O que aprender com as realidades silenciosas

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Realidades silenciosas são as mais íntimas opiniões que evitamos divulgar. O anseio de causar transtorno ou revolta dentro da sociedade devido à certa percepção nos obriga a disfarçar ou omitir ideias. São raros os momentos de lucidez que permitem que a realidade venha à tona. Porém, quando ocorridos, resultam na mensagem que todo mundo pensou, mas ninguém disse. E causa alívio.

Estamos tratando de fatos que muitos, apesar de concordarem com essas verdades, negam-se a discutir. Justamente para evitar um desconforto no ciclo social. É quase a preferência de ser alguém que não somos e transpirar falsidade. Como acreditar e viver a própria mentira — muitas vezes, transformando-a em uma particularidade que nem o próprio expositor crê.

Tá tudo errado.

Se é tão difícil conviver em uma sociedade manipulada sem se levar pelas “opiniões coxinhas”, por que devemos esconder as nossas próprias percepções?

Eis algumas verdades silenciosas:

Você não gosta de UFC; você gosta é de ganhar

Sábado, pouco depois da meia-noite, Brasil. O país para. Todos querem saber quem será o vencedor do UFC. "O brasileiro ama esse esporte", dizem os mais animados. Sim, talvez o brasileiro esteja apaixonado pelo UFC.

Mas o brasileiro já amou o tênis quando o Guga jogava.

O brasileiro já amou a ginástica olímpica quando a Daiane do Santos saltava bem.

Já amou o judô quando o Aurélio Miguel derrubava.

E só ama o UFC porque os melhores lutadores são daqui.

Esse amor todo, generalizando o MMA como esporte do momento e dizendo que ele vai superar o futebol, acaba assim que a próxima safra de lutadores for medíocre. Sem vencedores não há patrocínios, sem patrocínio não há mídia, sem mídia não há popularização. Sempre haverá os fanáticos e verdadeiros admiradores do esporte. Mas apaixonados, nem todos.

O brasileiro não gosta de esportes. O brasileiro, inclusive você, gosta é de ganhar. Quando Anderson Silva parar, ele vai deixar uma herança semelhante à de Guga no tênis: bons atletas. Mas sem o mesmo status.

Há quem goste porque há quem vença. E a mídia sabe disso

Chaves incentiva a violência

Há algumas semanas foi demasiadamente compartilhada no Facebook uma foto da turma do Chaves com a mensagem:

Desculpe, pessoal da Globo e fãs do BBB, mas nós fazemos sucesso com humor e diversão desde 1971. E até hoje nunca precisamos falar um palavrão ou mostrar nossas bundas. Pois é, pois é, pois é.

Pois é. Eu adoro relembrar Chaves com esse saudosismo. Mas não gosto de deixar de lado a essência do enredo dos episódios: violência, preconceito e consumismo.

Não existe um episódio de Chaves sem socos e pontapés. As características marcantes dos personagens também são destacadas de modo pejorativo, inclusive nos próprios nomes: a altura do Girafales, a obesidade do Barriga e a magreza do Madruga. Pra completar, existem muitas referencias de cunho erótico:


  • Chiquinha já quis dar para o Chaves.

  • A Dona Clotildes é apaixonada pelo Madruga.

  • O professor Girafales entra “depois da senhora” para flagras a Dona Florinda.

  • O Madruga quer pegar a tia da Pati.

Não adianta vir com esse papo de que os programas infantis de hoje são violentos e utilizar o Chaves como exemplo de inocência. Aquela vila é um grande puteiro mexicano. E por isso é tão divertida.

A inocência do Chaves ficou no barril

Os Mamonas Assassinas, hoje, seriam extremamente odiados

O sucesso dos Mamonas Assassinas é inegável. Apenas os Trapalhões conseguiram — nos anos 90 — atingir diferentes classes sociais com um humor deliciosamente escrachado. A morte de Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Samuel Reoli e Sérgio Reoli naquele 2 de março de 1996 deixou uma eterna e discutível dúvida: o que seria do grupo a partir do segundo disco?

