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Escrever é enxergar e entender as pequenices

Miudezas. São elas que dão todos os sabores para uma boa escrita, pra que ela seja lida com mais gosto.

Eu estava, por esses últimos dias, tendo uma conversa acarinhada com o grande Luciano Ribeiro. Nessa fiada, estava confessando para o tal que eu sentia falta, mais que tudo por aqui, de um horizonte em São Paulo, minha Paulicéia discretamente deselegante.

Sobre a minha revelaçãozinha, o aguerrido Luciano teve a gentil pachorra de me jogar nas fuças que lá em tua terra, a bem aventurada Belém do Pará, há um rio que corta algumas terras e que, de lá de um dos lados, há sempre que se ver o horizonte distante e pacífico, sempre disponível.

Do outro lado do rio, lá pros lados de lá, vivem os ribeirinhos.

De acordo com o Wikipedia, os ribeirinhos "são populações tradicionais que residem nas proximidades dos rios e têm a pesca artesanal como principal atividade de subsistência e cultivam pequenos roçados para consumo próprio. Podem praticar também atividades extrativistas".

O subterfúgio foi repentino, imediato. Cá estava o segredo da escrita: Entender a miudeza das palavras, os sentidos que elas ganham quase sem querer.

Esse povo que mora além água poderiam ser chamados de ribeirenses, ribeiranos, ribeiros! Mas não. Eles são os ribeirinhos. A delicadeza em mais alto grau, em estado puro de calmaria e modéstia. Que palavra mais linda.

Na parte mais alta desse Brasil, o artigo também mostra, nessa minúcia desavergonhada, a beleza nas coisinhas bem pequeninas. Não é "o artigo do Jader, a shot do Jader". Por lá, é "o texto de Jader, a casa de Jorge Amado". Parece pouco? Pense com mais brandura.

Trocar o "do" por "de" faz com que caia como tudo que sucumbe à gravidade a posse, a mesquinharia inocente por toda a elevação das coisas. "Aquela é a poesia de Jader" bota o escrito menino num pedestal efêmero, mas tomado de completo aconchego. Assim como os ribeirinhos são vistos, por esse escritor encabulado, como um povo de vida dura sim, mas levada não aos trancos, mas no balanço das águas, no cafuné das folhas das árvores. Felizes são os ribeirinhos. Afortunados são as pessoas como o Luciano, que passa e tem contato visual com os ribeirinhos, com o horizonte, com a minúcia das palavras a completa disposição. Bobo ele se não souber aproveitar.

Escrever é, sem sombra da menor dúvida, saber ser menor que todas essas pequenices que torna a escrita, uma das delícias mais elevadas dessa vida.

(...) não tenho culpa desta chaga, deste cancro, desta ferida, não tenho culpa deste espinho, não tenho culpa desta intumescência, deste inchaço, desta purulência, não tenho culpa deste osso túrgido, e nem da gosma que vaza pelos meus poros, e nem deste visgo recôndito e maldito, não tenho culpa deste sol florido, desta chama alucinada, não tenho culpa do meu delírio.
Lavoura Arcaica - Raduan Nassar

 

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
Mia Couto - Terra sonâmbula

 

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco (...) Mas, não diga o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia.
Guimarães Rosa  - Grande Sertão: Veredas

 

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
.
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
— O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
Manuel Bandeira - Libertinagem/Estrela da Manhã

 


publicado em 23 de Junho de 2012, 07:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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