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Os últimos quatro (ou a falta d'água)

O primeiro a chegar foi Nicanor. Tinha areia seca colada nos cílios e, por isso, não enxergara a pessoa que vinha ao seu encontro, segurando-o pelos braços frágeis e queimados pelo sol. Padecia do mal da seca.

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Os pés carregavam dois nacos de couro que outrora foram sapatos. Ele, desencavado da própria realidade, caminhou dias envolto em pó e derrota, fruto da teimosia daqueles que já sabiam e deram de ombros e dele mesmo, por resistir em sua terra. Era tão turrão quanto devoto, sempre acreditou que seus santos haveriam de acolhê-lo em água, que um dia a chuva viria. Montou uma barricada de rezas e seguiu estocando as poucas gotas que, anos antes, ainda caíam meio sem rumo, meio sem vontade. "Daqui não saio. Me criei aqui e cá ficarei", ele dizia quando ainda tinha músculos fortes no peito e nas coxas, hoje substituídos por sacos de pele e ar.

Chegou magro, de lábios rachados e a garganta colada, como se nela escorresse uma pasta pegadiça, afinal, engoliu apenas poeira de estrada nos últimos dias. A água oferecida lhe foi, em primeiro momento, mais para lavar o grude do que efetivamente para matar a sede. bebeu rápido, perdeu o compasso das goladas e deixou escorrer no colarinho duro da camisa verde-claro com listras escuras, já translúcida de usada. Nas mãos já não cabia mais veias saltadas, calos ou manchas de machucado e sol. Agradeceu com elas, pois ainda não conseguia falar. Um caminho solitário não carecia de palavras e quase acabou esquecendo como usá-las. Acenou com a cabeça, a testa tomada por marcas deram certa aliviada, tirou o barro seco da cara e dormiu sentado na calçada, nos braços de um desconhecido.

Nicanor vinha de uma cidade que passou a ser vila que, de lugarejo, virou lenda. Morava em um lugar inventado por ele e mais uma dúzia dos que ficaram depois do êxodo. Lá, os negócios minguaram um a um, bicho e mato não se via e a comida, no final do dia, era racionada e chegava esturricada na boca. Era luta atrás de luta e perda atrás de perda. Onze, dez, seis. A resistência morria número a número, as casas iam se esvaziando, a ajuda era cada vez mais difícil. Insustentável. Teve, também, de ir embora.

Por aqui, se imaginava que aquela região já ninguém mais vivia. Um lugar isolado e descrente na imaginação popular, abandonado há tempos e, o que antes era uma cidade chamada Itu e chegou a ter cento e sessenta mil habitantes, agora é um pedaço de chão esquecido.

O segundo a vir de lá foi Antônio. Menino moço, passado poucos anos da maioridade, viveu a vida toda lá para cuidar da avó, Dona Maria, que insistiu que morreria ali e não arredou pé. Saía todas as manhãs sem saber se encontraria viva a avó. Tanto ela apostou que um dia veio. Morreu deitada de lado na cama, logo depois que a tarde caiu. Passou dois dias velando o corpo sozinho e não enterrou a velha, julgado que eles já moravam em uma cova rasa. Pegou dois pedaços de pão seco e partiu.

velorio

Dias caminhando e quase que não chega. Em sua inocência, achava que poderia encontrar romeiros salvadores no trajeto. Imaginava tal cenário e a benevolência dessas pessoas pelas histórias que a velha lhe contava, das caminhanças que se fazia no passado lá da cidade que viera, uma época em que pessoas atravessavam a seca para encontrar grandes imagens de padrinhos e outros sacros, atravessavam a estrada de terra batida de joelhos, oravam de ponta a ponta e trombavam constantemente com mais gente de fé que, em atos de bondade, distribuíam pedaços de bolo e água para beber. Pagavam suas promessas e, por isso, recebiam dos céus as boas novas. A avó dizia a Antônio que não tinha mais água porque as pessoas deixaram de pedir e começaram a exigir. Mas não havia uma só alma no caminho, quanto mais caridosa.

