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Por favor, nunca pare de viajar

Sobre liberdade e o conceito de se criar uma cultura de viagens, de como é importante sair do ninho e conhecer outras culturas e visões de mundo

O sol ainda não havia nascido quando entrei no carro. Sonolento, eu tentava entender o que o motorista dizia, num inglês carregado de sotaque. Vários minutos montanha acima depois e chegávamos ao nosso destino, um mirante no alto de Pokhara, cidade do interior do Nepal.

Apesar da madrugada ainda dominar os ponteiros do relógio, o local estava cheio. Uma pequena multidão se reunia ali, gente de várias partes do mundo e que tinha vencido o sono para testemunhar um momento único. Inesquecível. Todos prenderam a respiração quando o sol começou a nascer, iluminando, pouco a pouco, a grandiosidade do Himalaia.

Pokhara

Este foi um dos momentos mais mágicos que vivi desde que coloquei uma mochila nas costas e comecei a viajar, em 2009. Foi naquele ano que me formei, consegui meu primeiro emprego e passei a juntar grana todo mês, sempre com o objetivo de tirar a mochila do armário.

Viajar é uma oportunidade de conhecer cartões-postais que já vimos milhões de vezes em fotos, mas de pertinho, com todo o impacto que esse tipo de experiência é capaz de causar. É uma oportunidade de descansar, se divertir e, por que não, sonhar acordado, pensando em como seria viver lá e não cá.

Pensando nas muitas vidas diferentes que poderíamos ter, em cada esquina do mundo. Mas o ato de colocar uma mochila nas costas e se entregar ao mundo pode ser mais.

Viajar é uma chance de se abrir para o mundo

Bukhansan National Park em Seoul, Coreia do Sul

Sair de casa e conhecer um lugar relativamente distante é entender que a forma como enxergamos a vida - e nos colocamos neste planeta - é influenciada pelo meio em que crescemos e vivemos. Entender que tudo é transitório, um momento passageiro no fluxo continuo de acontecimentos que é a vida.

Percebi o tamanho do mundo logo na minha primeira viagem internacional, para a África do Sul. Acostumado que somos com uma cultura majoritariamente cristã, me surpreendi com a multidão de muçulmanos que tomava conta das ruas de Cape Town. Gente que lotava mesquitas e esquinas com sua fé.

Um ano mais tarde, acrescentei cores ao quadro religioso do mundo ao conhecer hindus, budistas, sikhs e tantos outros, durante um período de quase um ano morando e viajando pela Ásia.

Nossas verdades caem por terra tantas vezes que começamos a criar novos sensos do que é verdade, de como o mundo opera (ou deveria operar).

Cair na estrada te dá a oportunidade de aprender a ser mais tolerante 

Mesquita em dia de culto. Jacarta, Indonésia

Entender que coisas que acreditamos profundamente, como se fossem verdades absolutas, podem não ter qualquer sentido do outro lado do mundo. Mais: que a maior parte do mundo pode pensar de forma diferente da gente.

Viajar é um convite ao respeito e ao entendimento.

Nas palavras de Mark Twain, viajar pode ser “fatal para o preconceito, a intolerância e as ideias limitadas”. Para que isso ocorra de fato, claro, é preciso que o próprio viajante se abra, aceite as diferenças e esteja pronto para mudar.

Vendo de perto como outras culturas podem ser tão diferentes e como a nossa pode ser completamente ignorada em pedaços do globo nos dá, com a nossa abertura ao entendimento, essa compreensão tolerante de que a coisa é bem maior do que poderia julgar a nossa vã filosofia. 

Da tolerância vem o respeito e, mais adiante, a convivência.

E, ao mesmo tempo, viajando percebemos que não somos tão diferentes assim 

Açougue em Mumbai, Índia

Entre 2011 e 2012, passei seis meses na Índia. Morei e trabalhei numa empresa indiana, eu vivi o dia a dia de lá. Mesmo que aquele mundo fosse completamente diferente para mim, causando um choque cultural gigantesco toda vez que eu colocava os pés para fora de casa, também percebi que, por mais diferentes que fôssemos, no geral um jovem morador de uma grande capital brasileira tem desejos, sonhos e medos muito parecidos com os de um morador de Mumbai ou Pequim.

No fim das contas, para as coisas que realmente importam, eu e um jovem indiano tínhamos muito em comum.

Viajando que percebi como preconceitos surgem - e pude lutar contra isso

Pequim, China

E notei como o mundo está imerso no falso discurso da história única. Discurso que reforça estereótipos e aumenta o medo:

Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.

E se antes de minha viagem ao México, eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família de Fide era pobre e trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para todo o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama "um equilíbrio de histórias."

Um dia tive que contar para minha família sobre os meus planos de passar seis meses na Índia. Eu esperava uma reação forte, claro, afinal não se trata de um destino comum. Mas nada me preparou para o choro (literal) e o medo das pessoas. Acharam que eu não iria voltar. Acharam que eu tinha perdido o juízo. Me perguntavam até como eu iria fazer para ir ao banheiro, já que, diziam todos, não havia nem vaso sanitário por lá. “Eu vi na TV!”, explicavam.

