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Não sou mais tão esperta quanto era | ID #17

Olá Frederico,
Venho procurando alguém que me diga porque não consigo mais ser a menina esperta que era antes. Atualmente, ando tomando anti-depressivos e calmantes, e qualquer discussão ou situação mais forte me abala completamente.
Reflito muito sobre todas as questões que estão ao meu redor e isso me deixa muito mal. Além disso, percebi há muito tempo que comecei a perder minha habilidade social, meu desempenho acadêmico vem caindo cada vez mais. Eu me vejo afundando e não sei o que fazer para me levantar. Sei, por exemplo, que procrastino muito, mas não consigo mudar isso.
Vi um texto seu que diz que se não mudamos, é porque não queremos de fato e porque estamos acomodados. Eu não sei se isso se encaixa a mim, uma vez que sofro muito com isso. Isso se reflete na minha vida acadêmica e, se ela não vai bem, minha auto-estima se torna algo quase inexistente.
Dentre as mudanças que mais me abalaram foi a minha "agilidade" com determinados conteúdos, por exemplo: para resolver um problema matemático, você deve desenvolver um raciocínio que o leve ao resultado.
Quando mais jovem esse raciocínio me era natural. Hoje, já não consigo mais o desenvolver, assim como a memória, a atenção e a concentração. Eu tenho 18 anos, já faço faculdade e estou muito preocupada com os resultados que esses problemas me trazem, bem como com os motivos deles existirem.
Se souber/puder me dizer algo que esclareça isso, eu seria eternamente grata! Seu blog é incrível, por favor, mantenha-o para sempre!
Att,

Minha querida universitária,

Já falei um pouco sobre pessoas que vivem em tempos psicológicos diferentes e não conseguem parar de idealizar a infância, a adolescência ou o dia de ontem, como se tudo o que passou soasse mais bonito, alegre, produtivo e festivo.

É muito natural e até confortável imaginar que uma época passada era melhor do que a atual, afinal o nível de complexidade da infância ou da primeira série é sempre menor do que o da vida de um adulto. As capacidades que tínhamos antes nem sempre atendem à nova demanda. Isso faz surgir a sensação de que nunca estaremos confortáveis com o desafio do presente e por isso passamos a preferir o que já passou, ali está tudo garantido.

Seguindo essa lógica de valorizar o passado, quando olhar para trás no futuro, há uma chance de que se lembre romanticamente de quem você é hoje, mesmo com todos os problemas que está enxergando e estão trazendo aflição.

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A autoestima é uma impressão dinâmica que precisa de validação constante e nem sempre isso pode ser obtido. O abalo surge quando você não consegue sustentar a visão romântica que tem das suas habilidades. E isso sempre vai acontecer, enquanto estiver olhando desta forma.

Se usar o passado como referencial de qual altura é preciso levantar sua peteca, estará sempre psicologicamente fragilizada.

De onde vem a motivação

Abraham Maslow, psicólogo americano, estudou durante anos o que fazia as pessoas seguirem em frente, identificou um padrão e criou uma hierarquia de valores que ficou conhecida como a pirâmide de Maslow.

Basicamente, o que a teoria diz é que se suas necessidades já superaram a escalada de sobrevivência, segurança e afeto que partem da escassez, provavelmente já entrou no campo das necessidades prospectivas, ou seja, que dependem de fatores mais complexos e não são movidas pelo medo de não ter suas necessidades básicas atendidas.

Nessa dimensão a pessoa se movimenta não porque falta algo, mas porque deseja ver melhorias no seu mundo, ainda que não seja afetado por problemas imediatos e urgentes.

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No entanto, existe a possibilidade de que alguma coisa esteja bloqueando o surgimento do ânimo para se focar em atividades criativas, construtivas ou reflexivas, como os estudos.

Pode ser que a gente acredite que precisa de uma mensagem ou qualquer incentivo extrínseco, como dinheiro ou elogios. O problema é que isso provavelmente não se sustentará num dia especialmente ruim. Não que esses combustíveis não sejam úteis e efetivos até certo ponto, mas depender deles é perigoso à medida que há pouco que você possa fazer para garantir matematicamente que eles continuem chegando.

Muitas vezes, a gente até compreende intelectualmente as razões de estar fazendo uma tarefa e toma a decisão de executar algo por pressão ou disciplina. Mas nem de longe isso é tão poderoso quanto ter energia e vontade espontânea.

Essa energia tem maiores chances de vir por meio de bons questionamentos.

Você pode, por exemplo, começar a se fazer perguntas. Quais são suas motivações profundas para estudar e se formar? Realmente vê sentido no tipo de vida que vem levando apesar de não ter benefícios explícitos de curto prazo? Tem um sentimento de propósito pessoal que sustente sua energia realizadora para além das notas semestrais?

