Breve introdução aos mundos da cultura (e da noite) brasileira para estrangeiras

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Nota do editor: Michaela e Dominika nos disseram que estavam aprendendo a dançar Rebolation e resolvemos expandir o "Guia PdH para gringas gostosas no Brasil" com uma aula sobre nossas diferentes culturas. Antes de ler o texto do João, assista ao vídeo que elas publicaram hoje:

Link YouTube | Hmmm... precisam de aulas extras. E particulares.

É sempre esquisito estar longe de casa. Seja você um brasileiro na França, um italiano nos Bálcãs, um inglês em Nova York, um lobisomem americano em Londres ou um extraterrestre passeando no cestinho da bicicleta do irmão da Drew Barrymore num filme do Spielberg, estar fora do seu ambiente sempre gera uma certa sensação de confusão, um medo de não se encaixar, um receio nascido do contato com o desconhecido.

Então quando fui convidado a fazer um breve guia sobre cultura brasileira para gringas, admito que tive um certo receio do tamanho da tarefa. Como resumir em algumas páginas uma cultura complexa como a nossa? Como tentar sintetizar as manifestações culturais de um país de proporções continentais composto pelos mais diversos povos, as mais diversas heranças, os mais variados ritmos, cores, cozinhas, tradições?

Como fazer jus a esse Brasil brasileiro, a esse mulato inzoneiro, ainda que poucos de nós consigam dizer o que significa inzoneiro sem consultar um dicionário? Como explicar o que alguém de fora precisaria saber pra se sentir mais em casa por aqui?

Sabendo que isso seria impossível eu tentei fazer apenas o básico e, ao invés de mergulhar demais na complexidade da nossa cultura, ensinar apenas o que aquela sua amiga estrangeira realmente precisaria saber aqui no Brasil: a relação da cultura com as festas.

Menos complexo, mais instrutivo, menos profundo, mais ágil, menos Gilberto Freyre, mais Renato Gaúcho. Espero ter ajudado e conto com as contribuições de vocês nos comentários.

Michaela, ajusta esse top indecente!

O mundo suingado do samba

Manifestação cultural brasileira por excelência, o samba é um dos nossos principais gêneros musicais e raiz de uma gama de manifestações culturais muito profundas e muito importantes no nosso país. Com inúmeras variações que vão desde o samba de roda até o samba enredo, o samba rock e o samba de breque, ele está presente em diversas regiões do país, principalmente no Rio e na Bahia e é possivelmente uma das coisas mais genuinamente brasileiras que você pode conhecer depois da furada de fila, da caipirinha e da ideia de deixar tudo pra última hora que “vai dar certo, tá comigo, tá com deus".

Acompanhando o samba quase sempre existem manifestações de dança – sobre as quais eu não posso falar porque não sei dançar, então indico um vídeo – e até de culinária. Exemplo disso é a feijoada, um prato feito com todas, sim, todas as partes do porco e sobre o qual você deve pensar o mínimo possível antes de comer.

Os 3 passos básicos do samba. De ladinho; olha a cobra!; e o pulinho peralta.

As melhores opções pra conhecer o samba são:


  • o ensaio de alguma escola (existem várias no Rio, em São Paulo e outras cidades),

  • uma boa roda de samba (que pode acontecer em qualquer quintal ou local onde dê pra... bem... fazer uma roda)

  • ou até mesmo em alguma casa de show, onde você perde em espontaneidade e originalidade, mas ganha em segurança e menos chances de ser encoxada por um nativo.

Ou não. Mas aí é com você, eu quero é te ver feliz, amigos servem pra isso.

O mundo sertanejo do country

Uma expressão da cultura do interior do Brasil, o country acaba sendo mais do que um ritmo musical e tomando a proporção de um estilo de vida ou ambiente cultural, tendo também o seu tipo específico de festas e de roupas. Está cercada de gente de bota, chapéu e cintos de fivela grande? Bem, olhe em torno e se você não achar pessoas correndo vestidas de índio e tiver caído por acaso num remake de filme do John Wayne, então sim, você deve estar numa festa sertaneja.

Ainda que seja possível encontrar festas desse tipo em quase todo lugar e não apenas no interior do país, o expoente máximo da diversão country é sem dúvidas o rodeio(ex.: Barretos), um misto de shows musicais, competições envolvendo animais – sem trocadilhos – e outros eventos como feiras e venda de comidas típicas.

