos. Um respiro de cada vez, senão dói. O que enche demais faz eu me perder mais ainda, e não no bom sentido da imagem. Logo, eu procuro me permitir a cada dia pra que minhas vontades reflitam minha forma, única apesar.

Cada reflexo me diz uma coisa.

E eu não faço questão de que me compreendam, já que não podem me proteger das minhas memórias.

Também quis parar de decifrar outros corpos, porém o caos investe na sensibilidade e eu me pego guardando as memórias de outros como se fossem minhas, afinal, sou de água com ascendência em desespero e fobia de tudo que prende e esnoba.

É magnífico, por vezes solitário, assumir o que sê é. É preciso coragem nessa hora, mas também ética para não cair na armadilha do ego e sororidade pra vencer a solidão.

Hoje eu sei que o nojo que você sente da minha forma, ou dos meus desejos, é de responsabilidade sua. Eu não peço palma ou vaia - dedo na minha cara eu quebro como se fossem paradigmas - pois, mesmo com suas crises, meu corpo é maravilhoso desde que (re)nasci.

Ufa!!!

A cada dia.

As fotos são da Fernanda Líder, do projeto Nu Encontro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Boa semana a todos.


publicado em 23 de Janeiro de 2017, 00:00
Bio jpg

Vika Flôr

É Vicentina e Maria. É Flôr. Preta, 22 anos, trans e periférica, natural de Barra Mansa. Mudou-se para a capital-RJ há dois anos e estuda Licenciatura em Teatro na Unirio. Alenta-se de utopias, corpo-político, metáforas transgressoras e possibilidades.


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