Jack White, Jimi Hendrix e Alan Moore: não faz sentido se orgulhar

No fazer artístico é especialmente fácil observar pessoas se envaidecendo. Quem convive com artistas acaba percebendo o quanto pode ser viciosa a postura de pedir por mais atenção, vangloriar-se e direcionar a atenção dos outros aos próprios feitos. A questão é que, infelizmente, este não é um vício pertinente apenas a quem se dedica à arte. Nós fazemos isso o tempo todo, em maior ou menor grau.

Por um acaso, encontrei esta entrevista do Jack White no Youtube. No vídeo, quem está entrevistando pergunta se ele já tinha ouvido as pessoas cantando Seven Nation Army nos estádios de futebol europeus.

Puta motivo para se orgulhar. Não é qualquer um que chega ao ponto de ter uma composição sua tão enraizada no folclore popular, tornando-a um hino cantado por milhares de pessoas em uníssono. Ainda mais em uma ocasião onde ele próprio não está se fazendo presente, como em um show.

A resposta, no entanto, me surpreendeu.

Traduzi livremente o trecho que nos interessa nesta entrevista, para os que têm alguma dificuldade com o inglês. Mas recomendo fortemente para os que têm mais desenvoltura com a língua que parem por alguns minutos e vejam o vídeo na íntegra. Há algumas falas bem boas ali.

Link Youtube | Pode dar o play, ele fala do nosso assunto logo no começo

Pergunta: Você se sente orgulhoso quando ouve [Seven Nation Army sendo cantada nos estádios]?
Jack White: Sim, mas, sabe... isso é parte do processo, a música já está lá no ar ou qualquer coisa assim. Você apenas... meio que a ajuda a existir. Você a administra ou a direciona ou aponta para onde ela supostamente deve ir ou algo assim. Você realmente não pega egocentricamente a glória interna ou crédito por qualquer das canções que vêm pelo estúdio ou pela sua presença. Você apenas está lá para ajudá-las a existir.
Pergunta: Você apenas está lá para fazê-las existir? Como assim?
Jack White: De certa forma as canções já estão lá. Quando alguém diz "eu escrevi essa canção", isso não é totalmente verdade. O melhor que eu acho que posso fazer quando estou escrevendo uma canção é me posicionar fora do caminho. Não dizer tanto o que ela deve fazer. Não dizer "ela deve mudar aqui", "vou fazer isso", "esta vai ser uma canção country", "esta vai ser um rock'n roll". Ela já existe, ela já aconteceu, apenas afaste-se. Quanto mais você se afasta, mais ela existe e melhor a canção é. E é difícil tomar crédito por isso.

Achei muito interessante e verdadeira a postura. E acabei tomando a liberdade de estender este raciocínio a outros setores da vida que não apenas a criação artística.

Isto me levou a lembrar de uma fala de Alan Moore, no documentário Mindscape of Alan Moore:

“Deixar o meu trabalho e começar minha carreira como escritor foi um tremendo risco. Aquilo foi como um salto do precipício, um tiro no escuro. Mas qualquer coisa que tem valor nas nossas vidas – seja uma carreira, uma obra de arte, uma relação – começará sempre como num salto desses. E para estar capacitado a dá-lo, você tem que deixar de lado o medo de cair e o desejo de obter êxito. Tem que fazer essas coisas completamente puras, sem medo, sem desejo. Por que as coisas que fazemos sem luxúria ou ambições são as mais puras ações que podemos fazer.

É impressionante como realmente achamos que somos donos das ideias e dos posteriores resultados que possam vir a tomar a forma de ação. E me impressiona mais ainda como, sempre que fazemos isso, de certa forma estamos obstaculizando a exata coisa que nos permite acessar estas ideias e ações mais profundas.

É como se, sempre que nos orgulhamos de algo, perdêssemos o mérito que torna esse algo possível.

Em outra entrevista, Jimi Hendrix fala sobre como encara elogios.

Link Youtube | Jimi Hendrix começa em 7:12 e fala sobre elogios em 10:15

Pergunta: O que você gosta de ouvir quando as pessoas vêm depois de um concerto? Que tipo de elogios você gosta de ouvir?
Jimi Hendrix: Eu não vivo realmente nos elogios. Na verdade, eles são uma forma de me distrair. Eu conheço um monte de músicos, artistas por aí que ouvem elogios e pensam 'uau, eu devo estar fazendo algo realmente grande' e então eles ficam gordos e satisfeitos e se perdem e esquecem sobre seus talentos e começam a viver em outro mundo.

É verdade que muitos dos nossos feitos vêm acompanhados de uma camada de orgulho. Mesmo as coisas mais simples e básicas, como preparar um almoço, em geral, trazem consigo aquele desejo velado de se ver reconhecido. Você quer ter seu nome vinculado àquilo, se é bom, e acaba esperando algum elogio, uma expressão de aprovação, qualquer coisa que o faça se sentir especial por ter realizado o que quer que tenha feito.

É justo, se você fez, merece que os outros saibam e reconheçam, certo? Não, eu não afirmaria isso tão rápido. O problema, pelo que observo, começa a surgir quando o desejo orgulhoso por reconhecimento se torna pré-requisito para qualquer movimento. Ou quando gera revolta não ter esses olhares de aprovação direcionados para si. Ou seja, quando ele vira mais um ruído, mais uma distração e tira nosso pé do chão.

Algumas pessoas, de alguma forma, conseguem diminuir esta tensão que nos torna seres famintos. Eles desenvolvem um foco que é outro, não apenas o desejo de serem olhados. E, por tirarem da frente estes ruídos, acabam se tornando veículos. Não criadores de algo maravilhoso. Não gênios em um olimpo distante. Apenas veículos de qualidades, ideias e ações que estão aí, no ar, para quem conseguir acessá-las.

Essas pessoas não se sentem donas daquilo que vem pelas suas mãos. Eles aprendem que é melhor não olhar para trás, para os lados (enquanto verificam o que os outros estão pensando) ou para a sua própria imagem enquanto agem. Eles já sacaram que não vamos muito longe sozinhos, que as ações que geramos por controle são pequenas e não conseguem ultrapassar nosso restrito foco.

Claro que Jack White, Jimi Hendrix e Alan Moore podem ser considerados gênios. Mas ainda assim, talvez não sejam os exemplos mais elevados que podemos citar. O que me deixa feliz ao vê-los é observar o quanto podemos ser úteis quando abrimos mão – um pouco que seja – da mentezinha arrogante e infantil que quer "deixar sua marca no mundo", mas que no fundo, está apenas disfarçando o fato de que quer mesmo é ter um séquito de adoradores, assegurando aos seus próprios olhos que não é mais um desses seres que vai morrer e ser esquecido como todos os outros.


publicado em 13 de Janeiro de 2013, 01:48
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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