Nômade: como começar a ser um viajante itinerante

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Até outro dia eu ainda carregava as chaves de casa, mas sempre tive certeza que elas não teriam mais uso para mim. Quer dizer, da casa alugada onde eu vivia, em São Paulo.

 

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São Paulo

Sai de lá em agosto, pronto para encarar uma nova nova fase da vida.

Não, esse não é um texto sobre como adquiri uma casa própria e larguei o aluguel. Esse texto fala sobre como eu passei a ter uma vida nômade. Antes de te contar onde estou agora, vou te contar como cheguei aqui.

Tudo começou com uma viagem de volta ao mundo, história que já apareceu aqui no PdH. Em crise com meu trabalho e alguns anos depois de sair da universidade, descobri que viajar pelo mundo durante 10 meses era um sonho perfeitamente possível. Bastava investir meu tempo e dinheiro nisso, largando de lado coisas menos importantes. Para isso, vendi meu carro e trabalhei em dois trampos para juntar a grana. Comprei uma passagem de volta ao mundo e deixei o Brasil, tudo isso cerca de três meses depois da decisão.

No meio do caminho tinha a Índia, país onde arrumei um intercâmbio e passei 180 dias, de longe o período mais marcante da viagem. Mas também tinha mais.

Passei por Espanha, Itália, França, Inglaterra, Nepal, Malásia, Tailândia, China, Cingapura, Indonésia, Nova Zelândia, Chile e Peru. Nessa época, minha vida teve duas fases: a indiana, em que eu trabalhava e morava no país, e a de turista, em que meu único compromisso era viajar. E se viajar de férias já é bom, por meses e meses é melhor ainda.

Voltei ao Brasil no meio de 2012, não sem antes ter uma conversa esclarecedora com minha vó. “Você nunca mais vai se acostumar com uma vida normal”, ela disse. “Claro que vou”, respondi.

Mas eu sabia que seria difícil.

Voltei ao meu trabalho -- o mesmo que me irritava antes de viajar -- na mesma semana que desembarquei. Durei 3 meses. Pedi demissão e troquei Belo Horizonte, minha cidade natal, por São Paulo. Foi nesse ponto que aluguei um quarto na casa citada no começo do texto.

Fiquei na capital paulista por pouco menos de um ano. Durante o período, trabalhei em duas empresas diferentes. Eu tinha um salário legal, meu trabalho não era tão puxado assim e eu ainda tive a sorte de estar cercado por minha namorada e meus melhores amigos, muitos deles moradores de São Paulo há alguns anos. Eu não ganhava muito, mas ao mesmo tempo nunca tinha ganhado tanto.

 

Índia
Índia

Logo, comecei a investir meu dinheiro em pequenos confortos, como almoçar em um restaurante legal, pagar caro em uma cerveja melhor e investir uma grana pesada em bens materiais que eu não precisava. A necessidade pelo supérfluo, um dos maiores problemas da nossa sociedade consumista ao extremo, tinha começado a dar sinais de que iria me atacar.

Mas alguma coisa não estava funcionando. Eu queria ver o mundo lá fora, conhecer novos lugares, pessoas e culturas. Não ficar preso em um escritório, oito horas por dia, a maior parte do tempo fazendo coisas completamente sem sentido e que não seriam úteis para ninguém, nem para a empresa, nem para meus colegas e muito menos para mim. Eu sentia falta da estrada e não entendia porque precisava morar e trabalhar em um só lugar todos os dias, quando eu poderia fazer as mesmas coisas de qualquer parte do mundo. Ao olhar quanto dinheiro eu gastava para viver em São Paulo, concluí que poderia me virar com menos grana praticamente em qualquer lugar do planeta.

De vez em quando a vida te dá um empurrão. Foi isso que rolou comigo: quando meu contrato de trabalho acabou, em junho, eu fiquei entre arrumar um novo emprego ou tentar uma coisa diferente. Fiquei com a segunda opção. Peguei frilas, trampos que não me pagavam tanto quanto um emprego formal, mas que me permitiram trabalhar de casa.

A primeira vitória foi parar de perder quase duas horas por dia no trânsito. Ao mesmo tempo, me dediquei de forma mais pesada a um projeto pessoal, que logo começou a também me dar retorno financeiro. Semanas depois, tomei a decisão mais sensata do ano. Virei um nômade digital.

Existem centenas de relatos de gente que fez essa escolha de vida, a maioria deles estrangeiros. A verdade é que as novas tecnologias e a internet permitem que você trabalhe de qualquer lugar e a qualquer hora. Já li sobre homens e mulheres que largam tudo e rodam o mundo enquanto trabalham. Sei de casos de casais que fazem o mesmo, cada um com seus frilas, em uma viagem sem prazo para terminar.

