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O que ninguém conta sobre ser adulto

Não tem nada de errado com você, ser adulto é estranho assim mesmo

Nota do editor: este artigo é parte da visão que nos motivou a criar o nosso principal evento do ano, o Homens Possíveis. Um evento inteiro dedicado a palestras, vivências, integração e rodas de papo sobre as maiores questões da masculinidade atual. Vai ser 09/12, sábado, em São Paulo. A edição passada foi incrível e esta está ainda melhor, garanta o seu ingresso. Esperamos vocês lá!

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Quando nos damos conta, olhamos para trás e só o que vemos são lembranças da nossa infância. Quando fecho os olhos, ainda sou capaz de lembrar, com detalhes, do meu quarto na casa da minha mãe. Vejo onde meu Super Nintendo ficava instalado, a posição da cama, o suporte da televisão e até o quadro do Snoop na parede.  

Nem parece um passado tão distante assim, mas hoje tenho quase 32 anos e muita coisa mudou desde a época que eu contava os meses para dizer que, finalmente, era um adolescente.

Quando somos mais jovens, criamos uma certa expectativa sobre a vida adulta. Não à toa as frases “quando eu for grande” ou “quando eu for adulto” são tão repetidas pelas crianças.

Ficamos esperando uma mudança brusca, aquele momento onde viramos adulto, aquela virada de chave, mas fazemos 18 anos e isso não acontece.

O processo, na verdade, é bem mais gradual, variando bastante para cada um de nós.

Você nunca cresce

Apesar do estereótipo da adulto sério e responsável, a maioria de nós sustenta uma máscara, projetando essa seriedade por ser o que o mundo espera.

Mas lá dentro, pouco muda.

Você cresce e continua gostando de coisas bobas, sentar para falar bobagem com os amigos continua sendo divertido, sendo uma das melhores formas de distrações que existem.

Desenvolvemos um senso de responsabilidade, mas a bobeira da juventude tende a continuar por ali.

Por algum tempo, acabei entrando na pilha do adulto sério super responsável, o que me causou vários conflitos internos. Hoje, evito incorporar o personagem do velho chato, prefiro ser mais informal, acessível e brincalhão. Responsabilidade e maturidade não precisa nos transformar em pessoas quadradas.

A vida adulta é bem menos estável do que você imagina

Projetamos uma imagem bem caricata dos adultos quando somos mais novos. É muito provável que seja pela nossa referência mais próxima, o universo mais estável que nossos pais (idealmente) proporcionam para nos proteger. Nós, em alguma medida, imaginamos que vamos envelhecer, ter uma casa, filhos e um jardim florido.

Então, nosso tempo chega e descobrimos que as coisas não são bem assim. Mudamos de casa com uma frequência bem maior que a esperada. Encontrar um parceiro que vai passar um longo período conosco é mais difícil do que parece, e o medo de que nossa estrutura vá por água abaixo é frequente.

A vida adulta é meio como andar na corda bamba, mas sem saber onde vai cair se algo der errado.

Beber é superestimado

Ah, a ressaca...

Quando somos adolescentes, beber se torna um ritual de passagem. É a representação da nossa independência, é um grito de liberdade. Quando somos adultos essas aventuras possuem um preço muito mais alto.

É comum vermos pessoas acordarem no dia seguinte dizendo que nunca mais vão beber, decisão que dura apenas até a próxima quinta-feira. A dor de cabeça, o gosto de ferrugem na boca e aquele mal estar que dura o dia inteiro são apenas a ponta do iceberg.

O dia seguinte é praticamente perdido, não conseguimos executar nenhuma tarefa com qualidade ou atenção. As coisas mais complexas acabam se acumulando para o futuro. Sem falar na ressaca moral, quando começamos a lembrar de detalhes da noite anterior que gostaríamos de ter apagado de vez.

O que venho observando pelo amadurecimento de meus amigos é uma redução na quantidade de bebida alcoólica que ingerem, preferindo opções mais sofisticadas.

Eu me encaixo nesse grupo, hoje tendo a beber menos e com melhor qualidade.

Pessoas vão julgar sua aparência

Sempre levantei a bandeira de que minha capacidade deve ser avaliada pelos resultados que apresento, não pela forma como me visto. Ainda acredito e sustento essa visão, mas demorei para entender como os outros enxergam o assunto.

