A festa dos meus privilégios

​Quem são as pessoas de quem a gente se esqueceu?

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Era um happening cult, de gente bonita e descolada, na cobertura de um amigo, em frente ao parque da cidade.

Cheguei, não vi ninguém conhecido e fui para a varanda, apreciar um pouco a vista, quando um moço negro veio falar comigo:

— Beleza, Paulo, tudo bem?

— Hã... Desculpa, a gente se conhece?

— Uma vez. Você não vai lembrar. Na sala de espera da Acme, junho de 2003. Lembrou?

— Acho que não...

— Era uma entrevista para gerente de atendimento, não lembra mesmo? Você chegou logo que eu estava saindo, a gente fez um gesto assim com a cabeça um pro outro, bom dia, bom dia, pá, pá.

— Faz tanto tempo... Desculpa. Realmente não lembro.

— Não precisa pedir desculpas, imagina!, que besteira. Aliás, soube que você levou a vaga. Depois, quando a Acme abriu as ações na bolsa, comprou até um barco, né? Parabéns.

— Obrigado. Foram muitos anos de dedicação e esforço, mas o resultado valeu a pena.

— Você merece, Paulo. Você merece... Mas sabia que a vaga era pra ter sido minha?

— Hã? Sério?

— Pois é. O gerente de RH, aquele careca, lembra?, me escolheu. Mas a diretoria achou melhor outra pessoa. Não é que eram racistas, claro que não!, mas sabe como é, o gerente de atendimento é a cara da empresa, e será que era essa a cara que a empresa queria ter, será que era essa a imagem que queriam transmitir? O diretor financeiro ainda chamou o moço do RH lá no trigésimo andar, pra conversar cara a cara, entende?, pra ele não ficar com a impressão que era uma empresa racista, claro que não!, mas falou assim: "e se um dos nossos clientes for racista? hein? hein? nessa economia, será que podemos arriscar?" Aí, o gerente de RH voltou pra pilha de currículos, que ele já tinha até arquivado, e escolheu você. (Na verdade, escolheu outras duas pessoas antes, mas um cara já tinha pego outro emprego e a mulher o diretor financeiro achou que tinha cara que iria engravidar em no máximo dois anos.)

— Meu Deus, que horrível. Sinto muito. Mas, e agora, como você está?

— Fiquei uns tempos desempregado, trabalhei em outras empresas, menores que a Acme, claro, algumas faliram quando o mercado desabou, voltei pra casa da mãe no interior, agora estou empregado de novo, dez anos depois e ainda vice-gerente, mas vamos levando, né? A vida é assim mesmo.

— Pôxa, olha, eu nem sei o que dizer, desculpa...

— Queísso, Paulo, fica assim não. Você é um cara incrível, trabalhou duro a vida inteira. Tudo o que você conseguiu foi por muito mérito e muito merecimento. Nada do que houve comigo foi culpa sua. Você é inocente.

— Posso te pegar um drinque?

— Claro. Uma cerveja tá bom.

— Já volto e conversamos mais.

Entrei, a cabeça girando, e fui até o bar. Meu amigo tinha contratado uma bartender mas, antes que eu pudesse pedir a cerveja, ela falou:

— Paulo! Quem diria?

— Hã... Desculpa, a gente se conhece?

— Uma vez. Você não vai lembrar. No bistrô Chez Amour, maio de 2005. Lembrou?

— Acho que não...

— Eu e minha namorada estávamos na mesa logo atrás, não lembra mesmo? Você estava jantando com uma ruiva e pareciam muito apaixonados. Nunca vi duas pessoas se olharem com tanto amor.

— Faz tanto tempo... Desculpa. Realmente não lembro.

— Não precisa pedir desculpas, imagina!, que besteira. Aliás, soube que vocês casaram logo depois, são muito felizes e têm dois filhinhos lindos, né? Parabéns.

— Obrigado. Foram muitos anos de dedicação e esforço, mas o resultado valeu a pena.

— Você merece, Paulo. Você merece... Mas sabia que eu e minha namorada nos separamos logo depois?

— Hã? Sério?

— Pois é. Ficamos tão contagiadas pelo amor de vocês que, na empolgação da felicidade, demos um longo beijo. Que terminou quando o vizinho de mesa veio bater no meu ombro, dizendo que não tinha saído de casa pra ver duas sapas se atracando. Tentamos conversar mas daqui a pouco o restaurante inteiro estava gritando e batendo nas mesas. No meio da balbúrdia, minha companheira levou uma garrafada na cabeça e eu, um soco na boca. Está vendo esse dente aqui da frente, mais escurecido? Quebrei. Fomos expulsas de lá aos chutes e passamos a noite no hospital. Depois disso, o relacionamento ficou inviável. Ela achava que eu deveria ter revidado e eu, que deveríamos ter saído na primeira agressão. Ela disse que perdeu sua confiança na minha capacidade de defendê-la e eu que perdi minha confiança em seu discernimento em uma emergência. Sabe, eu achava que eu e ela iríamos ser pra sempre, mas terminamos na semana seguinte e nunca mais nos falamos.

— Meu Deus, que horrível. Sinto muito. Mas, e agora, como você está?

