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Longe da árvore | O que Andrew Solomon ensina sobre paternidade, amor e diversidade?

Em entrevista exclusiva, o escritor americano fala sobre seu documentário: uma investigação sobre amor e parentalidade fora das expectativas.

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Se você pudesse imaginar como seriam seus filhos? O que viria a sua cabeça? E se a realidade se revelasse muito diferente do imaginado?

Como os pais lidam com filhos que não são exatamente como eles idealizaram? Como os filhos lidam com pais tão diferentes de si? Quais são as histórias das maçãs que caem longe da árvore?

Este é o tema do documentário Longe da Árvore (2019), produzido pelo aclamado escritor Andrew Solomon e dirigido por Rachel Dretzin.

O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros e nós, do PdH, tivemos a honra e a oportunidade de conversar pessoalmente com Solomon.

Longe da Árvore é um retrato de família diferentes, diversas e incomuns. O documentário conta a trajetória pessoal de Andrew — que fugiu da expectativa dos pais ao se assumir gay — e reúne outras famílias, incluindo um rapaz com Síndrome de Down, um casal de anões, um garoto com autismo e até mesmo a história de uma família cujo filho está preso por assassinato.

A conversa com Andrew rendeu profundas lições sobre paternidade, amor e aceitação da diferença. Aqui você vai conferir a entrevista completa, mas antes, quer dar uma olhada no trailer do filme?

 

Vamos a entrevista:

PdH: No começo do filme você fala como a jornada da pesquisa te ajudou a fazer as pazes com seus pais de alguma maneira. Como essa jornada também mudou sua forma de ser pai?

A.S.: Eu acho que escrever o livro (e eu digo isso no filme) me deixou mais seguro sobre ter filhos. Eu estive preocupado “E se eu tiver filhos, e eles forem difíceis, e eu não os amar?”.

Quando eu passei pela experiência de fazer o livro e o filme eu vi “Okay, eu provavelmente vou amá-los independente do que acontecer”. 

Como afetou o jeito que eu sou como um pai?

Eu acho que eu percebi que amar seu filhos não é o suficiente. É preciso aceitar seus filhos por quem eles são. Apesar do amor despontar facilmente nos pais quando nascem as crianças,  aceitação exige esforço.

Você precisa se esforçar para ver seus filhos claramente e você tem que trabalhar para entender que “em alguns aspectos meus filhos não são exatamente como eu gostaria que fossem — se eu tivesse que responder um questionários de múltipla escolha sobre como eu espero que eles sejam — mas meu filho é meu filho e eu preciso fazer com que ele se sinta bem com quem ele é.”

Eu acho que ser pai envolve dois atos: Um é mudar seus filhos. É preciso mudar seus filhos, ensiná-los boas maneiras, valores morais.

E o outro ato é aceitar seus filhos. Fazer com que eles se sintam as pessoas mais incríveis do mundo. Deixá-los saber que, o que quer que eles façam, quem quer que eles sejam, você pode ficar bravo, você pode ficar chateado, mas você sempre irá amá-lo e admirá-lo por quem ele é.

Acredito que o processo fez de mim um pai mais tolerante.

Andrew Solomon em sua visita pelo Brasil e esta editora que aqui vos fala.

PdH: No filme, notamos que as mães expressam muito sua culpa: “o que eu fiz de errado?”. Pensando na pesquisa mais extensa, você diria que essa culpa se nota mais na mães, ou aparece de igual maneira em mães e pais? 

A.S.: Eu acho que pais e mães sentem muita culpa. É difícil generalizar, mas eu diria que, no geral, olhando para todas estas famílias, as mães fazem mais o trabalho emocional de dizer “Nós vamos amar essa crianças assim como qualquer outra criança”.

Os pais, muitas vezes, fazem o trabalho prático de arrumar uma cadeira de rodas, ir atrás dos serviços… É um visão dos termos gerais, mas nem sempre é assim.

É muito impactante olhar para a família do Travor, o rapaz do filme que é um assassino, e o pai dele diz “quando eu descobri eu quis me matar. Mas então eu percebi que minha família precisava de mim e eu não poderia fazer isso.”

A mãe nunca pensou em se matar, ela sabia desde o começo que esta não era uma opção, que ela tinha outros filhos e que precisava estar lá para eles. Isso foi muito impactante. Acredito que os dois amam os filhos, ambos querem o melhor para os filhos, mas o pai precisou passar por um processo maior para entender a situação.

A partir disso eu penso que os pais precisam passar por estes processos, mas quando eles passam — quando eles saem do outro lado deste túnel — eles se revelam incrivelmente fortes e dispostos a estar lá para os seus filhos. 

Andrew, seu marido e seu filho.

PdH: É um processo árduo. Nós percebemos isso no PapodeHomem. Os homens tem dificuldade de se abrir com outros. Recentemente lançamos o “Silêncio dos Homens”, falando sobre masculinidades, transformação dos homens e saúde mental.

