A Primeira Campanha Publicitária

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— Senhor?

— Pois não?

— Adão na linha dois.

— Pode passar.

— Sim, Senhor.

— Alô?

— Oi, Deus. Tudo bom? Você queria falar comigo?

— Sim. Liguei mais cedo.

— Ah, desculpe. Eu estava no estúdio.

— Estava onde?

— No estúdio. Eu montei um estúdio de filmagem ao lado da minha caverna.

— Sabe, Adão... Eu Sou onisciente, mas mesmo assim você ainda consegue Me surpreender às vezes.

— Obrigado.

— Não precisa agradecer. Mesmo porque não foi um elogio. Enfim, Eu liguei antes para conversar com você sobre o problema do esquilos.

— Esquilos?

— Sim. Eu tenho aqui uma queixa formal de um esquilo, reclamando de maus tratos.

— Ah, não foi nada demais. Ele está exagerando.

— Deixe que Eu decido isso. O que aconteceu?

— Bem, ontem à noite eu fui até o lago tomar banho. E, a hora que eu estava com o corpo todo molhado, peguei o esquilo e esfreguei ele no meu peito e braços. Mas eu nem apertei o bicho. E nem demorou muito, foi coisa de alguns segundos.

— Adão, você enlouqueceu?

— Não. Desculpe. Eu só queria testar uma coisa. Mas não deu certo.

— Testar? Testar o quê?

— Bem, eu queria ter mais pelos no corpo.

— Você o que?

— Eu queria ter mais pelos no corpo. Sabe? No peito, nos braços...

— Você queria o quê?

— Ter mais pelos no corpo. É o seguinte. Faz dias que os macacos não me deixam em paz. Eu tento fazer o meu trabalho e eles ficam em cima das árvores, gritando que eu tenho que trabalhar porque sou o único animal do Paraíso que não tem pelos. Ficam falando que eu sou estranho.

— Bem, existem outras criaturas sem pelo no Paraíso.

— Sim, eu sei disso. E os macacos também sabem. Tanto que eles começaram a espalhar por aí que eu sou um peixe que acabou de evoluir e que minha espécie é atrasada, e só conseguiu sair da água essa semana.

— Adão, Eu já disse mais de uma vez para você deixar esse papo de evolução de lado. Eu não gosto destas ideias.

— Desculpe. Estou apenas repetindo o que eles estão falando. Mas o Senhor há de concordar comigo que é humilhação demais. Imagine, logo eu, que cuido de tudo por aqui, sendo chamado de peixe.

— Na verdade, Eu acredito que você tem coisas mais importantes para se preocupar.

— Sim, eu concordo. Eu tentei ignorar os macacos, mas não deu certo. Pois, agora, os outros animais estão começando a comprar a ideia deles e ficam rindo de mim. O dia inteiro! Eu vou até a floresta? Os leões começam a rir. Preciso ir até o lago? Os elefantes ficam dando cotoveladas uns nos outros e apontando para mim. Aí basta eu virar as costas e começam as gargalhadas.

— E o coitado do esquilo...

— Bom, eu estava cansado de ver todo mundo rir de mim. Aí eu tentei o negócio do esquilo. Mas não deu certo. Primeiro, os pelos do bicho quase nem grudaram em mim. E, depois, já caiu tudo. Para dar certo, eu teria que fazer isso umas duas vezes por dia.

— Você realmente considerou isso?

— Bem...

— Só um minuto, Adão. Estou transformando todos os lagos em sangue até você mudar de ideia. E vou aproveitar e mandar uns anjos até...

— Não, não precisa. Eu desisti disso. Daria muito trabalho.

— Que bom. Então, eu vou conversar com o esquilo, pedir desculpas a ele e garantir que isso não vai acontecer novamente.

— Tudo bem. Eu já pensei em outra coisa aqui e tive uma ideia brilhante!

— Por que Eu não estou surpreso?

— Como?

— Nada, nada. Me diga, Adão. Qual foi sua ideia brilhante?

— Eu vou transformar todos os animais do Paraíso em criaturas sem pelos!

— Você o quê?

— É isso mesmo! Vou fazer os animais perderem os pelos. E todos ficarão iguais a mim! Aí, os macacos não poderão falar mais nada.

— Olhe, Adão. Você já fez bobagem com um esquilo ontem, e Eu que vou resolver isso agora. Agora, se você tentar arrancar os pelos de um leão, ou de um urso, e o bicho não gostar, você que se entenda com ele. Eu tenho mais o que fazer.

— Não, nada disso. Eu não vou arrancar os pelos de ninguém. É justamente por isso que minha ideia é brilhante.

— Certo, Adão. Qual sua ideia?

— Eu vou fazer um vídeo mostrando que não ter pelos é muito mais bonito que ser peludo. E vou veicular aqui no Paraíso.

— Ah, por isso você montou um estúdio.

— Isso. Vamos gravar agora à tarde!

— Como assim, “vamos”? Quem mais vai fazer isso?

— Eu convidei três fêmeas sem pelos. Três femeas lindas! Uma iguana, uma rã e uma tartaruga. E vou fazer uma campanha para os animais rasparem os pelos!

— E os animais aceitaram isso?

— Sim. Bom, eu fiquei de pagar cinquenta cocos para cada uma delas. A serpente disse que topava trabalhar no vídeo e cobraria só uma maçã, mas eu recusei, porque sei que o Senhor...

— Isso. Nem precisa continuar.

— Enfim... Nada de serpente, pode ficar tranquilo. Nós vamos gravar agora à tarde. Lá na beira do lago.

— No lago?

