Entre Game Of Thrones, literatura e glúten

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Quando você vai ao supermercado, olha as informações nutricionais dos rótulos dos alimentos? Vê o valor calórico? Repara se o pão é integral? Se é livre de glúten? Se o frango foi criado sem hormônios? Se a alface é orgânica?

A preocupação com o que consumimos é cada vez maior. Tanto que são recentes as legislações que obrigam a indústria alimentícia a informar se determinado produto tem componentes transgênicos ou de origem animal.

Se estamos mais atentos ao que consumimos e à forma como são produzidos bens de consumo, por que não dedicamos a mesma preocupação à literatura?

Reparem: as discussões sobre literatura se limitam a livros lidos, autores prediletos, personagens marcantes, passagens inesquecíveis... Discute-se, ainda que de maneira incipiente e numa esfera pessoal, o consumo, e nunca a produção.

Às vezes, algo salta aos olhos e faz com que a produção seja debatida. Recentemente, a imprensa noticiou a mutilação literária na obra de Machado de Assis e outros medalhões das letras. De acordo com a nota da Folha de S.Paulo, a escritora Patrícia Secco emplacou, com ajuda de leis de incentivo, o projeto de "simplificar" clássicos da literatura brasileira. A intenção é tornar as frases mais diretas e substituir palavras por sinônimos que não causem desconforto no cérebro de jovens acostumados a mertiolate que não arde. Por exemplo, "sagacidade" virou "esperteza".

Isso influencia a literatura que o seu filho vai consumir na escola. Isso deve ser de seu interesse.

Por acreditar que a produção literária deve ser tema de discussões sempre, criei a Benedito. Trata-se de uma newsletter semanal que tem a missão de promover a reflexão sobre literatura. É gratuita e sai toda segunda-feira.

Uma das discussões que lancei na última edição foi sobre a moral na literatura. Recentemente, George R.R. Martins concedeu entrevista ao New York Times para se defender das críticas em relação às cenas de violência sexual em sua obra, As Crônicas de Gelo e Fogo, e na adaptação da HBO, Game of Thrones.

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"Meus romances são fantasia épica, mas inspirados e posicionados na História. Estupro e violência sexual têm tomado parte de todas as guerras já ocorridas, dos antigos sumérios aos nossos dias. Omitir isso de uma narrativa centrada em guerra e poder seria fundamentalmente falso e desonesto. (...) Westeros é um lugar sombrio e depravado, mas não mais que o nosso próprio mundo. A História é escrita com sangue."

As críticas em questão (e o fato do autor ter de vir em público para explicar algo óbvio) não são ações isoladas. Se a gente se afastar um pouquinho deste caso e observar o cenário como um todo, veremos que há mais ações que buscam impor limites morais à ficção. Dois exemplos:

1. Em 2010, o Conselho Federal de Educação, vinculado ao Ministério da Educação, emitiu um parecer classificando como racista o livro As Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, de 1933. Apesar do MEC ter rejeitado a opinião do CFE, estados como Mato Grosso e Paraíba tiraram o título da grade curricular. Desde então, outras obras de Monteiro Lobato — que, de fato, flertou com a Klu Klux Klan — viraram alvo de ações, como Negrinha, de 1920.

2. Em 2012, o edital para concessão de bolsas literárias da Fundação Biblioteca Nacional trazia, em seu item 1.2, texto dizendo que os projetos concorrentes sofreriam restrições (ou seja, não seriam aceitos) se tivessem como tema, entre outros, pornografia e discriminação racial ou religiosa.

Racismo, preconceitos de toda sorte e violência sexual são atos que devem sim ser coibidos — e seus autores devem sofrer as penalidades cabíveis. Mas a literatura em si não tem uma moral definida — ou melhor, não tem moral alguma —, apesar de ser (ou justamente por ser), em maior ou menor grau, um simulacro da realidade que contém toda sorte de brutalidade e beleza que a mente humana é capaz de imaginar. Em linhas gerais, a literatura articula-se intimamente à atuação do homem em um determinado momento social, seja ela uma atuação digna de louvor ou de reprovação.

E o que nós, leitores, temos a ver com isso? A resposta é clara. Ao se evitar temáticas ou personagens que escapam à moral vigente, somos vítimas de um certo cinismo.

Imaginemos um universo literário sem escapadas morais: não teríamos boa parte da obra de Nelson Rodrigues, por exemplo. Imaginemos um universo literário sem racismo: como as gerações futuras poderão observar nas obras de ficção produzidas hoje os contornos do preconceito? Não é ignorando problemas sociais na literatura que eles simplesmente vão desaparecer.

As cicatrizes de hoje (na forma de falhas morais traduzidas no papel) servem para que, no futuro, olhemos para elas e pensemos: “somos hoje melhores do que ontem”. E então chegaremos ao ponto em que tais falhas morais serão apenas ficção.

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publicado em 17 de Maio de 2014, 09:05
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Rodolfo Viana

É jornalista. Torce para o Marília Atlético Clube. Gosta quando tira a carta “Conquiste 24 territórios à sua escolha, com pelo menos dois exércitos em cada”. Curte tocar Kenny G fazendo sons com a boca. Já fez brotar um pé de feijão de um pote com algodão. Tem 1,75 de miopia. Bebe para passar o tempo. [Twitter | Facebook]


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