Lá vocês podem ter a oportunidade de não apenas se integrar um pouco mais à cultura rural do país como também passar por experiências marcantes como ver um homem sendo lançado longe por um touro, soprar num berrante ou apenas usar aquela bota de couro que você sempre teve sem se sentir esquisita.

Pensando bem, até que vocês não ficariam mal vestidas assim mesmo sem um celeiro ou um rodeiro por perto.

Resumindo, é o tipo do evento divertido e cheio de opções, mas que deve ser evitado se for militante dos direitos dos animais ou vegetariana, só por via das dúvidas.

O mundo micareteiro do axé

Mais uma manifestação nascida da influência africana no Brasil, o axé é um ritmo musical presente principalmente no nordeste, de forma mais específica na Bahia mas que possui ramificações em todo o Brasil. Uma dessas manifestações é a micareta, espécie de carnaval fora de época realizado nas mais diversas regiões do país e que possui algumas regras básicas que devem ser bem compreendidas para melhor fruição do evento como um todo e para evitar alguns choques culturais mais bruscos que podem resultar em traumas, processos ou em nunca mais querer visitar o Brasil.

Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Ou quem tem problemas de ansiedade com aglomerações.

Na micareta ou mesmo no carnaval baiano existem, além da total uniformização de vestuário através do uso coletivo do abadá – uma espécie de camiseta, só que menor do que uma camiseta – algumas variações no comportamento médio das pessoas que não devem ser levadas em conta durante o resto dos seus momentos no Brasil.

Num ambiente de micareta ou carnaval é usual que pessoas desconhecidas se beijem, é usual que você beije mais de um dígito de pessoas na mesma noite e também é relativamente comum que os diálogos travados nesse processo raramente excedam três frases, sendo que duas podem consistir em monossílabos.

O que, como eu disse, não é exatamente o comportamento padrão que vocês devem esperar ou ter durante o resto da sua estadia em outros ambientes aqui no Brasil. A não ser que, é claro, vocês queiram, e se vocês quiserem podem ter certeza que a maior parte do pessoal por aqui vai achar muito bacana e ninguém vai criticar.

O mundo cachorrão do funk

A mais recente e localizada das manifestações culturais citadas, o funk é um estilo musical com raízes no Rio de Janeiro, com festas que costumam ser chamadas de “bailes”, ainda que possivelmente não tenham nada a ver com nenhum baile que você conheça, a não ser que seu país tenha hábitos muito liberais e a sua formatura tenha sido bem mais divertida do que a minha.

Comando pelos DJs e MCs, o baile funk é o tipo de evento que também possui hábitos de vestuário, linguagem e ritmo musical próprios, sendo possivelmente o único tipo de ambiente no país no qual o uso de calcinha é totalmente opcional (e até desestimulado), é socialmente aceitável e não inerentemente ofensivo chamar uma garota de cachorra e ainda é possível achar pessoas que lembram do Bonde do Tigrão, esse fenômeno pop tão tipicamente brasileiro.

"Aparar pela rabiola", uma expressão de difícil tradução.

Brasil é muito mais do que tudo isso (e outras frases copiadas do Ministério da Cultura)

Como eu disse logo no começo do texto, é claro que o Brasil é bem mais do que tudo isso, então esses quatro tópicos não chegam a ser nem uma introdução sobre um começo do princípio do prólogo de um mini-guia básico sobre o assunto. Ou algo assim.

Ficou de fora o Carnaval, a maior festa brasileira, que merecia um texto só pra ela, com vídeos ilustrativos, um infográfico explicando as escolas de samba e um tutorial sobre a manipulação desse instrumento misterioso chamado cuíca. Faltaram dezenas de grupos urbanos que vão desde os emos até os roqueiros e mais uma infinidade de manifestações culturais ligadas à noitada que poderíamos passar a semana toda aqui discutindo (mas não, isso não é uma ameaça, o texto já está acabando).

No final das contas as coisas mais importantes são aquelas que ninguém pode te ensinar e você só entende sozinho: as imagens, as sensações, as pessoas, o contato, as lembranças.

Mas uma coisa sobre o Brasil eu posso dizer sem medo de errar: se o flanelinha na porta da festa disse que vai arranhar seu carro se você não deixar 5 reais com ele, saiba que ele vai arranhar mesmo. Não precisam agradecer pela dica.


publicado em 20 de Janeiro de 2011, 14:14
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João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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