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21 verdades inconvenientes sobre viajar pelo mundo

Porque nem tudo são flores e praias e montanhas e cenários lindos e comidas perfeitas

Tenho 24 anos e já morei em dois países estrangeiros. Também já viajei sozinho durante 5 meses pela Europa, passando por 8 países diferentes e tendo como abrigo, na maioria das vezes, casas de totais desconhecidos ou praças.

E mesmo assim não acho que essa experiência tenha “mudado minha vida”.

Meu desejo em viajar despertou muito cedo, quando eu tinha apenas 8 anos. Eu assistia praticamente todos os programas de TV sobre viagem, daqueles que o(a) repórter viajava por um país especifico e contava tudo o que tinha de diferente para se ver e fazer.

Meus olhos brilhavam. Desde então, eu tive a ideia de que, se eu viajasse para um país diferente, eu teria uma experiência quase sobrenatural em que experimentaria coisas que mudariam totalmente minha forma de pensar e encarar o mundo.

Mas não. Depois de ter viajado por tanto tempo, eu não acho que isso tenha sido algo tão importante assim. Se foi, não percebi.

A verdade é que o João vai continuar sempre sendo o João, mesmo depois de viajar 18 horas e colocar os pés na India. Ele sentirá fome, tédio, saudade, raiva e tudo isso da mesma forma que sentia quando estava aqui no Brasil. Não existe mágica, apenas o fato de estar em outro país não torna a experiência maravilhosa como muitas pessoas imaginam.

Trago-lhes algumas reflexões que eu tive durante todas as minhas viagens. Espero que não desencoraje a viajar pelo mundo, mas sim que te prepare melhor emocionalmente caso um dia se encontre em nessa situação.

1. Você vai ficar puto, cansado e de saco cheio

Você vai ficar cansado de esperar ônibus, avião, metrô e qualquer outro meio de transporte. Chegará no hostel morrendo de sono e não conseguirá dormir porque pessoas não usam hostels para dormir, e sim para fazer festa.

Principalmente quando você não fala a língua local, é comum se perder algumas vezes e acabar se estressando por não conseguir ajuda. Em Bruxelas, eu rodei a cidade inteira tentando achar o hostel e, no final das contas, tive que pagar um taxi de tão exausto que estava.

2. Tudo fica muito mais bonito em foto

O Taj Mahal
O entorno do Taj Mahal

A Torre Eiffel não é tão alta quanto parece naquela foto da sua amiga no Facebook e só durante alguns meses do ano os arredores dela ficam verdinhos e cheios de flores, como vemos na maioria das fotos.

Em vez de sentar e observar o horizonte como sempre sonhou, você vai ficar em pé porque provavelmente não vai achar um centímetro quadrado livre e, de 5 em 5 minutos, um bêbado vai vir te encher o saco. 

Sim, eles também existem por lá.

3. As pessoas não são tão diferentes assim

Tribo Asaro (Papua-Nova Guiné)

Obs: leia o artigo "Antes que eles deixem de existir: 29 tribos e culturas que resistem aos nossos tempos".

Em qualquer lugar que você vá, achará gente com iPhone, camisa da Nike e tomando Coca-Cola. Não estou dizendo que não existem pessoas diferentes, mas não adianta criar um mundo na sua cabeça onde indígenas passam montados em elefantes porque isso não vai acontecer.

É claro que existem os locais mais afastados dos grandes centros urbanos, onde a globalização ainda não chegou com tanta força. Mas sejamos sinceros, isso está cada vez mais raro de acontecer e só se encontra se procurar com mais afinco.

4. Viajar é mais caro do que você imagina

Sabe todos esses textos que você leu do tipo “100 maneiras de viajar de graça”? Então, é muito mais difícil do que parece. Conseguir um emprego quando não se tem todos os documentos necessários é difícil.

Além disso, se você conseguir uns bicos, há uma grande chance de ser explorado(a) e não aproveitar a viagem. Então é bom ir juntando o troco do ônibus e tirar o escorpião do bolso na hora de viajar se você realmente quiser aproveitar a viagem.

5. Você vai sentir tédio a maior parte do tempo

Vinte e quatro horas é tempo para caralho. Por mais que você faça amigos e visite o máximo de lugares possíveis, cedo ou tarde você vai se encontrar num hostel obscuro, na parte inferior de uma beliche, mexendo no Facebook e vendo vídeos de gatos, tomando susto no YouTube.

É claro que viajar sem compromisso é uma experiência fantástica. Mas depois de 5 meses acordando todos os dias sem saber o que fazer, posso garantir que você vai sentir bastante tédio (a não ser que já esteja acostumado a ficar à toa em casa) e sentirá vontade de se engajar em algo. 

Trabalhos voluntários são ótimas alternativas para quando isso acontecer.

6. Você nunca vai estar totalmente satisfeito

Sempre vai ter um lugar que você quer conhecer. 

