Pai e filho discutindo em meio a protesto é assunto seu

São Paulo, 12 de junho de 2014. O dia dos namorados mais quente da história. Abertura da Copa do Mundo, jogo da seleção, repressão policial pesada em cima de manifestantes que tentavam denunciar violações de direitos humanos em diversos aspectos da realização do megaevento no país.

Tudo isso junto, misturado e ao mesmo tempo, a poucos meses da eleição presidencial e exatamente um ano depois da manifestação pelo passe livre que inaugurou as agora já batizadas “jornadas de junho”. Panela de pressão é pouco para descrever o sentimento generalizado de quem tem andado pelas ruas da maior metrópole do continente na última semana.

A pressão da panela, até onde as aulas de física do ensino médio me permitem lembrar, é causada pelo choque entre partículas de vapor que disputam ferozmente um espaço limitado em que estão confinadas. A panela é capaz de manter a pressão sem explodir graças a válvulas que liberam algumas dessas particulas mantendo a força das colisões em seu limite possível. Quando o limite é ultrapassado, a panela explode com força brutal.

Se em tantas situações que vivemos, ou que nos foram veiculadas pela imprensa (independente ou de massas) nos últimos meses, foi possível ver esse choque de partículas, talvez poucas tenham sido tão simbólicas quanto a discussão entre um pai e um adolescente – seu filho – ocorrida entre a manhã e a tarde de ontem em frente ao sindicato do metroviários, em São Paulo.

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A Globo não deixa a gente embedar o vídeo, mas clica aqui pra ver

O choque mais óbvio é geracional – e se engana que pensa que choque geracional não tem nada a ver com política. Em geral, os conflitos entre estilos e valores de diferentes gerações são resultado da experimentação de mundo diferentes e, se as mudanças estruturais nesse mundo são causadas pela relação entre política e cultura, façam aí as contas.

A eferverscência da juventude em relação às manifestações mais recentes já foi atribuída por alguns analistas políticos ao fato de ser esta uma geração que cresceu no período de maior estabilidade econômica e com políticas de bem-estar social instaladas, por exemplo. Poucos ou nenhum dos jovens que estão nas ruas participou das Diretas Já (anos 1980), do Fora Collor (início dos anos 1990) ou das manifestações contra a globalização (2000). Nos protestos, a tensão entre os grupos mais jovens (sobretudo os que se propõem a atuar como black bloc) e os militantes com mais estrada é também gritante.

No vídeo, porém, a questão geracional é quase um pano de fundo para o choque de discursos e posicionamento que vemos hoje com nitidez dentro de um mesmo grupo social.

A primeira frase do pai é significativa:

“Vai ter seus direitos quando trabalhar e tiver seu próprio dinheiro.”

Esse tipo de associação entre trabalho, renda e direitos é muito comum no Brasil e explica porque quase sempre enxergamos a condição de consumidor como sinônimo da condição de cidadão.

Afinal, depois de décadas de políticas que procuraram sucatear o sistema público por acreditarem em sistemas privados (o que vem com um tipo de pensamento que chamamos liberal, depois neoliberal), de fato nos sentimos mais humanos quando entramos na área VIP por termos grana do que quando enfrentamos filas pra beber água perto de um banheiro imundo. O problema é que essa associação é falaciosa.

Se falamos em direitos humanos e direitos de cidadania, é justamente para garantir que esses direitos não dependam de nenhum fator além da existência da pessoa nesta sociedade.

O pai do rapaz continua, dizendo que por ser seu filho, ele não teria sido “criado para isso”. No caso, “isso” parece ter o sentido de militância política direta, nas ruas, como o menino fazia ali. Realmente, ao condicionar a cidadania à renda e ao consumo, o pai provavelmente não acredita que se deva ir às ruas para causar mudanças políticas.

Na lógica do discurso do pai, o rapaz provavelmente deveria focar sua energia no sucesso individual que receberia por mérito próprio com muito trabalho e esforço (como ele acredita ter feito, ele mesmo, pelo bem do filho). Esse choque entre uma perspectiva que prioriza o indivíduo e outra que prioriza o coletivo também é evidente na discussão dos dois.

O menino provavelmente tem acesso à saúde e educação privadas. Está em posição de privilégio social em relação à maioria da população brasileira, apenas por ser homem, branco e de classe média. Ainda assim, vai às ruas, sente que algo precisa mudar – mesmo que ele possa nem ter um projeto específico de como mudar (e que confunda um monte de conceitos como Estado/governo, etc). Ele vai às ruas pelo coletivo, porque lhe parece que há algo além desse destino individual de sucesso econômico-carreira-casamento-filhos-trabalho que se desenhou para ele, e que o pai espera que ele cumpra.

É por isso, sempre, que vamos às ruas. Pelo coletivo. É por isso que não me parece contradição alguma pessoas que podem pagar R$3 na passagem de ônibus lutarem pela tarifa zero. É uma questão de projeto. Mesmo se eu tenho acesso a quase todos os privilégios sociais; o ponto é que, em vez de desejar acumular ainda mais privilégios, desejo todos os dias que eles deixem de sê-lo para se tornarem apenas recursos, acessíveis e acessados por todas as pessoas que compartilham o planeta comigo. Elas merecem, pelo simples fato de serem humanas.

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publicado em 15 de Junho de 2014, 11:55
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Marília Moschkovich

Socióloga, mestra em educação e doutoranda na mesma área. Militante do movimento feminista, escreve no site Outras Palavras e twitta como @MariliaMoscou. Defende um mundo com justiça de gênero e direitos humanos assegurados para todas e todos.


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