Eu acho que os homens, frequentemente, tendem a expressar sua depressão e o seu estado mental de maneira diferente das mulheres. Quando eu estive no Minessota, trabalhando com juventude carcerária condenada por crimes graves, conforme eu falava com estes adolescentes, muitos expressavam que fizeram o que fizeram porque estavam deprimidos sobre uma série de coisas. 

Em algum nível, é mais provável que mulheres expressem sua depressão a través da tristeza enquanto homens são mais inclinados a responder com violência na tentativa de lidar com a sua existência.

Eu lidei com muitos destes jovens e eu acredito, diferente do que tem sido feito nos EUA, que, se conseguirmos lidar e tratar a depressão, conseguiremos nos livrar também da violência.

Trancá-los e tratá-los com crueldade só vai torná-los pior.

PdH: Este é um dos nossos pontos centrais do documentário... Mas falando sobre criminalidade. Você foi questionado por incluir um rapaz que cometeu um assassinato ao lado de outras diferenças. Como foi o processo de fazer esta escolha e como você encara a crítica que vem com esta escolha?

A.S.: Muito do filme, e também do livro, é sobre a habilidade dos pais de amar seus filhos sob qualquer circunstância... E eu pensei que não há nada mais difícil que amar um filho que cometeu crime terrível. 

Eu pude entrevistar a família do Dylan Klebold, o rapaz responsável pelo pelo massacre de Columbine. Eu estava jantando com a mãe dele em Denver e ela me disse:

“Quando aconteceu eu desejei que eu nunca tivesse tido filhos. Se eu não tivesse conhecido o Tom, não teríamos nos casado, não teríamos tidos filhos e esse ato terrível não teria acontecido. Mas com o tempo eu senti que eu tive filhos que eu amo tanto, que eu não gostaria de imaginar uma vida sem eles. Mesmo sabendo do custo desta dor. Quando eu digo isso eu estou falando sobre a minha própria dor, não a das outras mães, mas a vida é cheia de sofrimento e este é o meu. Mesmo sabendo que seria melhor para o mundo que o Dylan nunca tivesse nascido, eu decidi que isso não teria sido o melhor para mim”

A percepção de que mesmo nas circunstâncias mais adversas o amor dos pais continua lá, e que a conexão entre pais e filhos continuam lá, me parece uma prova de que há algo muito fundamental sobre paternidade. 

Algumas pessoas amam esta parte, algumas pessoas acham que não encaixa.

PdH: Diferente do livro — que toca em temas duros de serem lidos,  como tortura e violência por intolerância — o documentário traz um tom mais leve, tocando em assuntos complicados com delicadeza e familiaridade. Por isso, queríamos saber, como foi o processo de escolher o que iria do livro para o documentário? O que guiou suas escolhas?

A.S.: Em primeiro lugar, quando você está escrevendo um livro, você precisa achar pessoas com quem algo interessante tenha acontecido e que possa te contar sobre. Quando você está fazendo um filme, você precisa encontrar pessoas com quem algo interessante esteja acontecendo, para que você possa acompanhar o processo. 

Só uma família do livro está no filme: os Kingsley, Emily Kingsley e seu filho Jason, que tem Síndrome de Down.

O livro tem 300 famílias e o filme tem cinco famílias. É bem diferente. Nós queríamos um grupo de pessoas que formassem uma constelação, ao invés de ter histórias parecidas umas com as outras. Esse foi o nosso norte e acabou que muitas pessoas não foram inclusas no filme.

Nós queríamos ter foco e queríamos que as famílias que entrassem para o filme pudesse estar tempo suficiente na tela, para que pessoas, aos assistir, pudessem criar uma relação com elas e se importar com o que estava acontecendo. Isso era mais importante do que ter mais gente na tela, passando rapidamente por você.

PdH: No processo de escolha das família, o que você gostaria que estivesse dentro do filme, mas que na edição acabou sendo deixado de lado?

A.S.: "Começamos a entrevistar algumas pessoas transgêneras — e eu tenho interesse em falar sobre os direitos de transgêneros. O direito de transgênero tem progredido, a conversa sobre o tema está avançada, mas eles também estão sendo terrivelmente prejudicados nos EUA.

Claramente, há uma alta taxa de homicídio de pessoas transgêneras aqui no Brasil (temos um alto nível também nos EUA, mas o do Brasil é maior), então eu achei que era uma história importante a ser contada. No entanto, este é um tema que está em alta, tem diversos filmes sendo lançados falando sobre isso e, consultando a diretora do filme, entendemos que talvez houvessem outros pontos que sejam importante nesse momento.