Infelizmente, as empresas que nos contratam também estão preocupadas com a imagem das pessoas que carregarão o seu nome. Com muita frequência vemos recrutadores darem preferência a alguém mais apresentável do que ao candidato tecnicamente superior.

O importante aqui é entender que isso vai acontecer, e assim poder transitar por esses mundos com mais consciência. Não digo para vestirem personagens, mas simplesmente compreender que em determinados momentos vão esperar um tipo de aparência específica de você, se adequar ou não é escolha sua, mas sempre trará consequências.

Relacionamentos são importantes e seu orgulho vai destruí-los

A adolescência é uma fase onde ainda estamos estruturando nossas ideias, desenvolvendo um mapa do que o mundo representa para nós. Poucas coisas nos ofendem para valer neste período, a maioria dessas ofensas acabam não sendo tão importantes assim.

Quando vamos envelhecendo, nossas convicções tendem a ter um assumir um peso maior. É nesse ponto que olhamos para os amigos sustentando visões contrárias às nossas e nos sentimos decepcionados e/ou ofendidos. Em período de polarização política é bem fácil observar esse fenômeno acontecendo. Inúmeras amizades se perdem por discordância de pontos de vista.

Mas nossos amigos são importantes e nossas diferenças são apenas detalhes dentro de toda experiência que compartilhamos juntos. Podemos, inclusive, aprender com eles a compreender outros cenários, o famoso concordar em discordar.

Não deixar o ego e a vontade de estar certo interferir nessas relações é primordial se você quer ter relações duradouras com seus amigos.

Seu intestino começa a ficar confuso

Fiquei bem surpreso quando isso passou a acontecer, não esperava por essa mudança. Um dia você viaja, acorda e parece que seu intestino esqueceu de funcionar. Alguns dias se passam e você vai ficando meio tenso, sentindo um leve mal estar.  

Não sei bem como acontece, mas com a idade nosso corpo fica muito mais sensível a mudanças. Fim de ano na casa da sua tia? Viagem à trabalho? Exagerou na pizzaria? Pronto, a saga começa novamente.

Descobri que é por isso que adultos comem tanto mamão e investem dinheiro em iogurtes que prometem ser infalíveis em liberar o intestino.

Dinheiro é uma preocupação constante, mesmo que você tenha bastante

Não existe um dia em que eu não pare um momento e pense no dinheiro, me questionando se vai dar para fazer tudo o que preciso. Pode parecer que em algum momento esse tipo de preocupação deixará de existir, mas para a maioria das pessoas tal momento nunca chega.

Lembro do meu primeiro emprego, quando olhava para o salário dos cargos mais elevados e achava que, quando ganhasse todo aquele dinheiro, os problemas estariam resolvidos. Mas um fenômeno curioso acontece, somos muito bons em arrumar gastos para o dinheiro que recebemos. Normalmente o tão sonhado aumento de salário vira uma prestação para trocar de carro ou reformar a cozinha.

Quando nos damos conta a situação está mais ou menos como estava antes. Pessoas que ganham mais tendem a gastar mais, levando, no final das contas, à mesma preocupação do inicio.

Saúde deixa de ser futuro

Saúde é sempre algo que projetamos no futuro. Se não cuidarmos dela agora, teremos complicações no futuro. O problema é que no futuro a saúde se torna uma preocupação presente.  As visitas ao médico aumentam, alergias que nunca existiram começam a aparecer, seu corpo passa a se comportar de uma forma bem estranha.

Por praticar exercícios existem algumas coisas que ainda não me afetaram, mas meus amigos mais próximos reclamam de dores nas costas, joelhos e articulações. Minha esposa, chegando aos trinta, aparece com uma dor diferente todos os dias.

Quando somos novos abusamos demais de comportamentos que nos prejudicam no longo prazo. Um belo dia acordamos e o corpo parece estar cobrando o preço desses abusos, somos péssimos em prevenir, passando a vida inteira preferindo remediar.

Sexo: falamos mais do que fazemos

Muita da nossa cultura gira em torno da sexualidade. Papos com amigos e amigas, cenas de filme, inúmeros documentários e referências culturais. Todo mundo fala sobre sexo o tempo todo.

É curioso, no entanto, que ao envelhecer e participar de relacionamentos mais duradouros, a frequência de nossas relações sexuais caia tanto.

Minha teoria é simples. Com o aumento de preocupações e o estresse diário, vai se tornando cada vez mais difícil nos desligar dos problemas e relaxar na companhia de outra pessoa. A excitação de um novo relacionamento parece compensar esses fatores, mas à medida que as coisas vão esfriando é fácil observar uma drástica mudança em nossas vidas sexuais.

