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Estamos em Casa

Saiu o novo teaser de Star Wars. O adulto assistiu, o menino chorou.


Mais de quinze anos atrás, eu deixei um trailer carregando na internet. Era a época da internet discada e para assistir a um trailer você precisava abri-lo e ir fazer qualquer coisa que durasse uma hora (ou mais) até que ele tivesse carregado totalmente. Era uma tarde e eu estava na minha casa com minha mãe, minha tia e meu primo.

Quando o trailer carregou, eu chamei todos para assistirem. Apaguei as luzes do quarto, fechei a janela... Eu queria transformar meu quarto num cinema antes de apertar o play.

Era o trailer de Episódio I. Na época, não sabíamos que o filme era ruim. E se soubéssemos disso, não nos importaríamos. Episódio I não foi um filme que passamos mais de dez anos para ser feito; foi um filme que passamos mais de dez nos perguntando se ele seria feito.

Desde que eu saí do cinema em Serra Negra, onde estávamos passando férias, após ver O Retorno de Jedi (eu já havia assistido ao primeiro filme, que ainda se chamava Guerra nas Estrelas, e a O Império Contra-Ataca, na televisão), eu queria mais um filme de Star Wars.

E o trailer estava ali, na minha frente. Lembro de falar um palavrão ao ver Darth Maul acionar seu sabre de luz duplo, e ter entrado em choque com a frase “Anakin Skywalker, meet Obi-Wan kenobi”. Minha vida mudou naquele dia. Não me importa se o filme é ruim. Ver aquele trailer foi um dos momentos mais felizes da minha vida.

Lembro que, ali no quarto, eu queria ver nas outras pessoas o que eu estava sentindo. Mas minha mãe disse que o trailer era legal e minha tia disse que parecia ser um filme bacana. Então, corri na direção do moleque.

– Ajude-me, meu primo. Você é minha única esperança.

– Achei legal.

– Legal?!

– Eu não conheço Star Wars. Nunca vi.

Não era culpa dele. Ele cresceu numa época em que Star Wars era algo esquecido, cultuado somente por gente mais velha que ele. Mas algo precisava ser feito. Afinal, a Força é forte na minha família. Eu tenho. Meu pai tem. Meu irmão tem. Meu primo precisava ter.

Coloquei-o na sala e iniciei uma maratona. Na metade de O Império Contra-Ataca a mãe dele surge na sala falando que eles iriam embora, e ele dispara “não, vou dormir aqui, quero terminar de ver esses filmes”.

Missão cumprida. Meses depois, ele entra no cinema ao meu lado para ver Episódio I no dia da estreia.

Mas não era a mesma coisa. Episódio II também não. Episódio III consegue ser um pouco melhor... Mas ainda não era a mesma coisa. Não nos importávamos, claro. Estávamos de volta àquela galáxia distante, onde o mundo parece fazer um pouco mais sentido que na galáxia onde moramos – mas ainda tenho mais carinho pelas vezes que fui ver as edições especiais no cinema e praticamente falei o filme inteiro junto com os atores.

Alguns anos depois de ver estre trailer, os créditos finais de Episódio III sobem pela tela e você pensa “agora, sim, acabou”.

Passei os anos revendo os filmes da saga, lendo os livros do Universo Expandido. Trabalhei com isso, como muitos leitores deste blog sabem; dei palestras em convenções de fãs, entrevistei atores da saga. Sempre com o maior profissionalismo do mundo (menos quando Anthony Daniels falou comigo com a voz do C-3PO, que quase me fez ter uma síncope no meio de uma entrevista). Vi Star Wars atravessar as mídias, indo do VHS para o DVD, do DVD para o Blu-ray (cheguei a brincar com a minha ansiedade para comprar a saga em Blu-ray aqui).

E, todas as vezes que assisto aos filmes – e aqui estou falando, sim da Trilogia Original – eu volto a ser o menino que se encanta com os filmes pela primeira vez. Quero ser Luke Skywalker e ganhar um beijo no rosto da Leia, quero ser o Han Solo e gritar que “certo, garoto, agora explode esse negócio e vamos embora”. Quero salvar a galáxia, que é algo que toda criança dos anos 80 queria fazer. E que é algo que toda criança precisa querer uma vez na vida.

Eu quero salvar a galáxia toda vez que assisto aos filmes. Mas eu sabia que nunca mais salvaria a galáxia de uma forma diferente da que conheço. Eu tinha apenas os três filmes originais que assisto como criança, e os três filmes novos que assisto ou como fã emburrado (vendo apenas os defeitos) ou como fã esperançoso (certo de que tem coisas boas ali). Mais nada.

E aí nós cortamos para hoje. O mundo sabe que um novo filme está sendo feito. O mundo sabe que os atores principais da primeira trilogia voltam. E o mundo sabe que a Millenium Falcon apareceu no primeiro teaser.

Mas foi no teaser lançado hoje que a coisa complicou. Novas cenas. Novas imagens. Novos cenários. Mas é no final do filme que surge um Han Solo envelhecido ao lado do Chewbacca. Eu já havia chorado em trailers antes – o primeiro Homem-Aranha foi a primeira vez, acho. Mas nunca desse jeito. Porque quando Han Solo abre a boca, ele não está falando com Chewbacca.

“Estamos em casa”.

Ele está falando com aquele menino que está eternamente saindo do cinema em Serra Negra querendo ter um sabre de luz e olhando para o céu e se perguntando “será que um dia...?”.

Trinta anos depois, esse menino finalmente está em casa. Navegando pelos planetas que ele se orgulhava de saber o nome de cor. Pilotando as naves que ele pesquisou como funcionavam. Usando armas que ele sabe para que servem. Peitando o Jabba, desviando de asteroides, explodindo a Estrela da Morte, enfrentando o Vader e dizendo que nunca vai para o Lado Negro - que é algo que todo menino precisa fazer um dia.

E foi esse menino que mora dentro de mim que começou a chorar compulsivamente nesse minuto. Nesta cena, eu vi minha vida inteira... Mas eu não sou importante. É este menino que importa. Quando se trata de Star Wars, é apenas ele que importa.

E, nesta única cena do teaser, esse garoto viu que pode sonhar para sempre.

Porque ele não é um garoto. Ele é um herói. Especialmente quando ele está ao lado dos seus velhos amigos.

Especialmente quando ele está em casa, numa galáxia muito distante.

Link Youtube

* * *

Nota do editor: Esse texto foi originalmente publicado no blog Championship Vinyl, do Rob Gordon, o criador dos textos do Adão. Vale a pena conferir.


publicado em 16 de Abril de 2015, 21:10
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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