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Estou pensando em acabar com tudo | Uma análise

Inspirando muitas reflexões, trazemos a crítica do filme e um convite para que você compartilhe suas impressões conosco

Pareidolia é o nome que se dá a uma tendência humana em enxergar significados em coisas que, na verdade, são aleatórias. É, por exemplo, ver Jesus na mancha de mofo da parede ou ouvir uma mensagem secreta no disco girado ao contrário.

Adoramos entender o mundo em que vivemos e, às vezes, vamos longe demais para isso. 

Conta-se uma anedota sobre Carlos Drummond de Andrade que, perguntado sobre o sentido da famosa pedra no meio do caminho, simplesmente teria dito algo como: “tinha uma pedra uai, sou de Itabira, tem muitas delas lá”.

Embora me soe irreal, acho graça nessa história. 

Penso em como artistas devem se divertir ao ver as pessoas lhes atribuindo ideias que eles até queriam ter tido — pois são de fato muito boas —, mas que simplesmente não tiveram quando estavam criando. 

Para mim, não resta dúvida de que Charlie Kaufman, autor do suspense “Estou pensando em acabar com tudo”, emplacou mais uma obra-prima intencionalmente cheia de significados que podem passar despercebidos à primeira vista.

Já vi tantas possíveis interpretações de seu novo filme que me parece improvável que ele tenha pensado em todas elas. Aqui vai a minha. 

É difícil falar de Estou pensando em acabar com tudo sem estragar a experiência de assisti-lo pela primeira vez. E digo “pela primeira vez” porque esse filme é daqueles que, quanto mais assiste, mais detalhes geniais você encontra. Sinceramente, te aconselho a dar o play sem a menor pista do que esperar. 

Se você ainda não viu o suspense, mas foi vencido pela curiosidade de saber mais ou menos do que se trata, fique à vontade até o final do próximo parágrafo.

Esse é o momento de salvar este link em um canto, pausar a leitura e só voltar depois de assistir ao filme

Mas sobre o que é?

A história começa com uma jovem embarcando numa viagem de carro com o namorado rumo à fazenda onde ele cresceu. O casal está junto há algumas semanas e esta será a apresentação dela aos sogros. O trajeto é curto o suficiente para ser um bate-volta, mas longo o bastante para que os dois conversem sobre diversos assuntos. A visita aos pais do rapaz é marcada por acontecimentos insólitos. Os dois, enfim, pegam a estrada de volta e novas situações e diálogos inusitados os aguardam. 

Ao longo de toda a trama, vemos também o dia do zelador de uma escola. Agora, daqui pra frente, se quiser seguir é por sua conta e risco. Então, senta que lá vem spoiler.

Agora, a minha análise:
(com spoiler)

A viagem, a visita aos pais, a curiosa dança nos corredores do colégio e a premiação seguida de um musical, tudo isso é um sonho. E aqui é importante fazer uma distinção entre dois conceitos da literatura que podem nos ajudar: protagonista e foco narrativo. 

O primeiro você já deve conhecer, é o personagem principal. O segundo, a perspectiva a partir da qual a história é contada. Em boa parte dos filmes, os dois coincidem: embarcamos na trama junto do protagonista e vemos aquela realidade sob sua ótica.

Estou pensando em acabar com tudo rompe com essa tradição. É que, embora o casal de namorados coprotagonize o filme, ambos são personagens do sonho do zelador, este sim o foco narrativo. 

Primeiro, é preciso perceber que o filme não é linear. As cenas finais são, na verdade, o começo de tudo. Após um dia de trabalho, o zelador da escola vai para o carro, tem uma crise de angústia possivelmente desencadeada por uma depressão e decide não dar a partida no veículo. Não sabemos exatamente quanto tempo ele permanece ali. Faz muito frio e, possivelmente sofrendo de hipotermia, ele tira as roupas, um comportamento observado em algumas pessoas hipotérmicas conhecido como desnudamento paradoxal. E é nesse estado alucinatório que começa o sonho. Nele, o namorado, Jake, é sua versão mais jovem.