Recentemente rolou uma hashtag no Twitter sobre coisas de adulto e um desses posts representa muito bem minha visão sobre esse assunto.

“Sexo é coisa de adolescente, adulto sente prazer vendo os boletos todos pagos no fim do mês.”

Infelizmente não pude encontrar o autor original.

Você nunca termina seus estudos

Quando eu estava no segundo ano do ensino médio, achava que os estudos já estavam acabando, então entrei na faculdade, e aí sim, faltava pouco para estar tudo terminado. Depois comecei a trabalhar e pilhas de livros foram se acumulando em cima da minha mesa, num ciclo interminável. Novas necessidades surgiam e lá estava eu, estudando novamente.

O estudo formal é apenas uma parte desse universo, mas a busca por conhecimento vai se estendendo ao longo de toda a vida.

Estamos sempre estudando, seja por interesse pessoal ou porque nossas profissões exigem. Quando olhamos um pouco mais para frente, vemos até os mais idosos estudando e se atualizando, o mundo muda e nós precisamos acompanhar essas mudanças.  

Família é o seguro primordial

É curioso escrever isso. Sou uma pessoa com bem pouco apego familiar e, talvez por isso, este tópico seja tão importante.

Como conversamos ali em cima, a vida é essa instável corda bamba, que em algum momento as coisas podem - e vão - dar errado. Neste momento existem pouquíssimas pessoas que podem nos ajudar. Quando nos damos conta, estamos ali, sozinhos e perdidos no mundo.

Todas as vezes que me encontrei em situações como essa, por mais distante que eu estivesse, a família representou uma base de apoio, pessoas dispostas a se sacrificar em algum ponto para que eu pudesse melhorar minha situação. Saber que nossa estrutura familiar possui esse importante papel é importante por dois motivos, o primeiro é a liberdade em se abrir e pedir ajuda quando for necessário, o outro é estar preparado para ser a pessoa que estende a mão para resgatar alguém que ficou pelo caminho.

Vale lembrar que família também é aquela construímos durante a vida, com amigos e pessoas importantes para nós.

Você sabe menos do que achava que saberia

Lembro das perguntas que fazia para minha mãe quando era criança. Era como se ela fosse o grande oráculo da sabedoria, como se tivesse conhecimento para curar todas as doenças e resolver todos os problemas. Cresci esperando ser a pessoa que tem todas as respostas, mas hoje olho para trás e vejo que ela estava tão perdida quanto eu.

No inicio da fase adulta temos muitas certezas, parece que estamos próximos de reter todo conhecimento sobre praticamente tudo, mas o tempo vai passando e precisamos reconhecer que não sabemos muito bem o que está acontecendo, muito menos para onde estamos indo.

Por existir a pressão social em saber com toda firmeza o que queremos, muita gente ainda carrega essa postura, mas não demora muito para entender que tudo é confuso demais, que novas informações surgem o tempo todo e, no fim, não fazemos muita ideia de muita coisa.

* * *

Uma das minhas frustrações ao ficar um pouco mais velho foi reconhecer que os adultos não deixam transparecer os pequenos problemas e medos que existem nessa fase. Existe muito teatro, muita projeção de uma realidade que não é exatamente o que encontramos quando chegamos lá.

Meu medo atual é imaginar tudo o que aqueles, ainda mais velhos do que eu, não contam sobre sua fase da vida. Muita surpresa ainda deve surgir pelo caminho.

E você, o que mais te chocou depois de adulto? O que acha que os mais novos precisam saber sobre essa fase? Contribua nos comentários e ajude a enriquecer nosso conteúdo.

Quer se aprofundar na visão presente neste artigo?

Este artigo é parte da visão que nos motivou a criar o nosso principal evento do ano, o Homens Possíveis

Teremos a presença de homens com grandes trajetórias compartilhando suas visões sobre masculinidade e como podemos nos aprimorar em nossas jornadas.

Homens Possíveis é um evento inteiro dedicado a palestras, vivências, integração e rodas de papo sobre as maiores questões da masculinidade atual. Vai ser 09/12, sábado, em São Paulo. A edição passada foi incrível e esta está ainda melhor, garanta o seu ingresso. Esperamos vocês lá!


publicado em 22 de Março de 2016, 22:05
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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