Homens que não gostam de mulher | Id #37

Mesmo um heterossexual "cabra-macho" pode passar a vida inteira sem o menor interesse real por uma mulher

"Fred, minha pergunta é curta e grossa.

Meu marido parece me tratar de um jeito todo especial quando quer me reconquistar ou transar, mas basta conseguir o que queria e ele volta a se comportar de um jeito distante, estranho ou confuso. Nem parece aquele cara de algumas horas, minutos ou anos atrás.


Mas se eu puxar pela memória ele agiu de um jeito cuidadoso só por um tempo, logo que nos conhecemos, até eu aceitar o namoro e tudo ficar mais seguro.


Quando puxo uma conversa, sinto um interesse inicial falso, mas percebo que ele se entedia e logo muda de assunto e, quando vou perceber, ele já está fazendo outra coisa. Jamais admite que faz isso e se justifica o tempo todo para não aceitar o fato de que nunca teve uma conversa decente comigo.


Estou longe de ser o tipo de mulher mala que quer discutir a relação o tempo todo, falo de vários assuntos.


Por que essa mudança?"

Já ouvi essa queixa com alguma frequência de muitas mulheres com quem converso ou já atendi em consultório. Será duro descobrir o que vou dizer, mas vou estender para outras mulheres que tem o mesmo problema.

Com alguma segurança posso dizer que ele é heterossexual, autoentitulado cabra macho, adorador de vaginas e de corpos femininos, mas tem um "único defeito": ele não gosta de verdade de mulher.

Explico novamente, provavelmente é um cara que apesar de usufruir dos prazeres sexuais que uma mulher pode oferecer, não tem o menor interesse pelo universo psicológico feminino. 

Na cultura em que vivemos, algumas características ficaram mais marcadas em relação aos gêneros e, mesmo que as lutas por igualdade sejam mais que bem vindas e estimuladas, ainda existem certas comarcas que resistem restritas aos universo de gostos, interesses, pautas de conversa e motivação masculino/feminino. Um dia, isso será menos marcado ou até inexistente, mas por hora, ainda opera.

Eu sou o avesso do homem típico, sempre fui o tipo de cara cercado de mulheres, meu pai viajava com muita frequência, e isso me fazia conviver com minha mãe, irmã e primas com mais intensidade. Provavelmente, por ser um menino franzino e introspectivo, eu me sentia bem deslocado com outros meninos e só me aproximava daqueles que tinham o mesmo "estilo de vida".

Isso me fez nutrir uma admiração intensa pela maneira que eu entendia como tipicamente feminina e que me rendeu amizades deliciosas com muitas mulheres diferentes. Acredito que eu aprendi muito sobre elas nessas interações.

Com o tempo, aprendi também a apreciar o universo masculino e me apropriar de áreas abandonadas da minha personalidade, as quais eu renegava por puro preconceito com o machismo típico, afinal, eu ouvia muitos absurdos cometidos por homens ao longo da vida.

Mas sei que grande parte dos homens fizeram o caminho tradicional, mergulharam profundamente na mentalidade masculina e se distanciaram completamente de qualquer tipo de ótica mais "feminina". Com isso, deixaram de trilhar uma via interna, emocional e capaz de lidar com a vida de uma maneira menos rígida.

O ponto crítico desse estilo de vida é que, em algum momento, esse cara terá que se defrontar com sua limitação, seja na hora da paquera, da intimidade emocional, de uma relação de trabalho ou amizade com uma mulher.

Como ele está há anos-luz do que possa interessar uma mulher, ele a vê como um enigma indecifrável e acha tudo bobo, banal, fútil e/ou dramático. Ele nem se dá conta que seu mundo está recheado de coisas semelhantes, mas como são entendidas como coisas de homem, ganham um status elevado de importância, honra e nobreza de interesses.

Como esse cara irá conviver e conversar intimamente com uma mulher depois que namora e casa com ela? Não vai, essa é a resposta.

Por isso, vai encher sua agenda com compromissos com os amigos ou com outros casais de amigos, para poder se reconfortar no convívio com outros homens e evitar o estranho constrangimento de ficar à sós com sua mulher.

Um homem típico nem mesmo desenvolve recursos para contatos mais profundos. Qualquer tom que envolva "como você se sentiu?" ou "explica melhor" será inútil. Ele será generalista e emocionalmente analfabeto, o máximo que dirá é que sente "um troço no peito". Tristeza, medo, desapontamento, não estão no seu vocabulário. Raiva e tesão saem mais fácil porque são emoções vistas como viris, enquanto as outras são fracas.

Eu fiz um percurso híbrido. Com minha curiosidade em relação a amigos homens e mulheres, jamais tive problema em passar férias agradáveis conversando longamente com mulheres que amei. Saber interagir com pessoas que falem de qualquer assunto depende do esforço e disposição para falar das coisas mais banais até as mais profundas e densas. Aprendi, por exemplo, a não me constranger nem com o esmalte da OPI ou sobre a bolsa de valores, até de futebol – que não me interesso muito – eu converso.

O cara que não gosta de mulher sempre terá algum entretenimento para se distrair quando chegar em casa. Qualquer coisa que não seja a intimidade olho no olho.

"Perder" tempo conversando com ela? Ele não aprecia ou entende (e não quer entender) nada sobre o que uma mulher tem a dizer.

Quando confrontado, esse cara vai argumentar, "mas não dá para dizer certas coisas para sua mulher, por isso não falo nada".

Exato, isso só comprova que tudo o que esse ele é capaz de dizer se restringe às temáticas que excluam ou objetifiquem as mulheres. Certamente, ele não gostaria de ouvir sua mulher falando "nossa, meu chefe é tão gostoso, quando ele passou com aquela calça caqui apertada eu quase dei um beliscão", mas o ponto é que as mulheres tem um repertório de assunto e uma percepção mais apurada da realidade, assim, nunca conseguiriam se deter apenas nesse tipo de assunto.

Claro, que existem as mulheres pouco preparadas para variar o tema, mas mesmo essas, tem um cardápio mais vasto que um homem que costuma navegar no tripé dinheiro-esporte-mulher.

Se seu namorado não conversa com você, é bem provável que ele não goste de mulher.

Então, você precisa lidar com isso, seja educando ele a ampliar o repertório temático e emocional (sem guerra) ou se conformar que daquele cara não sairá um olhar de interesse legítimo em relação à você.

E tudo "bem", se você topar seguir desse jeito.

* * *

Nota: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br.


publicado em 15 de Janeiro de 2015, 17:07
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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