— O dente ainda dói. Nunca mais tive coragem de beijar ninguém em público, o que também dói. Tanto autocontrole deixou minha vida amorosa meio travada. Tive outros relacionamentos curtos, mas nenhum como aquele. Ainda penso muito nela. Agora, estou solteira já faz uns anos, me concentrando na carreira, mas vamos levando, né? A vida é assim mesmo.

— Pôxa, olha, eu nem sei o que dizer, desculpa...

— Queísso, Paulo, fica assim não. Você é um cara incrível, trabalhou duro a vida inteira. Tudo o que você conseguiu foi por muito mérito e muito merecimento. Nada do que houve comigo foi culpa sua. Você é inocente.

— Olha, com licença, estou me sentindo um pouco mal. Mas já volto pra gente conversar mais.

— Vou estar aqui, trabalhando.

Corri para o banheiro, tonto e mareado, mas assim que fechei a porta, percebi que já havia uma senhora ali dentro, branca, de uniforme, limpando a privada. E ela disse:

— Paulinho, há quanto tempo!

— Hã... Desculpa, a gente se conhece?

— O senhor não vai lembrar. Colégio São Francisco, década de noventa. Lembrou?

— Acho que não...

— Eu fazia faxina, não lembra mesmo? Era mãe do Marquinhos, que sentava do seu lado na quinta série. Vocês sempre disputavam pra ver quem era o melhor aluno.

— Faz tanto tempo... Desculpa. Realmente não lembro.

— Não precisa pedir desculpas, imagina!, que besteira. Aliás, soube que o senhor ganhou uma bolsa e terminou o ensino médio lá fora. Depois, só não foi pra uma das universidades mais famosas do mundo porque preferiu voltar pro Brasil e tocar o negócio da família, né? Parabéns.

— Obrigado. Foram muitos anos de dedicação e esforço, mas o resultado valeu a pena.

— Você merece, seu Paulo. Você merece... Mas sabia que essa bolsa teria sido do Marquinhos se ele não tivesse morrido?

— Hã? Sério?

— Pois é. Foi no ano seguinte que o senhor saiu da escola. Ele tinha quinze anos. A gente vivia na favela ali perto. Tentei colocar ele na escola pública, mas o diretor não deixou. Foi ele que me sugeriu faxinar no São Francisco pro Marquinhos estudar lá. Seu filho é superdotado, ele disse, pelo bem do Brasil, do Brasil!, ele precisa estudar em uma escola onde possa desenvolver seu potencial. Os padres me pagavam mal e me trataram mal, mas valia a pena, pelo Marquinhos e pelo Brasil, né? Essa bolsa acadêmica lá do exterior que o senhor ganhou teria sido do Marquinhos com certeza. Não lembra como ele sempre ganhava do senhor na matemática e no português? Um dia, a polícia militar invadiu, os bandidos revidaram, e ele vinha voltando da aula. Meu filho, tão branquinho. Nessas horas, eles até esquecem que são racistas. Favelado é tudo favelado. Até hoje, a gente nem sabe se a bala era da polícia ou dos bandidos. Mandaram pra perícia e sumiu. Aí ficou por isso mesmo. Já faz tanto tempo. Deixa eu olhar pro senhor, Marquinhos hoje teria a sua idade, seu Paulo...

— Meu Deus, que horrível. Sinto muito. Mas, e agora, como você está?

— Tenho mais um menino e uma menina, que só me dão orgulho, ele trabalha de gari e ela casou com um pastor e me deu até um neto, mas o Marquinhos era nossa grande esperança. Perder um filho é uma dor que nunca passa, mas vamos levando, né? A vida é assim mesmo.

— Pôxa, olha, eu nem sei o que dizer, desculpa...

— Queísso, seu Paulo, fica assim não. O senhor é um cara incrível, trabalhou duro a vida inteira. Tudo o que conseguiu foi por muito mérito e muito merecimento. Nada do que houve comigo e com o Marquinhos foi culpa sua. O senhor é inocente.

— Jura?

Nesse instante, bateram na porta do banheiro. Respondi:

— Tem gente!

E veio a voz:

— Tem gente aqui também. Eu não fui promovida à posição que você ocupa hoje porque não consegui terminar um relatório importante. E sabe por quê? Porque meu filho ficou doente e meu marido se recusou a parar o trabalho dele para cuidar do menino.

E outra batida:

— Eu não peguei sua vaga na universidade pública porque estava trabalhando dois empregos desde os quinze anos e nunca consegui nem tempo nem concentração para estudar.

E mais uma batida:

— Eu fico três horas no ônibus todo dia porque ninguém no seu bairro chique me aluga um apartamento.

E outra voz:

— Eu não tive o meu primeiro emprego porque o dono da firma preferiu contratar o sobrinho, que era você.

E as batidas continuavam, uma depois da outra, e as vozes continuavam, uma por cima da outra, interminavelmente e incansavelmente, e eu cada vez mais encolhido em cima da privada, até que a faxineira pôs a mão na maçaneta e disse:

— Não dá mais pra adiar, seu Paulo. Eles estão falando e o senhor vai ter que ouvir.

* * *

Para saber mais sobre nossos privilégios, leia a Prisão Privilégio.

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publicado em 01 de Fevereiro de 2016, 11:53
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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