Breve guia prático de como tomar um fora

Porque, né, é na derrota que precisamos de um mínimo de civilidade pra não arruinar ainda mais o que já tá bem cagado

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E então bateu um sentimento. O brilho daquele olhar, a magia do sorriso, a desenvoltura na conversa, o encanto daquela covinha, o jeito como a franja caia casualmente sobre uma testa que parecia desenhada por um designer que conhecia todas as suas especificações de projeto. Ela gosta dos livros que você gosta, ou conhece os livros que você nunca ouviu falar, ou ama os livros que você odeia, mas de um jeito que você até se questiona porque odeia, se odeia, como odiar, qual seu CPF, é pessoa física que tem CPF ou é CNPJ? Em suma, você tá encantado, a pupila dilatou, o coração entrou em arritmia, na Lava-Jato da paixão só tem o apelido dela na planilha emocional da sua Odebrecht pessoal. E o apelido é “muito linda”.

Ou um pouco menos, se eu estiver exagerando me manda parar. Eu costumo exagerar.

Aiai

E você vai lá. Respira fundo se você for de respirar fundo, toma coragem se for de precisar tomar coragem, consulta amigo se for dessas, ensaia na frente do espelho. Prepara o melhor sorriso – ou a melhor mensagem de Whatsapp ou Facechat, tamos no século XXI – e aborda. Com cuidado, claro, aborda com carinho. Tenta, ali, sintetizar os motivos para a moça investir tempo e carinho na sua pessoa, um meio termo entre canção romântica e vinheta do Polishop que você espera abrir a porta pra alguns momentos bacanas e gostosos de conhecimento mútuo e alegria.

E a resposta é um não.

Tem vezes que é um não mais sutil, com gentileza. Tem vezes que é um não seco, mais direto. Mas é um não. Na sua intenção não tem reciprocidade, no seu projeto não tem receptividade, seu conceito foi ali eliminado do mata-mata dos casaizinhos por W.O. porque a outra parte não tá afim de participar.

Chato? Chato. Dependendo da situação, magoa? Magoa. Se você for mais sensível, sobe um vermelho no rosto e bate uma lagriminha solitária no olho? Não é vergonha nenhuma, se for o caso. Mas serve de justificativa pra ser babaca? Não serve, não. E é aí que, aparentemente, pra vários de nós homens, a coisa complica.

Não que tomar um fora seja algo complicado ou que exige aí grandes reflexões. Toda abordagem de cunho romântico/sexual é, no seu centro, uma proposta. E propostas, pela sua própria natureza, são coisas que uma pessoa faz e a outra pode rejeitar. Você teve uma ideia, a ideia envolve a garota, você chegou pra garota e propôs a ideia, ela não tem interesse na ideia.

"Mas e se eu...". Não, fera.

Cumprimenta, pede desculpas pelo incômodo se sentiu que incomodou, pega teu copinho de cerveja se for no bar, dá aquela atualizada no Facebook se foi no celular, vida que segue. Se você agiu com respeito, agiu na boa, ninguém guarda mágoa, ninguém guarda rancor.

Mas, como qualquer mulher sabe, e qualquer cara que tiver um mínimo de consciência sabe também, existem vários homens que, diante da rejeição feminina, reagem de maneiras que variam entre o hostil ao assustador, passando pelo “obviamente você foi criado por animais e essa foi sua primeira interação humana”. Isso torna o que era pra ser uma experiência social “normal” numa experiência bizarra e assustadora pra uma das partes e que deveria deixar a outra parte provavelmente envergonhada e proibida de realizar contato com o outro sexo por um longo tempo.

E mais do que incapacidade de lidar com rejeição, despreparo para conter as próprias emoções ou os efeitos nefastos da mistura de uísque, energético e cerveja morna, o que grande parte dessas interações transmite pode ser resumido de um jeito bem simples: você não considera a mulher uma pessoa como você.

Não que nesses casos isso não seja meio óbvio, claro. Se você só é capaz de tratar bem uma pessoa enquanto ela está concordando contigo ou enquanto quer alguma coisa dela, você obviamente não respeita essa pessoa – e chamar uma mulher de linda enquanto está chegando nela e de puta assim que ela demonstra que não tem interesse é um exemplo bem claro disso.

Mas todas as outras situações que envolvem a maior parte desses exemplos – não aceitar um não como resposta, diante da rejeição agir com hostilidade, entre outras – deixam claro que a posição que você assumiu nessa “negociação” não é de igualdade com a outra parte, porque você simplesmente não está disposto a considerar a vontade dela como essencial para aquilo que está acontecendo ou lidar com naturalidade com a possibilidade de que ela não esteja interessada.

Talvez seja só vontade de ficar na festa mesmo

Se a rejeição da garota no Tinder te faz procurar por ela no Facebook, você está desrespeitando o direito de ela encerrar a discussão nos termos dela e presumindo que sabe mais sobre os interesses dela do que ela mesma – além de estar sendo estranho pra cacete, claro. Se o fora dela não te faz encerrar a conversa e sim começar a cobrar dela uma explicação pro fora, você está considerando que ela te deve alguma justificativa e que precisa se explicar por não querer você, o que é desagradável e também é esquisito – feedback é importante, só conhecendo nossos defeitos iremos crescer como pessoas e etc, mas não se obriga o outro a fazer essa análise.

E se você xinga a garota que te deu fora você está, é claro, também desrespeitando não apenas o direito dela de te dar esse fora ilesa como também todo um processo básico de civilidade em que nos acostumamos a não sair xingando as pessoas por aí – mas que aparentemente perde a validade pra você quando envolve alguém dizendo que não quer ir pra cama contigo.

Dentro dessa lógica, então, a mulher não é uma criatura com os mesmos direitos, vontades e possibilidades que você, mas sim alguma coisa menor que tem como função básica te agradar e que quando não realiza a função que você espera te dá o direito de xingar – mais ou menos com uma pessoa faria com uma porta emperrada, o que é uma comparação bizarra mas que dá uma dimensão vaga do quão bizarro é o comportamento.

Então basicamente tudo que você precisa ter em mente na hora de um fora é apenas o pensamento mais óbvio do mundo: o de que aquela pessoa tem o direito de te dar um fora. Ela não te deve satisfações, ela não te ofendeu com a recusa - e mesmo nos raros casos em que ela tiver literalmente te ofendido, ofender de volta provavelmente não ajudar - e aquela situação específica não te dá nenhum direito de agir de uma maneira que é indefensável em outros contextos sociais.

É um tanto quanto irreal que um texto do tipo “trate pessoas como pessoas” precise ser escrito em pleno ano de 2017? Sim, com certeza, totalmente. Mas é ainda mais ridículo e profundamente assustador ver todo dia prints na Internet de pessoas que claramente ainda não entenderam essa mensagem.


publicado em 12 de Janeiro de 2017, 00:00
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João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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