—  Isso. Vai ser assim. As três vão estar conversando na beira do lago, dizendo o quanto animais peludos são nojentos. E, conforme elas conversam, entram cenas de um leão correndo com areia caindo da juba, de um macaco pulando de um galho para o outro com areia caindo dos braços, de um gato se espreguiçando e caindo areia das patas. E a rã, a iguana e a tartaruga conversando em off, dando gritinhos de nojo.

— Espere, você disse que vai mostrar um leão, um macaco e um gato.

— Sim!

— Como você conseguiu convencê-los a participar desse vídeo?

— Ah, eu nem tentei. Eu que vou fazer os três papeis, usando máscaras.

— Máscaras?

— Sim, fiz hoje de manhã, com folhas de bananeira. Ficaram ótimas. A do leão deu trabalho, eu tive que desfiar inteira, para ficar parecendo uma juba, mas...

— Adão, posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Você realmente acha que os outros animais não vão perceber que é você?

— Acho, claro. Eu vou estar com máscaras. E, mesmo se perceberem, não importa. Vai passar a mensagem.

— E qual é a mensagem mesmo?

— É o final do video. Depois de mostrar os animais, a imagem volta a mostrar as três modelos. Aí dá um close na cara da tartaruga dizendo “"Para me beijar...”; um close na iguana falando: “Para me abraçar...”; e um close na rã, com ar provocante, dizendo: “Para me pegar...”.

— Adão, isso demora muito? Eu estou tentando não rir, mas está ficando bem difícil.

— Não, está acabando. Depois disso, mostram todas as três ao mesmo tempo, lá na beira do lago, gritando que “Quero ver raspar!” E encerra comigo no meio delas. Elas me abraçando e eu ali, lindão e sem pelos. O novo símbolo de beleza no Paraíso.

— E isso vai fazer os animais decidirem raspar os pelos?

— Com certeza. O vídeo vai deixar claro que pelos são ultrapassados. E sujos.

— Certo. Parabéns.

— Obrigado. “Quero ver raspar” ficou demais, né?

— Adão, agora você pensou, por um minuto, que talvez os animais que tenham pelo gostem disso?

— Oi?

— Sim. Os animais com pelos que Eu criei. Você parou para pensar que eles podem gostar dos próprios pelos? Ou, melhor ainda, eles podem precisar dos pelos?

— Como assim? Ninguém precisa de pelos. Pelos são sujos e ultrapassados.

— Que tal você explicar esta sua teoria a um urso polar? Posso colocar um na sua frente agora mesmo e você apresenta sua ideia de video para ele. Que tal?

— Como assim?

— Sim. Um urso polar. Aposto que ele vai adorar saber que, por sua causa, ele terá que enfrentar o inverno sem pelos.

— Bem, ninguém disse que ele vai ser obrigado a raspar...

— Adão, Eu criei os animais, e isso inclui você, da forma certa. Da forma que cada um de vocês precisa. Se você vai começar a tentar impor padrões de beleza no Paraíso, é mais fácil pegar logo a maçã e ver o que acontece.

— Mas é que eu não aguento mais os macacos rindo de mim por eu não ter pelos!

— Sei. E por isso, você quer mudar todo o Paraíso?

— Eu me sinto ridicularizado!

— Bem...

— Vamos ser diretos aqui, Adão. Em primeiro lugar, você já deixou a adolescência faz tempo. Na verdade, você nunca foi adolescente. Eu criei você direto como um adulto para não ter que lidar com problemas como “meu corpo está mudando”, “sou mais feio que os outros” e “droga de vida, todo mundo me odeia!”.

— Não, é que...

— Tudo o que eu não preciso aqui é que você comece a se comportar como se tivesse quinze anos, fazendo birra com tudo. Qual o próximo passo? Gritar um palavrão, bater a porta da caverna e ligar o som no máximo?

— Mas...

— Então é isso. Deixe essa história de pelos de lado. Esqueça esse vídeo. Vá cuidar do Paraíso pois suas tarefas estão todas atrasadas.

— Mas os macacos...

— Olhe, você quer falar dos macacos?

— Sim.

— Então vamos fazer um acordo. Você fala sobre os macacos e Eu falo sobre um exército de anjos arrasando seu estúdio com espadas de fogo. Que tal?

— Bem...

— Você ainda quer falar sobre os macacos?

— Não.

— Que bom. Na verdade, aposto que tudo o que você quer fazer é esquecer isso e cuidar do Paraíso. Certo?

— Bem... Certo.

- Que ótimo, Adão. Fico feliz por você ter tomado a decisão certa.

- Obrigado.

- Algo mais, Adão?

- Não, Senhor.

- Certo. Até logo.

- Tchau.

Após desligar o telefone, Deus observou o Paraíso por alguns instantes. Viu Adão dispensando as modelos e indo cuidar de suas tarefas. Assunto resolvido. Ou, ao menos, por enquanto, já que algo ainda Lhe incomodava.

Depois de pensar por mais alguns instantes, pegou o telefone e ligou para Sua secretária, pedindo que ela agendasse uma reunião com os anjos do departamento de operações. Queria repassar com eles todas as informações a respeito do livre arbítrio. E, mais importante, consultá-los a respeito da possibilidade de criar alguns filtros, como “bom senso”, “humor inteligente”, “coerência” e “vamos desistir pois o cliente não vai aprovar uma coisa dessas.”

Já havia tentado criar estes filtros mais de uma vez, mas os anjos haviam falando que era impossível. A programação do libre arbítrio era complexa demais para ser alterada.

Mas Deus respirou fundo e se convenceu de que não faria mal tentar mais uma vez.


publicado em 15 de Fevereiro de 2013, 09:35
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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