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Homem de camiseta regata: é feio?

Se você já estava sentindo falta dos textos sobre moda, cá estamos.

Ausência justificada com a correria para lançar a nova campanha da minha marca, a Conto Figueira, na semana passada.

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Jabá honesto feito, vamos ao texto!

As famigeradas camisetas regata

Constantemente ouço algumas mulheres falarem mal sobre homens que usam regatas. Por não serem poucas, e por notar que a regata é encarada também por homens como um sinônimo de desleixo e de erro ao se vestir, achei que teríamos aqui um ótimo caso de como a mensagem de uma roupa se sobressai a sua estética.

Analisando alguns dos comentários que já ouvi:

“Só pode na praia ou na academia!”

Marlon Brando em "Um bonde chamado Desejo"
Marlon Brando em "Um bonde chamado Desejo"

Aqui é possível entender que esta peça é encarada como funcional e não como uma peça ritual.

Explico:

Peças Funcionais

Essas peças de roupa serão sempre diretamente ligadas à uma situação ou atividade que exija dela uma boa ergonomia. Podemos colocar nesta categoria as regatas.

Um ótimo exemplo de como percebemos as peças funcionais seriam os relógios à prova d´água. 10, 20, 30 metros, eles costumam ter um alcance muito grande, quando na verdade a imensa maioria não irá submergir mais do que 1,5m em alguma piscina de condomínio.

Sabe porque eles têm esta característica? Associamos esta necessidade a mergulhadores, aventureiros e exploradores. São ofícios que sempre vem acompanhados de adjetivos como “coragem”, “ousadia” e “liderança”.

É claro que usar um relógio a prova d´água não te dará nenhum destes atributos, mas é inegável a força que este apelo exerce em nosso subconsciente.

Com a regata é a mesma coisa. Por ser uma peça que permite a ampla movimentação corporal e também uma ótima ventilação, sempre ligamos a danada a atividades com movimentação física ou momentos de extremo conforto.

Eis aí o início de todo seu desenvolvimento polêmico!

Se fosse só associada à movimentação física, a regata estaria vestindo muito mais gente e em muito mais situações, pois esta qualidade é bastante desejada e está associada a dinamismo e pró atividade. Porém, ao linkarmos a peça ao extremo conforto, criamos uma situação antagônica, pois o conforto está relacionado com características como: morosidade, intimidade e despreocupação.

E é por este razão que, se você vai a algum lugar que não envolva atividade física e está de regata, costuma ouvir da namorada ou de quem quer que seja, que você está muito desleixado.

Peças Rituais

Um pequeno adendo: caracterizo como peças rituais, aquelas que não têm como função principal o relacionamento com o corpo do usuário, mas sim com a situação ou posição social que ele ocupa. Caso de gravatas, ternos, togas e etc.)

E agora vamos a outro comentário que ouço com certa frequência:

“O maior erro dos homens é usar regata pra mostrar os músculos, é cafona e vulgar.”

"Nossa, que vulgar!"
"Nossa, que vulgar!"

Nenhuma peça nasce cafona, brega ou o que quer que seja.

O que faz com que uma peça receba esta característica é somente um fator: o olhar do observador. É a percepção histórica/social da peça que faz com que ela se torne o que quer que seja.

Por isso, quando me perguntam se usar regatas é algo brega, respondo que depende única e exclusivamente de quem você deseja agradar.

A grande maioria das pessoas tem a percepção que a peça traz qualidades pejorativas para quem a esteja as vestindo fora das situações esportivas.

Então, se você quer agradar a maioria, basta que evite seu uso social.

Particularmente, eu uso muitas camisetas regata no dia a dia, normalmente junto com uma camisa aberta de manga curta. É uma boa maneira de conseguir criar sobreposições de roupa no Brasil.

Obs: a sobreposição de roupas é normalmente associada a diversas qualidades positivas que citarei em um artigo futuro.

Quando está muito quente, é só tirar a camisa e pronto. Sensação térmica confortável resolvida.

É prático, confortável e me agrada esteticamente.

E cá estamos, a regata e eu, parte do uniforme do dia quente, frio, chuvoso, seco de São Paulo
E cá estamos, a regata e eu, parte do uniforme do dia quente, frio, chuvoso, seco de São Paulo

Agora, é claro que, ao usar regata, eu estou fazendo com que a maioria das pessoas me veja com algumas características indesejadas que já citei. A opção que faço é me comunicar com uma minoria que irá fazer a mesma leitura que eu ao utilizar a peça.

Estes irão me perceber como alguém bem adaptado ao clima, alheio a opiniões, com personalidade mais forte (por sair da curva comum) e com boa propensão ao vigor físico.

É, claramente, um caso onde acredito ser mais importante: "quem eu quero agradar" do que "quantos eu quero agradar".

E se, por último, me falarem que usar regata é “muita exposição”, tal qual seria para uma mulher sair, onde quer que fosse, de minissaia, me vem logo a pergunta na mente:

Qual é o problema que eu sou para você? Ao avistar alguém vestido com pouca roupa, a pessoa reclama por quê?

Ninguém, ao usar pouca roupa, passa ondas de biscatice que afeta a mulher alheia, não diminui classe social automaticamente, não emana perigos homossexuais. Simplesmente não faz sentido algum alguém achar ruim ou reclamar de alguma pessoa, quem quer que seja, baseado em como ela está se vestindo, principalmente em ambientes públicos.

No caso específico das camisetas regata, a reclamação aparece mais do sexo feminino, o que é uma loucura se pararmos para pensar, já que deveríamos todos estar dentro do mesmo barco.

Assim como regata não é desleixo, minissaia não é convite. Deixa ela em paz, mané. E, consequentemente, deixem eles a vontade, meninas. Esse costuma ser um erro triplo porque -- infelizmente (e temos que cortar isso o quanto antes) -- as mulheres são as que justamente são mais medidas por sua vida ou capacidade sexual do que por suas reais façanhas (pessoais e profissionais).

Além do equívoco acima, uma vida sexual intensa e variada, além de não ser prejudicial pra ninguém, é também algo muito pessoal (além de bem boa). Por fim, se ainda precisamos medir façanhas por gênero, raça ou território, ainda estamos fazendo algo bem estúpido.

Portanto, a todos os gentis cagadores de regra desse mundo, peço que repensem seus comentários e suas certezas. Saibam que, aqui no Brasil, quando você diz que uma pessoa de terno esta mais bem vestida do que uma pessoa de regata, você não está fazendo nenhum comentário estético, mas sim um comentário social.

Você não está enxergando uma roupa, mas sim a mensagem que ela passa.

Pois é amigo, logo você que não ligava pra roupa...

E a vida segue... pra quem tem mais o que fazer
E a vida segue... pra quem tem mais o que fazer

Como de costume, espero que tenha sido útil, ou ao menos, divertido!


publicado em 09 de Setembro de 2013, 21:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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