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Pessoas que ateiam fogo em si não são malucas

Este não é, de modo algum, um artigo que visa mostrar bizarrices de pessoas que podem ser consideradas, em qualquer instância, malucas. O julgamento, de qualquer espécie, deve ser abstraído e qualquer entendimento de que os eventos abaixo estão fora do controle da saniedade humana será, com toda certeza, um erro fatal para o entendimento.

Não tem um grande pensamento envolvendo esse artigo. Tudo o que falarei abaixo trata de atos de fé.

A luta de fogo indiana que acalma os deuses

O Agni Keli é uma luta pirotécnica encenada, porém bem real, com o intuito de deixar mais calminha a Durga, a deusa suprema, considerada a mãe de Ganesha, uma das mais conhecidas e veneradas semi-deusas do hinduísmo. Essa tal luta acontece em Mangalore, na Índia.

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Conhecido como Festival do templo de Durga Kateel Parameswari, a "festa" é celebrada por 8 dias, no mês de abril. Em uma das noites, acontece essa luta intrigante em que dois grupos de devotos se separam em time, ficando a uma distância entre 10 e 15 metros um do outro.Armados com tochas incandescentes, eles começam a jogar as estacas de fogo uns nos outros, tentando abater o máximo de devotos do grupo oposto. 

Durante a luta de fogo sagrado, cada participante só pode fazer cinco arremesso. Para evitar queimaduras graves, os homens usam apenas uma tira de pano cobrindo saco e bunda (que, muitas vezes, pegam fogo sim). Se uma pessoa que sofre qualquer queimaduras, são pulverizadas com água de Kumkumarchane, uma espécie de água benta ou sagrada.

Como cada participante tem um número certo de arremessos, a luta dura cerca de 15 minutos, o suficiente para que a deusa fique satisfeita com seus devotos. Vale lembrar que todo o evento não tem  o intuito de ferir-se em nome dos deuses e nem ferir outros para benefício de um todo. Não há fanatismo ou desconhecimento das coisas do mundo.

Para comemorar as festas juninas, os brasileiros fazem fogueiras de tamanhos diversos e há diversas brincadeiras em volta dela, inclusive pular a tal fogueira. Balões são colocados no ar e sobem por meio de tochas que fazem os pequenos arranjados de papel voar. Não preciso entrar nos detalhes de todos os perigos causados por esses balões ao cair, horas depois.

Essa explicação eu faço questão de colocar para percebermos como coisas que parecem tão distantes e malucas estão, com outras roupagens, tão presentes na nossa cultura quanto em outras que conhecemos menos. Não são as intenções que contam. São os atos.

A auto-imolação

A auto-imolação é o ato de botar fogo em si próprio, com o completo intuito de sacrifício.

Desde março de 2011, pelo menos 40 tibetanos (em sua maioria monges budistas), cometeram a auto-imolação nas áreas de população tibetana na China para protestar contra a política de Pequim para o Tibete. Nesse último mês, dois tibetanos de aproximadamente 20 anos cometeram a auto-imolação em protesto. Um deles morreu e o outro está internado em estado gravíssimo.

O caso mais conhecido de auto-imolação foi o do monge Thích Quảng Ðức, no Vietnã do Sul em 1963, contra a política religiosa do governo de Ngo Dinh Diem, primeiro presidente após a separação do Vietnã.

Esse caso ficou bem famoso na época pois, segundo a história, o coração do monge permaneceu intacto perante o fogo, o que colocou o nome de Thích Quảng Ðức como Bodisatva, um ser que se coloca na posição de ajudar outros. É a foto dele que estampa a capa do disco de estreia da banda Rage Against the Machine, grupo de música que tinha grande teor político em suas canções.

Foto colorida do monge Thích Quảng Đức

Há séculos que o Tibete tenta se ver livre do domínio chinês, que afirma que o Estado é parte inseparável de seu território. Os tibetanos se consideram livres e autônomos, tendo seu território invadido e dominado pelas tropas comunistas na década de 50. As conversações continuam até hoje, sem previsão - infelizmente - para o fim do conflito territorial e religioso.

A Stephanie Brigden, diretora da campanha Free Tibet, tem provavelmente respostas melhores que as minhas.

Não é coisa de oriental, não é coisa de maluco, não é coisa de desesperado

Não comece a tirar conclusões ainda. A imolação é constantemente - e erroneamente - ligada aos tibetanos e aos budistas. Uma lógica burra que é bem fácil de se deixar levar (e enganar). O ato de tomar banho não pode ser (e não é) ligado ao cristianismo porque os cristãos tomam muitos banhos. É a mesma linha de raciocínio.

A imolação não é uma prática tibetana e não é uma prática do budismo. É apenas um modo ousado de protesto. Estamos falando de um povo que não tem liberdade plena - por opressão de outro Estado maior - de sua religião, de sua cultura, de suas terras, de suas vidas.  Também não dá pra saber, caso a caso, o que é apenas desespero e o que é uma ação feita com a mente plenamente tranquila. É um desapego tal que não é bem compreensível para esse mundo "ocidental".

Depois da Primavera Árabe, a Europa virou o centro das atenções na mídia, tudo por causa da intensa crise econômica. A Grécia parece ser o ponto focal da coisa toda e, por lá, um senhor de 55 anos tentou atear fogo em si mesmo em ato de protesto. Na Noruega, outro homem tentou fazer o mesmo em frente ao local onde estava acontecendo o julgamento do ultradireitista Anders Behring Breivik. O ato não foi relacionado ao julgamento.

Como devemos lidar com isso tudo?

A última coisa que pretendo é ditar regras. Tampouco, quero defender ou incentivar qualquer tipo de ação.

Todo o esforço desse texto visa um entendimento maior das opções individuais mundo afora. Em nosso cotidiano, vemos pessoas se entregando ao álcool como fuga dos problemas. Idem às drogas. As opções acima, tidas como atos de desespero, são ações mais imediatas que os pontos colocados agora, mas não mais malucas, mais destrutivas. Estamos cercados de gente que vive por um trabalho que não gosta, que "sacrificam" suas vidas por uma causa individual perdida. Não há um único motivo sequer para colocar uma situação acima da outra. Não existe um porque de se estar anestesiado para um e perplexo para outros.

Vivemos em um mundo confuso. Boa parte dessa confusão é causada por nós mesmos.


publicado em 28 de Junho de 2012, 07:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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