É impossível fazer qualquer tipo de simulação. Mas podemos refletir sobre o presente.

Hoje, em 2012, Os Mamonas Assassinas teriam os vídeos mais vistos do Youtube.

As fan pages mais curtidas do Facebook.

Os trend topics mais populares.

E, assim, seriam o grupo mais odiado do Brasil.

Vale para uma hipotética presença dos Mamonas Assassinas na atualidade o que Rodolfo Viana escreveu sobre Michel Teló:

A crítica é a forma como perpetuamos nossas microditaduras cotidianas, como queremos impôr nossos pensamentos, a forma como vemos representado o mundo. Assim, desejamos ora anular a individualidade alheia (quando nos dirigimos à uma pessoa), ora subverter o pensamento comum (quando nos referimos a um grupo).

Lembra daquela participação histórica dos Mamonas no Faustão? É, aquela que você adora ver no Youtube de vez quando? Você odiaria ter que ver isso no domingo que vem. Você é um sujeito pouco tolerante com o que é popular e faz sucesso. Todos nós somos.

Imagine o alcance dos Mamonas Assassinas com FB e Youtube: sinta medo

Não existe Copa do Mundo sem Galvão Bueno

Galvão Bueno, por pior que seja, é o melhor.

Não me venham com Cléber Machado. Prefiro o fake.

Não me venham com Milton Leite. Quem gosta desse narrador é fã do Thiago Leifert.

Odiar Galvão Bueno é esporte nacional. Faz parte da nossa cultura. Não basta a Galvão ter vivido de perto os principais momentos da história do esporte brasileiro. Sua experiência jamais conta quando nos damos conta que ele é o mestre de cerimônia da transmissão. Afinal, já estamos condicionados a ouvir a primeira bobagem narrada pelo jornalista — o que não costuma demorar muito. Mas é impossível imaginar uma Copa do Mundo sem Galvão Bueno na narração. Não digo que ele é insubstituível. Nem Cid Moreira no JN foi.

Não há ninguém mais adequado para tomar a frente do microfone que Galvão Bueno na Copa do Mundo. Quando você ouve o "bem, amigos da Rede Globo", automaticamente sabe que se trata de um grande evento.

Em 2014 será a última Copa dele.

Vamos sentir falta.

Aquela pontinha de decepção ao ver o Cléber Machado no início da transmissão

Você pensou/pensa em sapecar a melhor amiga

Eu não tenho nada contra a amizade entre homem e mulher. Pelo contrário. Respeito a hombridade necessária para que não exista confusão entre amizade e atração. Uma boa amizade feminina deve ser valorizada. Só que eu sou homem. E não posso negar que uma amiga gostosa sempre será uma amiga gostosa.

E olha que eu já fui contra essa relação. Achava impossível manter uma convivência pacífica com amiga gostosa. Errei. É uma questão de caráter. Pode-se, sim, ser um baita amigo e até pôr a menina bêbada pra dormir de calcinha na sua cama. Vontade de sapecar a incauta? Existirá, por mais que escondam esse fato. Até surgir uma garrafa de vodka, discrição e oportunidade.

É isso que arrebenta as amizades. Portanto, trate de ser homem. Não é preciso esconder o desejo. Mas sim, controlar os hormônios.

Quem nunca?

Os banais e estúpidos exemplos citados acima são apenas para ilustrar essa realidade falsa e paralela que vivemos. Não se trata de atropelar o bom senso e ser o inconveniente da história. A verdade dói. Mas essa mesma verdade, quando aliada a argumentos, razões e exemplos, é necessária para que exista evolução.

O ato de esconder percepções é uma regressão de pensamento. O valor existente dentro de uma opinião é muito alto para ela ser ignorada ou escondida. Essa tão criticada alienação de valores e gostos está destruindo as pessoas de personalidade. Antes caracterizado como sujeito corajoso e de visão, hoje é taxado de mascarado o cidadão de opinião contrária aos alienados. Não é uma questão de falar o quer. Mas sim, comunicar o que a maioria concorda.

Experimente.


publicado em 05 de Março de 2012, 21:01
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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