Diziam que eu teria que me acostumar a comer com as mãos, já que seria impossível achar talheres - ouvi tanto isso que levei até um conjunto de garfo, faca e colher de casa, algo totalmente inútil, afinal toda casa ou restaurante indiano em que fui tinha talheres. Mais que piadas, os estereótipos culturais criam medo e impedem que muita gente saia de casa, por receio de enfrentar o desconhecido. Por receio de enfrentar o diferente.

Mas, como diria Mia Couto, “há, neste mundo, mais medo de coisas más que coisas más propriamente ditas”. Viajar te mostra que o mundo é mais seguro que a gente pensa, que há mais pessoas prontas para te ajudar do que gente querendo te fazer mal.

Mas então? E se eu não quiser parar de viajar?

Ao fazer as malas e encarar o novo pelo primeira vez, percebi que não queria apenas viajar, mas viver na estrada; que não queria apenas conhecer outras culturas; mas fazer parte de cada esfera do mundo; que não queria só pisar em outras terras, mas me sentir pertencente a todos os lugares. Mesmo que fazer parte de tudo signifique não fazer parte de nada por muito tempo.

É que a vida do viajante segue em frente, sempre em busca de novos destinos, novos lugares, novas pessoas. Não importa o quanto eu tenha amado conhecer uma cidade e diga que vá voltar logo. O mundo é grande demais, dá voltas demais. E há sempre outro lugar incrível para conhecer antes que você consiga dar a volta ao globo e voltar a um local que mexeu com você.

Talvez essa seja a maior angústia de quem ama viajar: a vida parece ser curta para tantos lugares interessantes. Seria preciso duas, três, quatro encarnações para completar aquele checklist de viagem que você escreveu. Uma lista que nunca para de crescer.

E, como acontece com todo mundo, ainda é preciso trabalhar. Vencer o expediente. Pagar contas, viver o dia a dia e sonhar acordado com o melhor mês do ano - o das férias. Mês que te permitirá tirar a listinha da gaveta e cortar mais um item de seus objetivos de viajante.

Qual a saída então? Simples: nunca parar de viajar

Nunca. É possível criar uma cultura, um estilo de vida mais viajante. E não apenas quando você está de férias. Ter 30 dias inteiros para cair na estrada é lindo, claro. Mas por que não conhecer uma cidade vizinha num fim de semana? Por que não aproveitar um feriadão para visitar um estado próximo ao seu? Não importa onde você vive, é provável que exista uma grande cidade a poucas horas de viagem de você. Vá.

Viajar não precisa ser caro. Não precisa de fórmula. Não precisa sequer ser para longe. Você pode viajar para a cidade vizinha e até mesmo em sua própria cidade - quantos lugares legais há por perto, lugares que turistas do mundo inteiro gostariam de conhecer, mas que você ainda não foi visitar?

E, na hora que você estiver em casa, num dia chuvoso no meio da semana, ainda assim é possível viajar. Dá para viajar por livros, por filmes, por séries e até planejamento as próximas viagens. É possível mergulhar em outras culturas de forma constante, até quando não podemos sair de casa.

Viajar é uma chance de conhecer o mundo e a você mesmo de uma só vez. Quem garante isso não sou eu, mas o Gandalf, em O Hobbit. Afinal de contas, as obras do Tolkien podem falar de dragões, elfos, anões e medos inomináveis, mas no fundo, no fundo, o tema central é o mesmo - aquilo que se ganha quando você deixa sua toca e encara uma aventura. É isso que mostra o diálogo abaixo, entre o mago Gandalf e o Bilbo.

Gandalf:  Estou procurando alguém para participar de uma aventura que estou organizando, e está muito difícil achar alguém.

Bilbo: Acho que sim, ainda mais por esses lados! Nós somos gente simples e acomodada. E eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e desconfortáveis. Fazem com que você se atrase para o jantar. Não consigo imaginar o que as pessoas vêem nelas.

Gandalf: Você vai ter uma história ou duas para contar quando voltar.

Bilbo: Você pode me prometer que eu vou voltar?

Gandalf: Não. E se voltar, você não será o mesmo.

Acredite, quando você sai de casa e coloca os pés na estrada, é impossível saber como você vai voltar - e é bem provável que volte outra pessoa, alguém diferente daquele que aceitou encarar o mundo.

Aconteceu comigo.

Mecenas: Land Rover

Quem frequenta os mesmos lugares, navega pelos mesmos terrenos e viaja sempre para os mesmos destinos nunca vai descobrir o melhor que a vida tem para nos oferecer. Por isso, aventure-se, descubra, experimente novos sabores, paisagens, conheça novas culturas, amplie seus horizontes. E quando você precisar de um parceiro para ir até a cidade vizinha, ou para outro lugar do mundo, pode contar com a gente.

Vantagens fora de série Land Rover. Toda linha Discovery Sport com taxa 0% e 5 anos de Serviço Premium por R$ 1.990,00.


publicado em 07 de Março de 2016, 00:10
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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