Assistam na íntegra a live que fizemos no Facebook com o Dr. Tiago Pádua (Oncologista) e o Dr. Lucas Ventura (médico de família) falando sobre o tema: "Por que os homens vivem 7 anos a menos que as mulheres". Vamo lá!

A gente precisa saber onde ancorar

Das conversas que chegam de onde menos esperamos para o momento

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— Aqui não, Garota. Não jogue a sua âncora aqui.

Quando disse isso, não sei há quantos quilômetros estávamos da linha de partida, mas suponho que já estivéssemos longe. Ele pilotava tão rápido que o som do vento me impedia de ouvi-lo bem. Ainda assim, acho que conseguia sentir meu corpo soluçar, talvez um lágrima tivesse escapado do capacete e esbarrado no casado dele. Ele sabia e eu também. Nada estava bem.

Estacionamos no meio de uma praça, um lugar alto e bem bonito. De lá, dava para ver grande parte da cidade e um monte de coisas que eu não havia percebido antes. Ficamos algum tempo em silêncio, então, ele disse de novo, apontando para o sol, que se punha ali no meio do horizonte:

— Aqui! Aqui é o lugar certo para jogar fora essas merdas. Tá vendo? Nossa, menina, você deixou o meu casaco molhado. Tem um rio saindo desses olhos? Presta atenção, ainda não é hora de jogar a âncora, entende? Não nesse velho casaco de couro! Essas merdas acontecem, garota. Agora olha pra frente. Tá vendo? O mundo é isso: esse monte de merda, mas também esse puta pôr-do-sol bonito pra caralho. Tá vendo? É isso: garotas com olhos molhados, mas que também sorriem e, quando isso acontece, minha querida, é até mais bonito do que esse pôr-do-sol.

Ele parou, coçou a cabeça e prosseguiu.  

— Presta atenção. Eu vou ser uma das poucas pessoas que vai lhe dizer isso, da mesma forma que poucas pessoas me disseram também: a sua âncora você só joga em águas seguras e, você sabe, aqui não há segurança nenhuma, entendeu?

Ele dizia isso enquanto apontava para si mesmo. Sim, fazia tempo que sabia que ali não existia segurança. Nunca houve. E fazia tanto tempo que a gente não se via. Tanto tempo...

Sei lá. Acho que as tragédias unem as pessoas. Pelo menos é o que dizem. E, apesar de tudo, aquele era o único lugar em que eu queria estar. Mas nada disso eu disse, então, continuou.

— É você, saca? Você que tá navegando, você que tem que encontrar um lugar bom o suficiente para aportar. Esse aqui é o meu… E eu te trouxe até aqui para mostrar que você vai achar o seu também, mas enquanto ainda tiver tudo turbulento,  empresto um pouco desse espaço, fechado?

Nos sentamos na grama, observando o sol finalmente ir embora. Dessa vez, não sozinhos.

Às vezes, algumas coisas morrem pelo caminho. Sempre supus que a inocência fosse a primeira delas, mas talvez estivesse enganada. Apesar dos anos de estrada, da cara cansada e do velho casaco de couro, os olhos dele ainda preservavam um brilho que há muito tempo eu não via nos meus próprios. Entendi, então, que era tudo uma questão de escolha – a liberdade às vezes dói. E eu finalmente estava pronta para perdoá-lo por todos os anos de ausência. Eu finalmente entendi que as pessoas são só pessoas e fazem merda; e magoam os outros; e vão embora… Elas sempre vão embora. Mas às vezes um único gesto muda tudo. Às vezes a gente só precisa se reencontrar.

— Vai ficar tudo bem. Se eu sobrevivi, você também vai.

— Eu sei, pai – respondi, pela primeira vez, sem mentir.


publicado em 18 de Outubro de 2016, 12:00
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Amanda Cipullo

Editora do site Casos Rock n' Roll e formada em publicidade. Jornalista por acaso, atriz e escritora por paixão. Acredita que pedras que rolam não criam limo, e é esse tipo de história que conta por aqui.


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