Eu fiquei muito interessado em falar sobre esquizofrenia, mas as histórias de esquizofrenia não tem um final tão “redentor” quanto as outras dos filmes. Eu escrevi sobre isso no livro…

Nós escolhemos as pessoas que sentimos que contaram melhor suas histórias. E até certo ponto isso foi pela condição em que elas estavam, mas por outro lado até mais importante, era por elas serem as pessoas quem eram. Eram pessoas capazes de articular e expressar suas experiências (e nós falamos com diversas pessoas que não eram capazes de articular suas experiências da mesma maneira)."

PdH: Aproveitando a menção ao Trump, o que você gostaria que a sua vinda ao Brasil representasse, diante da situação atual da política brasileira?

A.S.:Vivemos numa era de intolerância imensa. Intolerância que era inicialmente focada nos imigrantes, mas que se estendeu, de diversas maneiras, para a intolerância de raça, misoginias e todas essas formas de ser intolerante a pessoas que são diferentes.

A mensagens do livro e do filme é que diferenças que são estigmatizadas possuem sua própria beleza... E que se formos capazes de olhar para elas da maneira correta, você pode encontrar grandes significados nas experiências de todas estas diferentes formas de ser diferente.

Isso sempre foi uma mensagem importante a ser passada. Mas agora, com o Trump, o Bolsonaro e outras pessoas ao redor do globo, cresce um movimento de intolerância declarada.

E minha grande esperança para o filme (mesmo sabendo que eu não serei capaz de fazer isso em larga escala) é que algumas pessoas que o vejam, saiam e, ao ver alguém que é diferente, se sintam mais compassivas diante dessas pessoas e, então, vão passar a tratá-las um pouco melhor e ficarão um pouco menos temerosas ao ver formas de diferenças que achavam repulsivas ou intimidadoras.

PdH: Bem, isso aconteceu comigo. Vendo o filme eu percebi que algo que eu não sabia que era possível, era. E isso mudou minha visão sobre a condição da Síndrome de Down. Essa, inclusive, foi minha parte favorita do filme. Agora eu gostaria que você me dissesse qual a sua parte favorita.

A.S.: Hum… eu estive tão imerso no filme todo que é difícil escolher uma parte favorita. Há verdades em todas as histórias. Eu tenho que dizer (sob o risco de parecer pomposo) que eu amo a cena da árvore de natal na minha casa, com meus filhos e os filhos do meu marido e todos nós juntos. Eu sinto quando meus filhos forem bem mais velhos eles poderão olhar pra aquilo e entender quem éramos todos nós juntos.

Andrew e sua grande família

PdH: Nós vemos no filme a importância das pessoas encontrarem um grupo que se pareça consigo. Como balancear a necessidade de pertencer a um grupo específico com a necessidade de sentir-se incluído no mundo em geral?

A.S.:Pessoas que têm diferenças de qualquer tipo pertencem a dois mundos, e elas tem que ter um pé em cada um deles. Elas precisam pertencer ao mundo mais amplo e sentir-se conectadas com ele, mas elas precisam ter pessoas que se parecem com elas, que possam entendê-las e se conectar com elas. 

Olhando para a minha própria vida: eu queria pertencer ao mundo mais amplos, e três dos meus amigos mais próximos eram héterossexuais. Mas eu também precisava ter amigos gays que estivessem passando por experiências como a minha. Acho que seu eu não os tivesse, eu me sentiria isolado e solitário. E eu acho que o mesmo se aplica em qualquer uma destas condições.

Sabe, algumas pessoas sentem que, em um círculo, podem se expressar, mas, no outro, precisam se conter. Que aqui podem ser assim, mas lá tem de ser assado. O objetivo maior é ser capaz de ser você mesmo o tempo todo. Poder ter privacidade, mas não ter de manter segredo.

* * * 

Sobre o Andrew Solomon

Já ouviu falar no "Demônio do Meio-Dia"? Neste livro, Andrew Solomon, juntou informações científicas a sua história pessoal mostrando, no detalhe, alguns aspectos da depressão que não eram vistos. Solomon foi o responsável por mudar a visão de muita gente sobre a depressão, principalmente, daqueles que estavam passando por uma.

Em 2012, Andrew lança sua nova empreitada depois de 10 anos de pesquisa, o livro "Longe da Árvore: pais, filhos e a procura pela identidade" (Far from the Tree:Parents, Children and the Search for Identity, 2012). 

A partir do livro, Solomon entrou em uma nova jornada e produziu o documentário Longe da Árvore, 2019, dirigido por Rachel Dretzin.

O longa estreou no Brasil semana passada e está em exibição nos cinemas. 


publicado em 01 de Outubro de 2019, 05:30
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Gabriella Feola

Editora do Papo de Homem e autora do livro "Amulherar-se" . Atualmente também sou mestranda da ECA USP, pesquisando a comunicação da sexualidade nas redes e curso segunda graduação, em psicologia.


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