Mas o zelador não parece ter sido exatamente o Jake do sonho. Ao contrário, este é uma idealização, alguém que ele poderia ter sido e não foi. A namorada tampouco parece ser uma pessoa específica, mas uma projeção de várias figuras femininas que passaram por sua vida, sejam elas reais ou personagens fictícias. Uma pista para isso são as várias trocas de nome e figurino da moça e até mesmo sua substituição pela garçonete do filme que o zelador assiste no dia que antecede o sonho. 

Mas como saber o que é real e o que é sonho? 

Logo no início, vemos imagens dos detalhes de uma casa. A câmera passeia lentamente pelos padrões do papel de parede, pela decoração e por vários objetos de costura. Esse efeito zoom nas minúcias do ambiente causa no espectador a sensação de intimidade, como se todas aquelas coisas fossem velhas conhecidas. Mais adiante, somos apresentados a um idoso que vive nessa casa. Essas cenas se alternam com as da viagem do casal Jake e Lucy. Aos poucos, essas duas tramas paralelas vão tomando forma. 

Para distinguir uma da outra, o diretor usa recursos como a paleta de cores, a nitidez e a claridade. Na estética do mundo real, do velho Jake, as imagens são mais focadas e claras, como se iluminadas pela luz natural, sugerindo o dia. Há também uma sensação de observarmos a história de maneira mais objetiva, em terceira pessoa.

Já o sonho é mais escuro, com uma paleta de tons azulados, criando uma atmosfera noturna. Os ângulos da câmera são menos convencionais e, em diversos momentos, temos a sensação de tomar o lugar de uma das personagens, como se presenciássemos a cena em primeira pessoa. A esta altura você nem percebeu, mas já fez uma série de pactos com o diretor sobre o que é o que na história. 

Quando Jake e sua namorada entram na casa, reconhecemos o hall de entrada e o papel de parede das primeiras cenas. Além disso, enquanto espera seus pais descerem, ele diz que, no andar de cima, está o quarto de costura da mãe. Se lembrarmos da máquina, linhas e tecidos mostrados logo no início do filme, matamos a charada de que esta é a casa do velho zelador.

Freud explica

Se você tem alguma familiaridade com a teoria freudiana dos sonhos, deve ter percebido que Kaufman bebeu nessa fonte. Para não deixar dúvida, numa das várias conversas ao longo da viagem, o casal chega a mencionar o pai da psicanálise. Para ele, o sonho é construído com partes de imagens e falas vistas e ouvidas pelo sonhador, sobretudo no dia anterior. Em Estou pensando em acabar com tudo, vemos vários desses resíduos diurnos. 

Quando está a caminho do trabalho, o velho Jake liga o rádio do carro e escuta o locutor do que parece ser uma estação evangélica dizendo “Venha, junte-se a mim…”. Essa fala aparece mais adiante dita com a mesma voz por um porco num outdoor da estrada, um dos primeiros momentos de estranhamento do filme. Assim como esse, vários outros detalhes da vida real se repetem no sonho: o casal que ensaia no corredor da escola, a sorveteria Tulsey Town, os uniformes do zelador que Lucy tira da máquina de lavar… Isso só para citar alguns. 

Agora, veja se reconhece esta situação: o despertador toca de manhã, você desliga, sonha que levanta, toma banho, se veste… E acorda num susto uma hora depois. Seu sonho te enganou para te manter mais tempo dormindo. Ele atuou como um guardião do sono, como afirma Freud. 

Para não sermos acordados por qualquer coisa, nossos sonhos podem inclusive incorporar estímulos externos. Por exemplo, sonhamos com um barulho de água vazando porque, no banheiro, o chuveiro goteja. É assim que, em Estou pensando em acabar com tudo, o frio do mundo real inunda todo o universo onírico. Não seria para menos, o zelador está em estágio avançado de hipotermia.

Outro ponto que chama atenção são os pais de Jake. Não precisa ser psicanalista pra saber que falou em Freud, falou em traumas de infância, sobretudo os relacionados a papai e mamãe. Como uma porta para o inconsciente, sonhos costumam evocar figuras parentais e trazer à tona os sentimentos ambivalentes que nutrimos por essas pessoas. Com o zelador, não é diferente. 

Seja pelos sentimentos intensos que despertam, seja pela atuação impressionante de Toni Collette e David Thewlis, os pais de Jake são figuras centrais nas cenas da fazenda. Mais adiante, na entrega do prêmio, eles também aparecem dirigindo ao filho olhares de admiração e orgulho. 

