Pare de ignorar o "elefante no meio da sala"

Como parar de fazer vista grossa para as verdades silenciosas

Eu lembro de quando terminei meu primeiro namoro. Estava a dez dias do aniversário dela e perguntei com todo receio do mundo "você quer que eu te ligue para dar os parabéns?". Ela replicou brava e enfaticamente "não!".

Eu atendi ao apelo e silenciei, mesmo tendo pensado o dia todo nela. No dia seguinte, recebi uma ligação "por que você não me deu parabéns ontem?", respondi ingenuamente "por que você pediu para não ligar…". 

Ela desligou o telefone na minha cara e nunca mais nos falamos.

Demorei para entender o que tinha acontecido. A verdade é que eu estava muito concentrado em mim mesmo e no meu medo de parecer o lobo mau, quis ser "gentil", respeitar o pedido dela. Mas, na realidade, não consegui perceber que ela queria que eu usasse a ligação pra demonstrar arrependimento de ter terminado. Ela queria sentir que ainda havia alguma chance.

De fato, o relacionamento tinha chegado ao fim. Não havia mais chance alguma.

Mesmo assim, eu poderia ser um pouco menos frio e ligar só por protocolo, só por consideração pelos quatro anos juntos e passar, se fosse o caso, por uma pequena humilhação que equalizaria, na cabeça dela, o término doloroso. Soube disso algum tempo depois por uma amiga em comum.

* * *

Contei esse causo pra deixar evidente um ponto.

Há dinâmicas de relacionamento que criam um tipo de subtexto, uma realidade difícil de ser compartilhada, que surge de uma condição de inferioridade, da desproporcionalidade entre duas partes - pode ser por questão de força, status e posição de poder (riqueza, beleza, fama).

A parte não escutada não se vê em condições de expressar aquilo sem arrancar pedaços importantes da relação.

Então, puxando de novo pro meu caso, por que fui incapaz de perceber as entrelinhas?

Penso que por dois motivos: eu tanto não conseguia entender como não podia entender.

1. Eu não consigo entender subtexto

Em situações de aflição é comum perdermos nossa capacidade de análise.

Eu, por exemplo, até o momento do término não tinha condições de ler o contexto e não consegui me colocar efetivamente no lugar da minha namorada. Eu estava preso nas minhas questões.

Aqui embaixo cito algumas características necessárias para melhorar nossa capacidade de ler o subtexto:

a. Empatia: capacidade de compreender racional e emocionalmente quais são os sentimentos e pensamentos de uma pessoa, considerando o contexto e a complexidade do que a move na vida.

b. Sensibilidade: para perceber como a mensagem toma rumos diversos e ocorrem diferentes variações de tempo, entonação da voz, etc.

c. Desejo de ajudar: para ouvir o outro de verdade é importante haver uma disposição de ajudar, não como um terapeuta ou um médico, mas como alguém que fica condoído e pode pelo menos estar ali para tolerar a dor conjuntamente. Nesse caso, as necessidades do outro precisa se sobrepor às próprias por um instante.

d. Proatividade: desejo de fazer algo para alterar a qualidade da relação, deixar tudo mais claro, principalmente se a questão que bloqueia a comunicação diz respeito aos dois envolvidos na conversa.

e. Sabedoria: para ler além das aparências. Isso é fundamental na comunicação, pois nem tudo o que é verbalmente dito está conectado com a verdade que não está dita. Quando alguém pergunta para outro "está servido?" enquanto morde seu cachorro-quente não quer oferecer de fato o lanche, mas se mostrar gentil. Acreditar na fala literal é uma ingenuidade de alguém que está pregado ao verbal sem entender que a comunicação é muito mais do que fala e, sim, corpo e contexto.

Eu não posso entender o subtexto

Imagine uma criança adotada que chega à adolescência sem saber que quem cuida dela, na verdade, não são seus pais biológicos. Mesmo com todos os sinais, a verdade não é tolerável, por isso, é difícil de ser percebida, apesar da diferença de aparência, falas do tipo "filha do coração" ou comentários sobre o tema jogados em conversas na mesa de jantar.

Quando um subtexto é muito doloroso, ele se torna silencioso, mesmo que o tema grite alarmantemente.

Pense numa típica reunião da empresa onde o "líder" pede para que as pessoas sejam proativas e deem suas opiniões sobre o que está rolando de problemas internos.

Todos pensam a mesma coisa: "você é um animal que age como um ditador (pedindo trabalhos impossíveis em prazos estúpidos) e depois vem com esse sorriso amarelo nos pedir integração de equipe".

Na posição desse chefe é muito difícil entender o subtexto, porque isso implicaria ele ser outra pessoa, assumir outra postura, mudar uma série de comportamentos destrutivos que está habituado a considerar normais.

Para ele entender, seria necessário perder vantagens que não está disposto a abrir mão. Ele precisaria ser mais humano, atingir menos metas, mesmo que conseguisse uma real integração da equipe à longo prazo.

Ouvir de verdade exige sacrifícios difíceis.

Outro exemplo: um marido pergunta para a esposa porque ela não se mostra sexualmente disponível.

Seria muito difícil a ela dizer "você faz eu me sentir pequena sempre que pergunta porque estou sem fazer nada, quando na verdade tudo está operando lindamente na casa com os três filhos porque eu deixo tudo arrumado. Você, 'senhor do dinheiro', é muito folgado em achar que só a sua colaboração financeira é o suficiente. Além disso, seu mau humor crônico não cria nenhum espaço para admiração e tesão. Por isso, não tenho vontade nem de fazer sexo oral".

Ouvir de verdade o que está sendo dito é um exercício trabalhoso porque todos precisam admitir que alguém peidou na sala. E, sabemos que na vida prática pouca gente está aberta a admitir falhas e erros sem sair arrasada pela sensação de derrota.

É sempre na relação com algum desnivelamento de poder que a surdez emocional acontece. Quando alguém não se sente ouvido, há grandes chances de haver uma outra parte pouco disposta a escutar.

Ouvir pede ações muitas vezes difíceis. É nessa hora que a verdade é trocada por uma conformidade silenciosa.


publicado em 19 de Novembro de 2015, 22:26
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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