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Da importância de limpar a sua própria bagunça

Homem deixa de ser dependente quando sabe fazer as próprias coisas. Se você não sabe se virar na cozinha, na lavanderia, em casa mesmo, repense a vida, amiguinho

 

Ainda que seja um clichê imenso e eu imagine que ao menos uns 25% dos textos escritos em sites masculinos atualmente comecem de uma maneira parecida, vivemos uma época em que o conceito de “homem”, “masculino”, “coisa de macho” vem sendo constantemente repensado. 

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Coisas que antes eram tipicamente masculinas hoje pertencem aos dois gêneros, situações que antes definiam o homem hoje não definem mais nada, atitudes que antigamente eram vistas como “coisa de macho”, a galera meio que mostrou pra gente que eram apenas coisas sem sentido que a gente fazia usando esse lance do cromossomo y como desculpa, e foi chato, não foi legal. 

Agora tá esse climão pesado com todo mundo.

E como sempre acontece em períodos de desconstrução de conceitos, alguns abraçam ideias novas com mais velocidade, outros se apegam mais a concepções antigas e, em muitas ocasiões, as pessoas, por falta de uma ideia central clara a que se apegar, acabam criando alguns vínculos meio fortes demais com algumas noções secundárias. “Homem não pode se depilar”, “homem precisa ser assertivo”, “se você não trata mulher de uma certa forma você não é homem”, “se você na hora do Mario Kart escolhe correr com a Princesa Peach e não com o Mario, você claramente não bate com a minha definição de homem”. 

Como eu disse, são formulações bem, mas bem secundárias mesmo.

Mas mais do que discutir em profundidade as questões de gênero e como hoje em dia talvez nem faça mais sentido a gente se preocupar tanto com a ideia de homem, num mundo cada vez menos binário, cada vez mais plural e onde todo mundo ganha muito mais apenas respeitando o outro do que tentando classificar as pessoas em caixinhas - aceitar sempre vai ser muito mais fácil e te gerar muito mais amigos do que tentar definir - esse texto tem como objetivo lidar com uma questão bem mais simples, bem menos moderna e ao mesmo tempo bem mais ridícula.

O hábito de se esconder atrás da ideia de ser homem para não fazer isso ou conseguir escapar de fazer aquilo

Sim, eu tenho certeza que você já fez ou já viu. Seu amigo que se gabou de não saber “fritar nem um ovo”, seu colega do trabalho que disse que a mulher viajou e ele não tinha a menor ideia de como lavar a roupa, sua namorada que passando mal pediu pra você, que já tava na farmácia, levar também um pacote de absorventes e você reagiu como se ela tivesse te pedido pra atravessar a faixa de Gaza usando uma fantasia de Minion.

Momentos assim, ao mesmo tempo que transmitem uma perturbadora ideia de que nossa masculinidade é tão frágil que ser visto com um pacote de OB pode colocar tudo a perder, assim como fazer uma limpeza de pele é claramente um sinal grave e comprar uma manteiga de cacau é com certeza um checkpoint no caminho do sexo gay desenfreado, deixam claro que talvez, ainda que tendo ali os nossos 30 anos, ainda que tendo ali o nosso emprego, o nosso carro, a gente não é tão adulto assim.

Isso porque, como qualquer rito de passagem de qualquer cultura pode te mostrar, ser adulto é não ser mais dependente, é ser capaz de viver por conta própria, é estar apto a resolver sozinho os seus problemas

Desde os aborígenes que mandam seus filhos para caçar e só consideram homens aqueles que retornam com sucesso até os pais de classe média que mandam seus filhos para os concursos públicos e só consideram homens aqueles que voltam como escriturários da caixa econômica, tudo na formação do homem gira em torno disso: da sua capacidade de prover, de realizar, de cuidar de você mesmo.

Então se você não sabe fritar um ovo, meu amigo, você não está realmente apto a viver uma vida adulta. Se você não é capaz de lavar a sua roupa - e deus sabe que as lavadoras de hoje são complicadas, mas tem sempre tutorial na Internet, eu aprendi a lavar em várias etapas assim - talvez você não esteja pronto pra sair de casa. Se você não é capaz de manter um apartamento de um quarto vagamente limpo ao menos ao ponto dele não começar a gerar espontaneamente outras formas de vida que irão tentar rivalizar e possivelmente suplantar o ser humano residente, você não tá sendo exatamente um homenzinho.

E se você é tão inseguro quanto a você mesmo que a ideia de realizar atividades que possivelmente o seu avô e a galera do gamão dele considerariam “coisa de mulher”, então o caso é ainda mais grave e talvez você ainda vá precisar de mais um bom tempo de estágio antes de ser um adulto, queira se pensar como homem ou não. Se a sua namorada aceitou ver aquele Palmeiras e Flamengo contigo na arquibancada, eu não vejo motivo pra que você não seja capaz de comprar absorventes pra ela por pelo menos um mês.

Aviso: o autor deste texto conhece e reconhece a existência de diaristas, cozinheiras, comida congelada, sites de delivery, tinturarias que buscam em casa e todos os outros recursos e ideias que existem exatamente para que ninguém, seja homem ou mulher, precise desempenhar as atividades domésticas. Mas da mesma maneira que o autor desse texto, mesmo reconhecendo a existência de calculadoras e barcos, considera necessário saber fazer contas e nadar, ele acredita que quanto mais independente você puder ser nessa vida, melhor. Mas, sim, delivery, excelente ideia, nunca vou questionar isso.

Mecenas: Ypê - Vale mais cuidar

 


publicado em 15 de Agosto de 2015, 00:00
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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