E isso nos leva ao mais importante na teoria freudiana: o sonho é a realização alucinatória de um desejo. No universo onírico do velho Jake, os anseios de toda uma vida por amor, sucesso profissional e reconhecimento são alcançados e celebrados na curiosa premiação assistida por um plateia de rostos familiares. Seu discurso de agradecimento, a propósito, é idêntico ao de John Nash na cena final de Uma mente brilhante.

Por falar em referências...

O zelador parece ser um leitor ávido e assíduo consumidor de cultura. Isso fica sugerido não só pelo conteúdo das falas em seu sonho, mas também pela presença dos livros em seu quarto de infância na casa dos pais. Estranhamente, essa pode ser a explicação de sua insatisfação com a vida. 

Há nele algo de Madame Bovary. A personagem de Flaubert é uma mulher do início do século XIX que tem acesso a algum estudo. Esse conhecimento permite que ela leia romances e aspire a uma vida parecida com aquelas narrativas, mas não lhe dá ferramentas para, de fato, transformar sua realidade.

Da mesma forma, o velho Jake teve acesso a muitas referências ficcionais do que seria uma vida feliz e tentou se refugiar nessas fantasias. Os livros que leu e os filmes que viu moldaram suas expectativas, afastando-o cada vez mais do real. 

Quem nunca se pegou devaneando com uma vida cheia de conquistas ou com as fotos da primeira viagem com uma paixão que queria postar no Instagram? 

Talvez, sua vida não seja o que os coaches chamariam de um “case de sucesso” e possivelmente o crush com quem sonha em viajar e adotar um cachorro nem saiba seu nome, mas você segue acreditando que um dia encontrará a tal felicidade. É a isso que chamamos esperança, algo que, nas palavras da namorada de Jake, inventamos para lidar com a consciência de que, um dia, vamos morrer.

E qual é a diferença entre uma pessoa que apenas se inspira nas narrativas de felicidade e outra que se refugia nelas sem conseguir adaptá-las ao mundo real? Duas coisas: realismo e condições de alcance dos objetivos. 

A primeira diz respeito a uma capacidade de entender que não existe o tal final feliz, muito menos vida perfeita de Instagram. A segunda é uma combinação de uma série de fatores que te fazem sentir que ainda pode nutrir seus sonhos. Sua condição financeira te permite viver sem medo de não ter onde morar ou o que comer? Sua saúde está em dia? E, o mais importante para o velho Jake, sua idade ainda te dá esperanças de realizar seus sonhos? 

O filme de Kaufman é sobre envelhecer nutrindo aspirações irreais. Ele está alertando você, espectador, sobre a própria forma de arte que produz: “cuidado com o que te ofereço, não acredite nessa fábrica de fantasias”. 

O zelador não conseguiu escapar a essa armadilha. Como vimos, sonhos realizam desejos, que podem ser mais ou menos conscientes. 

Não há dúvida de que o velho Jake desejava uma vida de conquistas. Agora que o mundo real não lhe permite mais essa esperança juvenil, tal como Madame Bovary, seu anseio passa a ser a morte. Ele está pensando em acabar com tudo. 

Toda interpretação é sempre uma tentativa de encontrar padrões e significados que podem muitos bem não existir.

Mas, assim como é impossível “desver” o desenho do dinossauro na nuvem, uma vez que encontramos sentido numa obra de arte, aquilo passa a ser, para nós, a mensagem que o artista quis passar. O mais importante Charlie Kaufman conseguiu: nos fez refletir. 

Filmes que inquietam são sempre os meus preferidos justamente por isso. Nossas conclusões podem ser apenas o disco da Xuxa girado ao contrário ou uma simples pedra no meio do caminho, mas as reflexões já valem por si só. 

E você, o que mais vê em Estou pensando em acabar com tudo? Que reflexões teve ao assistir? Conta pra gente nos comentários. 


publicado em 04 de Dezembro de 2020, 10:06
Monica

Mônica Buccini

Troca qualquer balada por uma maratona de filmes e ama andar no mato. Acredita no poder transformador da arte e fala de livros no @monicabuccini


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