Mas antes, é preciso também fazer um cuidado de base.

Antes dos remédios, cuidar do corpo, da mente e das relações

Ignoramos com certa frequência o poder que pequenas mudanças fazem em nosso funcionamento geral antes de recorrer ao uso de medicamentos.

O mercado psicofarmacológico tem sido muito próspero por dois motivos, um razoável e outro não.

O primeiro motivo – legítimo – é que muitos diagnósticos psiquiátricos, antes obscuros ou confusos, agora estão menos imprecisos, possibilitando que pessoas com problemas neuroquímicos circunstanciais ou permanentes se beneficiem deles. Com a medicação, certas doenças mentais que resultavam em grandes doses de sofrimento, foram amenizadas. Sintomas e comportamentos perturbadores que em outras épocas invalidariam uma pessoa, hoje já podem ser tratados.

Por outro lado a indústria psicofarmacêutica abocanhou uma fatia de pessoas mais sugestionáveis, que não entendem que muitos quadros emocionais aflitivos poderiam ser modificados apenas com boas práticas e hábitos.

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Cuidar do sono, da alimentação, fazer atividade física e cultivar boas relações no trabalho e no meio familiar e social, já produzem grandes resultados na forma como nos sentimos e nos enxergamos.

Abaixo faço alguns comentários sobre cada um destes itens:

1. Sono: a quantidade e qualidade de sono regular melhora muito vários quadros de exaustão psicológica. Preparar a hora de dormir e seguir certa constância já evitaria muito transtorno.

2. Alimentação:comida de má qualidade influencia no humor mais do que pensamos. O aumento de peso afeta o intestino, responsável pelo metabolismo de muitos neurotransmissores.

3. Atividade física: a "maldição das atividades físicas". Muita gente detesta. Para quem tem repulsa, é bastante válido lembrar o quanto praticar atividades com o corpo poderia melhorar muitos estados emocionais. Academia, ioga, pilates, alongamentos, caminhadas, artes marciais podem trazer benefícios incríveis nesse sentido.

4. Trabalho:ambiente de trabalho nocivo, relacionamentos hierárquicos problemáticos e falta de perspectiva na carreira fazem adoecer, não ignore esses fatores.

5. Relacionamentos: se sua casa é um lugar onde não há acolhimento, afeto e aceitação, pode ser interessante colocar na balança a relação familiar. Sem perceber, você pode ser o bode expiatório de uma dinâmica familiar complicada. Ou pior, você pode estar fazendo sua família de bode expiatório.

O mesmo vale para namoro, casamento ou amizade. Quando elas estão repletas de emoções tóxicas como raiva, ciúme ou inveja, podem desencadear diversas doenças psiquiátricas aparentes.

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7. Hábitos e hobbies: locais que frequenta, pessoas com quem convive, lazeres que cultiva, são ferramentas poderosas que realimentam um mecanismo de liberação de prazer.

Ver um filme, assistir à uma peça de teatro, ler um livro, ter boas conversas, passear no parque, ir à praia. Tudo isso faz brotar ânimo, enriquece a rotina e pode gerar bons estados da mente.

8. Treinamento da mente e práticas espirituais: Talvez, depois de um tempo, você note que não adianta, que continua caindo repetidamente em estados de falta de energia, ânimo e concentração. Por isso, em paralelo, pode ser útil manter alguma prática que o conecte com outras perspectivas.

Métodos para estabilizar a mente e treinar qualidades como foco, são bastante benéficos nesse sentido.

À medida que se toma esses cuidados, acaba sendo natural que o ânimo, o foco, a criatividade e alegria brotem. Claro que eles não blindam ninguém de cair em padrões negativos, mas estar bem garante que você possa dar passos maiores.

Ainda assim, sempre recomendo que, na medida em que a pessoa não seja capaz de lidar com a situação sozinha, passe por uma avaliação médico-psiquiátrica.

De qualquer forma o desafio é de alguém que terá que colocar os dois pés no chão e partir de uma decisão importante, seguir a vida e deixar os louros do passado onde ficaram.

A única coisa que está em suas mãos é o que pode fazer agora.

Nota do Editor: as imagens deste texto pertencem ao livro "Almost Grown", de Joseph Szabo. São belas fotografias de adolescentes tiradas nos anos 70, uma época da vida que ele define como "os anos de desejo inquieto e sexualidade florescente, o mundo da escola, estacionamentos e esquinas". Vale conferir.


publicado em 19 de Julho de 2013, 07:14
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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