Existem até famílias inteiras nesse esquema -- pai, mãe, filhos e cachorro, todos especialistas em desvendar os mistérios de vários países por ano. Mesmo assim, estamos acostumados a pensar que o estilo de vida tradicional, em que você procura um emprego para ter segurança e passa anos no escritório, seis dias por semana, oito horas por dia, é a única escolha possível.

 

Barcelona
Barcelona

Só que não é.

Cada um desses exemplos tem uma história diferente, mas os nômades digitais costumam ter um ponto em comum: eles odiavam a rotina, exatamente esse lance de ter que ir ao escritório diariamente, de 9 às 6. De tanto odiarem isso, em algum momento largaram tudo para lá e investiram em algo diferente. Algo que a sociedade não esperava que eles fizessem e sequer compreendeu direito até agora.

Quando larguei minha casa, eu estava com passagens compradas para a Espanha. Fiquei na Europa por cerca de dois meses.

Em Barcelona, eu trabalhava todos os dias, durante algumas horas, mas também tive tempo para sair pela cidade e sentir o estilo de vida catalão. Na França, aluguei um apartamento e me senti um parisiense por uns dias. O mesmo rolou em Veneza, Berlim, Amsterdã e Munique, nessa última, com direito a trabalhar pela manhã, para logo depois correr para a Oktoberfest, onde o dia acabava em copos gigantescos de cerveja alemã. E muitos brindes, claro.

Sabe o mais incrível disso tudo?

Eu economizei dinheiro.  Gastei menos vivendo meu dia a dia na Europa do que eu gastava em São Paulo. Além de viver de forma itinerante, resolvi viver de forma mais simples, sem esbanjar. Com isso voltei a viver melhor.

No fim de outubro, retornei ao Brasil e fui direto pra Minas, mas não fiquei muito por lá. Escrevo esse texto de frente para uma praia do Espírito Santo, um estado que tenho ótimas memórias, mas onde eu não vinha há quase 5 anos. Para 2014, a ideia é continuar viajando, num ritmo mais lento, afinal não é preciso correr para conhecer todos os lugares quando a viagem não tem prazo para terminar.

Depois de rodar pelo mundo, visitar pedacinhos fantásticos do Brasil é o grande objetivo para os próximos meses, mas não descarto passar um tempo vivendo em outro pais. Quando me cansar de um lugar, levanto o acampamento e me mudo para uma região diferente.

Assim como em qualquer outro estilo de vida, quem escolhe ser um nômade digital também enfrenta desafios. Tenho que entregar meus frilas do mesmo jeito que antes eu tinha que acabar meu trabalho até o final do expediente, só que agora com um motivador a mais: o lado de fora do escritório (no caso o hostel, hotel ou apartamento onde estou) não guarda as mesmas ruas conhecidas de sempre, mas lugares diferentes e cheios de novas descobertas, um baita estimulo para produzir mais rápido e melhor.

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Como esse estilo de vida é típico do século 21, minha família tem dificuldades para entender como eu faço para ganhar dinheiro e viajar sem parar, mas sem ter um emprego fixo. Tem quem ache que eu virei hippie. Tem quem acredite que eu peço dinheiro na rua para continuar a aventura.

Outros acham que eu me endividei e não passa uma semana sem que alguém me diga que eu preciso de um emprego. É complicado explicar para quem nasceu num mundo offline que a internet permite que você trabalhe e ganhe dinheiro de qualquer lugar.

Sei que uma vida nômade não é uma escolha tentadora ou possível para todo mundo. Para outros, membros de uma geração inteira que cresceu online e adora viajar, parece a escolha certa. Independente de qualquer outra coisa, é uma escolha de vida, mais ou menos como você escolhe se vai fazer universidade, se vai ter filhos e em qual área vai trabalhar.

Pode ser que um dia eu me canse do nomadismo e resolva me fixar em algum lugar. Pode ser que no futuro eu avalie que essa decisão foi um erro. Enquanto isso, sigo com a vida, sem saber ao certo qual será o destino do mês seguinte.

E bem mais feliz assim.

Mecenas: Curso Nomades Digitais

Quem disse que você precisa trabalhar onze meses do ano para poder viajar apenas um? O mundo mudou, a forma de trabalhar mudou e as empresas também estão mudando.

Você não tem mais que trabalhar em um escritório dentro de uma grande cidade, trancado no ar condicionado.

Seu escritório pode ser na beira da praia, em um café em Paris ou numa casa à beira da montanha. 

No curso dos Nomades Digitais, o Eme e a Jaque ensinam usando da sua experiência própria como qualquer pessoa pode se tornar um Nômade Digital e trabalhar de onde quiser. Tudo que você precisa é de um notebook, uma conexão com a internet e bastante disposição para aprender.

E ai, ta afim de conhecer o mundo?


publicado em 21 de Dezembro de 2013, 22:00
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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