E quando chegar lá, já vai estar pensando no próximo lugar. E assim criará um ciclo vicioso em que você nunca estará satisfeito onde está, imaginando que o próximo “vai ser foda”.

7. Você quase sempre será “o turista”

Sabe aquela cena clássica do viajante que chega no vilarejo e todo mundo vem chegando perto cheios de curiosidade e fascínio? Isso não existe mais.

Hoje em dia todos os lugares que você possa imaginar está preparado para o turismo e por isso você sempre será o turista cuja função é simplesmente gastar dinheiro com a economia local.

Lembro que uma vez me “barraram” em Belgrado quando eu tentava explorar uma área mais isolada da cidade. Mesmo depois de explicar para o rapaz que eu não estava procurando nada específico, ele insistia em apontar para uma direção e dizer para eu ir por aquele outro lado.

Na hora eu não entendi muito bem, mas mais tarde eu descobri que era comum algumas pessoas não deixarem os turistas entrarem em certos bairros para não expor a “parte pobre” da cidade.

8. O mundo é grande pra caralho

Creio que a pessoa que criou a máxima “quando você viaja o mundo se torna pequeno” era extremamente rico para só viajar de avião. O mundo não é pequeno, e sim muito maior do que você possa imaginar.

Tente chegar na cidade mais próxima da sua andando, ou cruzar a fronteira do seu estado só na carona. Depois olhe o percurso que você custou a percorrer no Google Earth e então entenderá o que eu quero dizer.

9. O mundo não gira a sua volta

Quando viajamos, temos a impressão de que todo o mundo que encontramos pelo o caminho existe simplesmente para nos dar suporte e serem nossas amigas. Além de ser uma atitude egoísta, é uma grande ilusão.

As pessoas que você vai encontrar pelo caminho possuem empregos, rotinas, familiares, namorados e milhares de outras obrigações que não podem simplesmente ser deixadas de lado só por sua causa.

Uma vez que você entende isso, fica mais fácil aproveitar os momentos que você passa com elas e também a se sentir menos solitário quando elas estiverem ocupadas.

10. Quando você viaja, se torna outra pessoa

É engraçado como as pessoas vestem uma máscara quando estão viajando. Tudo o que você não faria no cotidiano se torna totalmente aceitável e justificável como “faz parte da aventura”.

Não estou dizendo que é errado, mas é importante entender que isso acontece para não se frustrar quando conhecer alguém fantástico no meio do caminho e perceber que ela não passa de uma pessoa normal na vida cotidiana.

11. Esqueça as amizades duradouras

Como disse no item anterior, as pessoas não são completamente elas mesmas quando estão viajando. Por isso, não se iluda achando que todo mundo é aventureiro, “cabeça aberta” e bem humorado, porque não é bem assim.

Também é importante não deixar a solidão falar mais alto e se apegar às pessoas incríveis que você pode encontrar no caminho. Lembre-se que seu objetivo é explorar e se divertir o máximo possível, e não criar âncoras em todo lugar que passar.

Pessoas queridas em casa podem se tornar um pé no saco durante uma viagem, limitando sua liberdade e criando problemas onde não existe.

12. Nem todo o mundo fala inglês

Apesar de saber falar inglês ser fundamental para ter uma viagem mais prazeirosa, é importante entender que nem todo o mundo fala inglês lá fora.

Não quer dizer que você tenha que ser fluente em todos idiomas que encontrar pelo caminho, mas saber o básico pode ser bem útil quando precisar pedir ajuda, além de mostrar às pessoas do local que você se importa com a cultura e não está lá apenas para “fazer zona” no país deles.

13. Dificilmente você terá um contato profundo com a cultura estrangeira

Como disse anteriormente, você sempre será “o turista” e, portanto, as pessoas locais vão esperar que você gaste dinheiro com eles. Mesmo passando bom tempo em um lugar, meses talvez, é difícil em uma viagem se ter um contato profundo com a cultura de um povo.

Você vai observar muito, poderá experimentar bastante da cultura de um lugar, mas ainda há um abismo entre degustar e absorver tudo aquilo com pleno entendimento.

E não há nada de errado nisso.

14. Você não é a primeira pessoa a fazer isso!

James Cook, o explorador

É comum as pessoas se sentirem especais quando partem para uma viagem longa, como um mochilão.

Viajar por muito tempo por conta própria é um pouco incomum entre os jovens no Brasil, mas lá fora (principalmente na Europa) não é raro encontrar pessoas de 18 a 25 anos que já passaram por quase todos os países da Europa e Ásia.

Muitos deles fazem isso após terminar o ensino médio e antes de entrar para a faculdade, na maioria das vezes bancados pelos pais e familiares.

Por isso, seja humilde e entenda que você não é o novo James Cook do século XXI.

15. Você precisa seguir as regras

Avisos em Londres para olhar na mão certa que, lá, é oposta a nossa

Apesar de todo o entusiasmo que uma viajem pode te despertar, é preciso entender que existem pessoas que moram e trabalham todos os dias nos lugares que você vai visitar.

Nada me entristece mais do que ver turistas sujando os lugares públicos ou fazendo barulho nas ruas durante a madrugada. Só porque você não tem que acordar cedo amanhã não te dá o direito de atrapalhar o sono das outras pessoas.

Em Hamburgo, por exemplo, as pessoas não atravessam a rua se o sinal estiver verde para elas e nem sonham e atravessar fora da faixa. Para nós, pode parecer ingenuidade deles, mas lá se preza muito pela ordem pública e eles se sentem realmente incomodados quando veem alguém desrespeitando as leis, podendo até te chamar a atenção, como aconteceu comigo duas vezes.

16. Você é o que você consome

Tudo é lindo quando se tem dinheiro para gastar nos restaurantes locais e comprar lembrancinhas nas lojas de souvenir. Mas experimente chegar em uma cidade só com uma mochila cheia de roupas e sem dinheiro nenhum que você perceberá um tratamento totalmente diferente.

Muitas pessoas esperam que você gaste dinheiro com elas e, se isso não acontece, elas te verão apenas como mais uma pessoa “usando” os serviços e espaços daquele lugar.

17. Você perceberá o quanto seus amigos são fodas

Nunca dei muito o devido valor aos meus amigos quando estava no Brasil. Achava que as pessoas lá fora eram muito mais legais e interessantes, coisa fresca e nova para aprender. Até que a saudade bateu.

Viajando, aprendi que mesmo lá fora a maioria das pessoas podem ser chatas e entediantes, sem muita coisa para compartilhar, como um cotidiano em sua terra natal.

Damos muito valor ao o que vemos no YouTube e na televisão achando que aquilo representa a realidade e esquecemos de toda a riqueza que temos a nossa volta.

18. O Brasil ainda tem muito o que melhorar

Shinkansen, o trem-bala japonês

Obviamente não é preciso viajar para perceber isso, mas uma vez que você está lá fora e tem contato com cidades extremamente desenvolvidas, dá um aperto no peito ao lembrar de nossa terrinha.

Você volta com a impressão de que tudo pode melhorar um pouco. Tudo poderia ser mais fácil, simples, honesto.

19. Existem muito mais pessoas dispostas a ajudar do que atrapalhar

"Oh, right there, sir"

Antes de sair do Brasil, sempre tive a impressão que, ao viajar, deveria estar sempre atento com as pessoas estrangeiras.

O sentimento de que poderia ser passado para trás (principalmente por não falar inglês fluentemente na época) me fazia estar sempre em uma posição defensiva e desconfiada com todas as pessoas a minha volta.

Felizmente essa impressão mudou quando comecei a viajar. A maioria das pessoas que eu encontrei estavam dispostas e foram raras as que se recusaram. Você só precisa sair da posição defensiva e aceitar a ajuda com humildade, sem achar que tem que dar algo em troca.

20. Adoecer em qualquer país estrangeiro não é uma experiência muito agradável

Se passar mal em casa já é um atraso de vida, imagina em um país estrangeiro onde talvez você nem consiga se comunicar ou uma consulta com o médico custe uma fortuna?

Aconteceu comigo no início e eu já vi acontecer com vários amigos. A pessoa quer economizar dinheiro e acaba comendo só porcaria. Depois de algumas semanas, ela começa a se sentir mal e lá se vai duas semanas na cama do hostel, gastando dinheiro e perdendo um tempo precioso que poderia ser gasto aproveitando a viagem.

21. Você só vai dar valor para sua viagem quando voltar para casa

Apesar disso tudo o que eu disse, assim que você botar o pé no Brasil vai pensar “será que eu deveria ter voltado?”. 

Depois de uma semana almoçando na casa de todas as suas tias, você vai perceber que na verdade nada mudou por aqui e vai se arrepender amargamente por não ter aproveitado cada segundo da sua viagem como "deveria" ser aproveitado.

Tudo isso significa que não vale a pena viajar? 

Claro que não!

Significa que não adianta criar uma viagem perfeita na sua cabeça, porque você certamente vai se decepcionar. Todos esses “perrengues” fazem parte da experiência.

O segredo é ir sabendo que nem tudo será perfeito e sempre lembrar de aproveitar cada segundo da sua experiência para não se arrepender tanto quando voltar para casa.

Você tem algo para acrescentar a lista? Eu adoraria continuar construindo essa lista com vocês nos comentários!


publicado em 01 de Agosto de 2015, 00:00
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Igor Scaldini

Já viajou bastante pela Europa, morou nos Estados unidos e também Canadá. Tem uma relação de amor e ódio com o Brasil. Treina Parkour, corre ultramaratonas e, no momento, está disponível no mercado de trabalho.


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