Depois da primeira assistência, disse que conhecia Nicador. O chamou de homem de bem e trabalhador e contou que, lá, tudo o que restava era um pouco de água guardada em um poço. Chuva ele só conhecia de nome, nunca viu gota vir do alto. No tal poço, antes, passava um fio de água que secou. Fecharam as extremidades e usavam, com parcimônia, o que ficou cumulado ali. Quando lá dentro a secura também se instalou, era hora de decidir entre acabar ali ou aceitar e partir.

Em volta, tudo era escombro e nem história o lugar guardava mais. Oito casas restaram, um pedaço da antiga igreja matriz e o galpão onde antes havia um mercadinho, mas que estava fechado há tempos apenas com as prateleiras de plástico. Como já não havia nem o que juntar, pegou o pão seco e veio cantando na cabeça uma novena.

A terceira a aparecer foi Verinha. Mãe de três, chegou sozinha. Os filhos, dois garotos e uma menina quase de colo, ficaram pelo caminho. Verinha cuidava da venda de seu falecido marido, Tião, foi madrinha de casamento do irmão de Nicanor. Não foi embora na época do êxodo por conta de um amor pelo finado, queria ficar perto do corpo de Tião, ser enterrada junto com ele, se pudesse. Isso, segundo ela, lhe custou a vida dos três filhos e a culpa foi demais. Verinha fez greve de fome e morreu três dias depois.

E era isso. Antônio disse que, quando partiu, no vilarejo havia ele e a avó, Verinha e os filhos, Seu Nicanor e mais ninguém.

No dia seguinte, fechariam a estradinha de chão, único meio de vir de lá para cá, e riscar de vez do mapa aquele canto seco de mundo. Lá pelas tantas da noite, um uivo chamou atenção das pessoas, um latido triste e cansado vinha lá da passagem estéril. Era um cão, magro como não poderia estar, de um tom pastel que era igualzinho o da terra da carreira. A cauda no meio das pernas, orelhas murchas, olhos baixos, lá estava ele parado e sujo.

O último a vir de lá.

saudade

Questionados, Antônio e Nicanor negaram a existência de qualquer animal de estimação entre eles, que por anos não se davam ao luxo de ter mais um ser para compartilhar a água.

No primeiro assovio, o cachorro se alertou de orelhas em pé e avivou os olhos, correndo em direção ao comando sonoro. Sentou de frente a todos com o rabo abanando, como se tivesse cumprido sua missão. Parecia ter sido ensinado desde o primeiro dia, mais lúcido que muita gente por aí. Não tinha como ter vindo por outro caminho, nada sobreviveria à seca medonha que não pela estradinha que era a linha mais curta entre uma cidade e outra. Não comeu nada e não tomou um pingo de água.

Marchou com as patas raladas até a casa onde estavam Nicanor e Antônio, se revirou na calçada por três vezes e deitou com o focinho embaixo do rabo. Lá fez plantão por dias. Não comia e não tomava nada. De quando em quando, tirava o nariz debaixo da cauda e uivava, se levantava, rodeava na calçada por três vezes e voltava a se deitar.

O animal gania sempre que um dos dois se lembrava da terra que vieram. Quando Nicanor contava de quando era garoto e pescava no rio que cortava a cidade, quando ainda era cidade, o cão gania. Quando Antônio se lembrava da vózinha e de suas histórias, o cão choramingava. Sempre que um deles tocava ou recordava da vila, o cachorro voltava a uivar. Subia a fuça, puxava ar e soltava aquele au doído.

Foi chamado de Cão das Saudades.

* * *

Nota do editor: essa hipérbole narrativa foi concebida após conversa com o amigo Luciano Ribeiro sobre a atual crise da água no estado de São Paulo, preocupação que tomou um bom tempo de conversa e a terrível pergunta: "imagina só se Itu fosse a primeira cidade de São Paulo a efetivamente ser evacuada por falta d'água?". Fez-se a história. 


publicado em 02 de Novembro de 2014, 22:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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