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De joelhos (ou "o sabático de bucetas")

Nascemos com uma missão: comer e colecionar o maior número de mulheres em camas, atrás de uma kombi no estacionamento, barracas de camping e banheiros de um muquifo que toca um som decente e com o chão grudento de cerveja e mijo.

E assim vamos, desde os objetivos traçados na primeira punheta até sossegar com uma dessas mulheres que cruzamos. Mas isso tem um custo: ganhamos barriga, perdemos cabelo, traímos amigos e outras tantas mulheres e, invariavelmente, vamos encher o saco e começar tudo de novo. E isso cansa.

...

Mas e se nós, missionários de Adão, pudéssemos deixar de sentir o peso desse fardo por um tempo? Um sabático masculino, no qual fechamos nosso álbum e as figurinhas de lado e vamos brincar de outra coisa. Só por um tempo.

Ontem, enquanto tomava uma Chimay no Empório Sagarana, recebo um whatsapp no iphone: “Tessa, o Chipa voltou pro armário!”.

Caralho, o Chipa tem uns 36 anos hoje, cinco a mais que eu. Nunca foi um cara que completou o álbum, mas não era daqueles que só tinham os cromos que vêm de brinde. Era um cara normal, pronto pra casar. Mas há uns 3 anos, o cara teve um burnout e passou pro outro lado da força. Fez algumas viagens sozinho e, em pouco tempo, começou a namorar um holandês quase duas vezes maior que ele, tanto em altura, quanto em largura.

Porra, o Chipa tinha virado puto. E o mais incrível: acabado de desvirar ontem.

Foram 3 anos de pausa na missão. Três anos de sabático de buceta, levando rola na cama, comendo o rabo do holandês atrás de um carro no estacionamento e, mesmo não curtindo tanto o som dessa vez, chupando um caralho ajoelhado no banheiro de um muquifo. E nessas ele ficou mais magro, começou a pedalar 80km por semana e, até se vestir melhor, o cara começou.

Só sei dizer que não dormi bem com a notícia e a primeira coisa que fiz quando acordei foi ligar pro Chipa. Fazia tempo que a gente não se falava - digamos que o distanciamento das antigas amizades foi necessário para o êxito do sabático - e foi estranho sair do alô: "E aí, cara... como anda essa força... pois é, faz um tempão... aqui tá tudo bem, na mesma... mas, meu, queria falar uma... não, tá tudo bem mesmo... porra, cara, tenho que falar: fiquei sabendo!".

Conversamos por exatos 43 minutos. E, quando desliguei, parecia que tinha tomado um tiro de 44 na alma. Tava com aquela cara de Kevin Spacey no final de K-PAX, completamente catatônico olhando pro horizonte, mas com o que parece ser um sorriso pela metade. Descobri que esse sabático de buceta tinha acontecido com mais gente que eu conhecia e sequer desconfiava - até um primo meu de segundo grau tinha tirado um tempo. Agora eu sabia, entendia e isso era demais para mim. E, acima de tudo, queria que isso me fosse de direito.

Além das consequências físicas, o cumprimento da nossa missão traz junto um progressivo esvaziamento de sentido na alma - pressuponham o que quiserem como alma e, se ainda tiverem dificuldade de entender isso, pensem naquela merda de quinta-feira que o cara se escora na porra dum balcão de bar e a cerveja dura mais do que costumava.

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Sempre vamos procurar a mulher que não foi na próxima. E aí a gente vai comendo para sarar. Mas sempre vai ter outra quinta-feira de merda. Não tem outra, meu velho, o negócio é tirar um tempo. Mas não é fácil dar três tapas na lona e sair do jogo. A não ser que o sabático de buceta seja compreendido como um direito natural de todo homem.

Em outras palavras, que os casos particulares perpassem o limite do individual, sejam assimilados como fenômeno comportamental até chegarem ao status de período fisiológico - como a puberdade para todos nós ou mesmo a menopausa para as mulheres.

Mas fiquem calmos: não estamos questionando nosso heterossexualismo convito.

A cultura anabatista dos Amish, originária da reforma radical, é o melhor paralelo para ilustrar essa certeza de nossa natureza hetero. Mesmo vivendo em uma das sociedades mais fechadas e rígidas do mundo ocidental, os Amish tem o Rumshpringa - um perído que começa nos 16 anos de um jovem anabatista, durante o qual ele pode se afastar da sociedade como conhece e vivenciar tudo o que esta mesma sociedade nega e não oferece, e que termina com sua escolha entre renunciar à sua natureza ou voltar a ser o que era.

A grande maioria - a cifra chega aos 80% - opta pela segunda. Um Rumshpringa foi o que rolou com o Chipa. Um Rumshpringa de Buceta é que todos devemos ter a possibilidade de experimentar. Quando chegarmos nesse estágio evolutivo, seremos livres para chupar uma verga dura sem nenhuma culpa, penetrar um holandês com o do dobro do tamanho da gente ou apenas bater uma pensando no frentista que encheu nosso tanque na Imigrantes. Sem pressão de ser gay, sem frustar nossos coroas e, principalmente, sem uma buceta no nosso caminho.

Assim como o Chipa, precisamos pedalar mais, segurar os cabelos para a última mulher, jogar fora aquela camiseta com as mangas manchadas de desodorante. Precisamos fechar o álbum e deixar as figurinhas de lado.

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Só por um tempo.


publicado em 21 de Outubro de 2012, 22:00
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Bruno Tessa

Bruno Tessa, 31. Nascido em Franca, mudou para Brasília aos 19 para fazer antropologia na UNB. Trancou tudo no sétimo semestre e nunca mais voltou. Vive em São Paulo desde 2004, onde faz alguns bicos de produção e cenografia pra poder beber em paz.


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