Não sei receber críticas | ID #60

"Basta alguém discordar de mim, ou apontar algum comportamento errado meu que fico puto."

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"E aí, Fred?

Quero falar de um lance muito chato que rola comigo, mas imagino que deve ser algo comum entre os homens, pelo menos vejo isso com meus amigos. Eu não me acho muito mimado, mas toda vez que uma pessoa (de preferência minha namorada e meu pai) me faz algum tipo de crítica - e não importa se é útil ou construtiva - eu sinto um calor subindo pelo corpo e não me seguro e retruco.

O mesmo acontece com comentários em internet, basta alguém discordar de mim, ou apontar algum comportamento errado meu que fico puto. Às vezes levo a discussão para o infinito só para não dar o braço a torcer.

Sei que isso é errado e quero ser mais aberto, mas é difícil.

Saraivinha,"

Caro Saraiva,

Em matéria de receber críticas, nós, homens, costumamos ser educados numa perspectiva heroica, de indestrutibilidade e invencibilidade. Muito da nossa identidade gira em torno do sucesso e fracasso. Isso, ao mesmo tempo que nos coloca em posições de competitividade mais acirrada também nos deixa com inúmeros pontos cegos quando chega a hora de fracassar, errar, broxar, perder dinheiro, prestígio e status.

O que aparentemente nos fortalece também é o que nos mata.

Não fomos educados a mudar

Em geral, tentamos manter certa coerência interna, um alinhamento com uma narrativa que viemos construindo ao longo da vida. Por exemplo, se fomos bebês saudáveis e fortes, queremos seguir contando essa historinha a vida inteira, mesmo se estivermos acamados ou com saúde abalada.

Quando surge uma crítica ou algo que vá contra essa narrativa, é como se fosse uma bomba de luz, evidenciando as incoerências. A reação automática é se voltar contra quem chamou atenção nessa direção.

Diante da má notícia entregue pelo correio, batemos no carteiro, nos concentramos no mensageiro e não na mensagem. É como quem dá uma topada no pé da mesa e briga com ela, o que soa ridículo, mas é o que fazemos.

Mas não precisa ser assim.

Críticas podem ser vistas como um convite à reflexão, com o potencial de implodir um comportamento que lá no fundo nós mesmos já notamos ser danoso - mas que desistimos de transformar.

Quando vemos um filme do 007 vemos ele dirigir alucinadamente por uma cidade inteira, achamos lindo, mas quando é preciso ter a mesma agilidade para mudar de rota em nossas vida, estacionamos o carro sem arredar o pé.

A mudança parece nos aborrecer como se denunciasse alguma fraqueza, incoerência ou comportamento volúvel.

Não fomos educados a nos sentir frágeis

Frágil? Eu?

Como homens, ao contrário do senso comum, temos repentes mais sonhadores do que práticos, somos os primeiros a achar que a aventura nunca vai incidir em nenhum erro. Essa predisposição ao jogo ganho é bem incentivada na perspectiva heroica masculina.

O erro, portanto, expõe nossa cegueira funcional. E dói notar que estamos completamente perdidos no meio da floresta. 

Dizer coisas como "não sei", "não deu para mim", "me perdi no meio do caminho", "está pesado, vou desistir" parece um cenário impossível.

Longe de ser um problema fundamental, a fragilidade nos torna mais perceptivos e vivos para o que nos cerca e para a possibilidade de corrigir a rota.

Não fomos educados a lidar com as perdas

Há uma confusão gigantesca que fazemos ao longo da vida que é misturar nossas opiniões e gostos com aquilo que somos.

Na prateleira de nossas predileções sensoriais e intelectuais já tivemos coisas das quais hoje até nos envergonharíamos, mas à época eram tão nossas e tão certas que mostrávamos com orgulho.

Gosto de checar meus antigos textos ou comentários espalhados pela internet e ver como a minha forma de enxergar o mundo foi se tornando mais acolhedora, menos certa de si e nem por isso menos efetiva.

Assim como meu "eu" passado foi diluído no atual, meu "eu" atual tem seus dias contados. Perder algo no que se acredita não é perder a si mesmo.

Na prática, isso quer dizer que frases imperativas poderiam dar lugar a outras como "me parece que", "o que eu consigo alcançar por enquanto é isso", "tudo indica agora esse caminho", simplesmente para nos fazer lembrar que não há nenhum jogo ganho. 

Em última instância, podemos mudar sem nos sentir contraditórios, hipócritas ou traidores das nossas convicções.

Quanto mais robusta é uma personalidade, menos resistências ela tem a render-se ao novo.

É preciso um cuidado

Apesar das críticas serem um alerta para os pontos-cegos é preciso três cuidados especiais sobre a crítica que vem dos outros:

1. Avaliar o grau de intimidade da pessoa e o peso da sua opinião. Imagine uma figura pública se desestruturando por cada percepção enviesada que se pode ter dela.

2. Saber exatamente a fatia da identidade que ela está apontando. Como seres complexos, é preciso salvaguardar a inteireza da identidade para renovar uma parte específica que está sendo criticada.

3. Sob qual perspectiva ela está olhando. Não custa saber se há um interesse oculto que torna tendenciosa a opinião do outro.

Não precisamos aspirar nunca mais nos enganar ou cometer erros. Mas diminuir a idealização extrema que fazemos de nós mesmos e nossas possibilidades de ação já ajuda bastante.

Quanto mais realistas e compassivos formos com a nossa mortalidade e falibilidade, mais flexíveis seremos. Afinal, para um ego gigantesco e autoiludido até um abraço apertado pode soar como crítica.

* * *

Nota: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 23 de Junho de 2016, 17:13
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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