Como evitar a depressão de fim de ano

Frederico Mattos fala um pouco sobre como podemos lidar com a percepção de nossas contradições durante as festas de fim de ano

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Aquela sensação de que o tempo passou rápido demais e que ninguém tomou conta da própria vida. Percebemos que fomos reativos, ansiosos, precipitados e seguimos como robozinhos domesticados os nossos desejos cheios de contradições.

O resultado é que não chegamos em lugar nenhum, ficamos pálidos diantes de mais um ano, da mesma forma como começamos, prometendo e não cumprindo, vivendo mas não sentindo a vida.

Agora não adianta chorar o leite derramado. Caso tenha passado esse ano no piloto-automático terá que llidar com os demônios que ficaram encapsulados dentro do seu armário.

A depressão de final de ano é o reflexo de uma impotência diante de si mesmo e da incapacidade de olhar para os pequenos milagres cotidianos que ocorrem no seu interior.

Quantos atos de pequena bravura ou abertura emocional você perdeu a oportunidade de experimentar?

Para não ficar com esse gosto amargo daqui mais alguns anos seria bom que houvesse uma etiqueta de "boas maneiras" emocionais. Que tal tentarmos fazer uma?

Encarar a si mesmo com honestidade

Seria incrível poder olhar no espelho e saber exatamente qual é o seu tamanho pessoal.

Nem se sentir mais do que é, sustentando uma arrogância sutil e exaustiva; e nem menos, a ponto de achar que não tem valor absoluto.

Olhe para o que você tem de pontos fortes e frágeis, sem o constrangimento típico de quem quer ser perfeito em tudo e nunca usufrui nada.

Caso tenha feito alguma besteira, assuma sem entrar em auto-piedade ou autoacusação do tipo "sou um bosta mesmo". Você pisou na bola, reconheça, entenda os processos mentais que o levaram a fazer aquilo e então discipline sua mente para evitar isso.

Parar de se justificar tanto

Quando você tenta encontrar uma justificativa racional para tudo que acontece na sua vida, está manobrando uma rota de fuga para suas emoções.

Quando algo vai como havia previsto ao invés de ficar alegre imediatamente coloca um rótulo "foi sorte/a vida/Deus que quis". Por que não se alegra e sorri apenas?

Da mesma forma, quando você não atinge o seu objetivo e fica triste, não consegue deixar de se autoexplicar "poxa, ainda não foi meu momento" ou "não mereço isso". A tristeza cai melhor do que uma explicação metafísica, pois aproxima você da experiência imediata, sem floreios ou remendos.

Fazer conexão com seu mundo emocional

De modo geral somos analfabetos emocionais, mal sabemos identificar as emoções básicas de tristeza, medo, raiva, alegria e inveja. Além de não saber discernir quando existem emoções ambivalentes e contraditórias como naqueles momentos que você quer se divertir, mas sabe que tem que estudar.

Aos não conseguir identificar, nomear, observar e modificar seu estado emocional, você é refém do que sente e só reage.

Tenha um diário, anote por 3 meses o que sentiu. Com o tempo seu repertório vai aumentar e em algum ponto conseguirá identificar quando sua raiva é um tipo de medo que esconde tristeza.

Viver mais presente

Adoramos jogar iscas no futuro para nos segurar lá adiante onde tudo parece mais lindo do que respirar aqui e agora. No presente sentimos toda espécie de choque com a realidade, o ar que navega pelo pulmão, o dilema moral diante de uma escolha, a dúvida do melhor jeito de conduzir uma conversa.

Exatamente por essas centenas de micromovimentações é que preferimos escapar para lugares seguros no passado nostálgico ou no futuro glorioso/catastrófico e certeiro que nunca alcançamos.

Olhar as pessoas de verdade

Quando o presente começa a invadir mais sua vida, é inevitável começar perceber que as pessoas estão à sua volta, ávidas por conexão, carinho, conversa real, olho no olho, sem rodeios, sem pose para o Instagram.

Elas sofrem e querem a felicidade, como você, e estão todas no mesmo barco. 

Ao partir dessa consciência de que estamos todos um pouco desorientados, o tipo de hierarquia de competência que montamos vai por água abaixo.

Pergunte pelos sonhos, medos, desejos, sabores preferidos e terá boas conversas com qualquer um.

Mas saia do pedestal ou do buraco antes de perguntar. Seja só um humano com outro humano.

Arriscar experimentar um pouco mais

Se conseguir se encarar, sem justificativas, olhar para suas emoções, viver mais aqui e enxergar as pessoas, seus olhos verão mais longe e fundo quase sem esforço.

Acontecerá um milagre, você vai se arrepiar a cada passo que der, sentirá a energia vibrante em cada palavra e gesto humano.

Terá dificuldade de olhar para qualquer um, mesmo um conhecido do mesmo jeito.

Observará rugas novas, sotaques emocionais variados, degustará subtextos incríveis e pode ter certeza, nenhum ano mais vai passar em branco.

Tente uma, duas, três, quatro vezes quanto necessárias, porque não se trata de mais um ano que passou, mas de uma postura para a vida inteira.


publicado em 18 de Dezembro de 2014, 15:57
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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