Natal para Ateus: a festividade além da fé

Não precisa sair correndo. O Natal pode ser uma boa oportunidade para exercitar valores seculares importantes.

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Selo dorel jpg
  • Vivara130x50 jpg

Desde que me descobri como alguém que não possui fé em divindades, anos atrás, acabei criando uma certa aversão por festividades religiosas. Para mim, foi ficando claro que não passava de uma cultura imposta à força, algo que não tenho identificação alguma, mas a construção social me impõe.

Em 2013 me deparei com um livro bem curioso chamado Religião para Ateus, escrito por Alain de Botton.

Todo o desenvolvimento do livro se dá em torno de observar a construção de diversas religiões e conseguir enxergar os benefícios promovidos por aquela cultura.

Obviamente, não estou aqui para tentar balancear os pontos negativos e positivos, apenas aceitar que pontos positivos existem e podem ser transferidos para a vida secular, sem que, com isso, haja a necessidade de transferir a fé e crença no sobrenatural.

Tomei liberdade de expandir a ideia para do livro e tentar desvendar os valores escondidos no natal, aqueles que vão além da crença e da simbologia geral.

Ateus tendem a reagir com força contra tudo o que está ligado a religião, mas a ideia aqui é simples: mesmo nada do que a religião acredita seja verdade, o que podemos aprender com ela?

Comunidade

Com o fim do ano chegando, temos oportuna disponibilidade de dois recursos normalmente limitados: dinheiro e tempo.

Essa combinação nos permite criar eventos que, ao longo do ano regular, não são possíveis. Podemos organizar pequenos encontros, festas e jantares, por exemplo.

Não precisa ser a tradicional festa na noite do natal cristão, já que, em geral, cristãos procuram passar este dia com seus familiares.

Use essa oportunidade para unir os amigos próximos, aquelas pessoas que confia, aqueles amigos que se tornaram sua família por opção. Tente servir para todos juntos na mesma mesa, para que a noção de proximidade seja constante durante toda a noite, evitando que grupos acabem se isolando em mesas separadas.

Mais ainda, tente provocar uma organização onde seus amigos que não se conhecem sentem próximos um do outro, estimulando que essa nova conexão seja feita.

Gratidão

É fácil olhar para trás e pensar numa pessoa que se fez importante ao longo do ano. Um amigo que se tornou mais próximo, uma pessoa nova que entrou na sua vida, alguém que por mais simples que seja, fez sua vida um pouco melhor naquele período. Não precisa necessariamente ser seu melhor amigo, um namorado ou familiar. Apenas aquela pessoa que se fez presente ao longo do ano.

Presentear pessoas no natal é uma prática comum, pode ser associada aos três reis magos ou simplesmente ao estimulo do comércio por um aumento sazonal no faturamento, mas isso não nos importa agora.

Não precisa presentear todo mundo, apenas decida quem foi essa pessoa no seu ano e compre algo que agregue algum significado à conexão de vocês.

Pode ser um livro que mudou sua vida, que acha que será importante para aquela pessoa, algo que saiba que ela precisa, mas não pode ter agora. Pode inclusive, não ser um presente, mas uma experiência bacana. Um convite para um show, um jantar num restaurante bacana, seja criativo.

Reconciliação

Eu sei que você tem aquele amigo com quem não fala mais tão frequentemente. Pode ter sido por briga, mas também por qualquer motivo mais bobo. Aquela pessoa que você às vezes lembra, sente uma leve saudade, mas que deixou de fazer parte da sua vida.

Use o clima de festividades para se reaproximar desses amigos, pedir desculpas, demonstrar que sente falta, que faz diferença para você que essa pessoa não esteja mais tão próxima.

Procure desarmar-se do ego, da vontade de ter razão, de estar certo. Tente focar no que importa, na importância do perdão e da aproximação. Convide a pessoa para conversar, para sua festa com os amigos, mostre que não existe rancor ou mágoa, só a vontade de novamente cruzar os caminhos.

Renovação

Ainda longe da simbologia cristã, o natal sinaliza que o ano está acabando. Ou seja, é o fim de mais um ciclo. A virada de ano já é famosa pelas resoluções, aquelas duras mudanças que planejamos todos os anos e dificilmente conseguimos cumprir.

Não precisa ser assim, tente pensar nessa renovação de forma mais prática e simples. Não precisa prometer que agora a dieta vai engatar, ou que vai parar de sustentar a academia sem frequentar. Tente pensar em coisas simples, mas que reflitam em você você essa mudança para um novo ciclo.

Pode ser um corte de cabelo diferente, mudar o estilo das roupas que usa, assumindo um pouco mais de maturidade - ou um pouco menos também, dependendo de como você se enxerga e o que acha necessário para o seu momento.

Várias são as possibilidades para fortalecer essa aura de renovação e mudança e muitas delas são extremamente simples. Importante é fixar um ponto claro onde você deixa o passado para trás e se identifica agora como uma nova pessoa, disposta a novas atitudes e visões.

Não cabe aqui o debate sobre os problemas de cada religião, apenas a observação do que pode ser benéfico, mesmo se descartarmos o cerne original da data.

Não precisamos - por sermos ateus - nos isolar em casa e reagir contra o período de festividades, mas utilizar a data para promover uma melhora significativa em como nos relacionamos com as pessoas a nossa volta.


publicado em 23 de Dezembro de 2015, 00:10
12596172 10153389055960906 1551523976 n

Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: