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O lado bom de ser um pouco pessimista

É normal que a esperança sirva como alimento das possibilidades, mas uma dose de realismo na hora de fazer planos evita bastante dor futura.

Imagine que está alugando meu imóvel. Você concorda em pagar 1000 reais para morar em minha casa imaginária, sem maiores problemas. Eu aviso que, por contrato, como é convencional, daqui um ano faremos um reajuste, a casa irá custar 1100 reais.

Passado um ano, quando a cobrança chegar com o valor alterado, você pode não ficar muito feliz, mas não será o maior problema do mundo. O acordo já estava ajustado.

Agora considere uma situação diferente. Eu te alugo a casa, e sem nenhum aviso aumento o valor após um ano. É bem provável que você passe a me odiar, queira me processar ou até coisas piores.

Nos dois casos o resultado foi o mesmo, a diferença entre um cenário e outro é a organização das expectativas.

Imagine da mesma forma que o dia dos namorados está chegando. Você está saindo com aquele carinha, as coisas estão meio indefinidas, mas indo muito bem. É fácil supor que numa data tão simbólica, ele vá te presentear com alguma coisa, assim como você pretende fazer.

O tão esperado dia chegou. Conforme combinado, saíram, jantaram e foram para um motel. A noite foi excelente, mas o tão esperado presente não veio. A decepção é grande, como assim, sem presente no dia dos namorados? É possível que nem queira mais sair com ele.

No entanto, imagine se pouco antes do dia dos namorados você tivesse perguntado: E aí? Dia dos namorados está chegando, vamos trocar presente ou não? De forma bem aberta, nada sério. Neste caso, ter ou não presente deixaria de ser uma surpresa, tanto positiva, quanto negativa.

Expectativas estão presentes em quase todas as formas de relações, sendo um dos principais motivos para nossas chateações. Esperamos algo de prestadores de serviço, dos produtos que compramos e das pessoas que nos relacionamos. Esperamos algo do nosso chefe - nem que seja reconhecimento pelo esforço -, dos nossos amigos e até da comida que comemos.

Quando o fantasiado não bate com a realidade, o que sobra é sofrimento.

"O que? Como assim, você não vem?"

Infelizmente, somos ruins em controlar as fatores externos. Adoramos sentir que tudo está sob controle, mas a quantidade de variáveis torna as situações incontroláveis. Não temos como saber se vamos receber um aumento, se o namorado vai limpar o banheiro como prometeu ou se aquela guria que está apaixonado vai querer sair.

Quando essas coisas nos chateiam, não foram elas ativamente que fizeram isso. Foi nossa expectativa em cima delas que fez.

Não temos como interferir diretamente nos eventos externos, por isso é ruim depositar tanta esperança neles. O que podemos, no entanto, é alinhar a forma como enxergamos as possibilidades.

Os filósofos estóicos nos dão uma boa dica de como lidar com as expectativas da vida. A forma mais simples de definir a ideia de estoicismo é basicamente a de ser indiferente ao destino.

Sabemos que coisas ruins acontecem o tempo todo, por isso não deveríamos nos surpreender quando nos deparamos com elas. O reconhecimento de que o pior cenário também é possível nos ajuda a não ser pego de surpresa.

Quando chove e nossos planos são estragados, mesmo que fiquemos tristes, não é o fim do mundo. Sabemos que não é possível decidir como a natureza vai se comportar. Por que então achamos que todo resto das coisas será diferente? Então por que, quando somos traídos por alguém, por mais chato que seja, nossa reação é diferente? Desde que relações humanas existem, traições acontecem. Não deveria ser surpresa que um amigo vá nos sacanear, que uma namorada vai acabar ficando com outro cara ou que aquele sócio vai te passar a perna.

Para quem não está acostumado, tal dose de pessimismo pode soar prejudicial, como se nos impedisse de viver a possibilidade positiva das coisas. Mas vamos voltar ao exemplo da chuva: Não deixamos de fazer planos, organizar festas e feriados na praia porque existe a chance de chover. A única coisa que muda nisso tudo é como vamos reagir caso aconteça.  

Parafraseando Lívio (56 AC - 17 DC): “segnius homines bona quam mala sentiunt”, homens sentem o bem menos intensamente que o mal. É normal que a esperança e a ilusão do positivo sirvam como alimento das possibilidades, mas uma dose de realismo na hora de fazer planos evita bastante dor futura.

Como toda forma de filosofia aplicada a vida real, é necessário observar até onde suas aplicações são válida. A ideia não é abandonar todo otimismo e felicidade da vida, apenas respirar fundo e considerar sempre a parte ruim.

Entender que somos humanos e que alimentar expectativas ilusórias é algo que fazemos automaticamente nos deixa mais consciente de nós mesmos. Ao aceitar esta condição como verdadeira, podemos inclusive alinhar expectativas que outras pessoas possuem da gente, evitando que sofram sem necessidade.

Não é que todo nosso sofrimento venha das ideias que criamos em nossa mente, mas muitos deles certamente vem. Ou como diria Seneca: “Sofremos mais frequentemente na imaginação do que na realidade.”


publicado em 15 de Novembro de 2016, 18:35
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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